Olimpíadas: Como o boxe do Brasil superou 44 anos de jejum e se tornou vencedor

Nas últimas três edições dos Jogos, o boxe brasileiro faturou sete medalhas e se transformou no segundo esporte mais vencedor do país no período

Hebert Conceição acerta golpe durante a final olímpica do peso médio
Hebert Conceição acerta golpe durante a final olímpica do peso médio Foto: Wander Roberto / COB

Fernando Gavini, do Olimpíada Todo Dia

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Trabalho, organização, dinheiro bem investido e talento. Estes quatro fatores resumem a mudança de patamar do boxe brasileiro. Depois do bronze conquistado por Servílio de Oliveira na Cidade do México-1968, o país ficou longos 44 anos sem pódio. Mas desde Londres-2012, o cenário mudou completamente e a modalidade se tornou uma das que mais conquistam medalhas. Com as três conquistadas nas Olimpíadas de 2020, o esporte chega a sete medalhas nas últimas três, número inferior apenas ao do judô, que ganhou nove no mesmo período.

“Isso tudo só é possível por causa da estrutura que o NAR (Núcleo de Alto Rendimento) nos oferece, do dinheiro que o COB (Comitê Olímpico do Brasil) passa para gente e a seriedade da CBBoxe (Confederação Brasileira de Boxe) em buscar resultados. Eu consegui cumprir o plano de treinamento dos últimos quatro anos quase que 100% e os resultados estão aí”, diz Mateus Alves, que há dez anos faz parte da comissão técnica da seleção brasileira.

Ele entrou em 2011 como assistente técnico e virou treinador principal no ciclo para Tóquio-2020. “A gente tem certeza que o processo desse trabalho é que está dando o resultado. Não sou só eu como treinador ou a Bia (Ferreira) ou o Hebert (Conceição) como atleta talentosos. É um processo de trabalho que começou em 2009 e está cada vez está mais maduro”, acredita.

Seleção permanente

Na seleção permanente, os atletas não precisam se preocupar com nada além de treinar e melhorar o desempenho. A sede é no clube Joerg Bruder, em Santo Amaro, bairro da zona sul de São Paulo, espaço que pertence à Secretaria Municipal de Esportes da capital paulista, onde os pugilistas brasileiros têm à disposição uma academia completa de boxe. Ao lado, fica o NAR, com quem a CBBoxe tem parceria, onde são realizados testes de potência, treinamentos de força e trabalhos na pista de atletismo.

No dia a dia de treinamentos, os atletas contam com o apoio de uma equipe multidisciplinar formada por Mateus Alves e seus quatro assistentes técnicos, preparador físico, dois fisioterapeutas, massagista, nutricionista, psicóloga e médica.

Os atletas moram em quatro casas alugadas na região pela CBBoxe e um restaurante fornece diariamente todas as refeições para eles. Na parte financeira, os atletas ganham bolsa do governo federal, salário da CBBoxe e ainda fazem parte do programa esportivo das Forças Armadas. Além disso, alguns atletas contam com patrocínios pessoais como é o caso de Beatriz Ferreira, que conta com o apoio de Petrobrás, MRV e Nike.

Captação de talentos

Bia Ferreira golpeia pugilista do Uzbequistão em luta vencida de forma unanime
Bia Ferreira (D) golpeia adversária durante luta nas Olimpíadas
Foto: Dan Mullan – 3.ago.2021/Getty Images

Mas como são escolhidos os atletas para fazer parte da seleção permanente? “A maioria vêm de projetos sociais que são tocados por treinadores de boxe em diversos estados, alguns com apoios de prefeituras e de empresas e outros que fazem com seu próprio dinheiro. Ou é isso ou é através de pais ou mães que lutaram boxe de treinam seus filhos. Ou é família de boxeadores ou projetos sociais”, explica Mateus Alves.

No caso dos sete pugilistas que representam o Brasil nos Jogos Olímpicos de Tóquio, Beatriz Ferreira é o exemplo de quem começou com o pai Raimundo Ferreira, o Sertão. Os outros, Hebert Conceição, Abner Teixeira, Keno Marley, Wanderson Oliveira, Jucielen Romeu e Graziele de Jesus saíram de projetos sociais.

Já a observação para descobrir quem tem talento para fazer parte da equipe permanente começa nos Campeonatos Brasileiros de base. “Quando a gente vê um talento com 15 e 16 anos, a gente começa a acompanhar esse atleta. Quando chega na idade juvenil (17 e 18 anos), a gente faz bases nacionais de treinamento para ver como esses atletas respondem a um treinamento lá na seleção. Se a gente perceber que é um talento diferenciado, a gente já inclui na equipe adulta, mesmo sendo juvenil. Isso aconteceu com o Bolinha (Luís Oliveira, neto de Servílio de Oliveira) e com o Keno Marley, quando eles tinham 17 anos, e está acontecendo agora com um atleta chamado Isaías Filho, que também foi morar com a equipe sendo juvenil”.

Passo a passo

Abner Teixeira
Abner Teixeira foi medalhista de bronze nas Olimpíadas de Tóquio
Foto: Jonne Roriz/COB/Divulgação

Para o ciclo de Tóquio-2020, a equipe montada conseguiu um desempenho acima das expectativas. Após os dois primeiros anos, a avaliação era de que apenas Beatriz Ferreira chegaria ao Japão com chances de ganhar medalha. A equipe masculina, muito jovem, estava sendo preparada para Paris-2024, mas o trabalho foi tão bem feito que os frutos vieram antes do esperado com os pódios conquistados por Abner Teixeira e Hebert Conceição.

“Não é do dia para a noite. É Jogos Sul-Americanos, Jogos Pan-Americanos, Mundial, Olimpíada. É uma escada que a gente tem que cumprir com esses atletas e para subir essa escada tem muita perna junto. A gente faz um calendário com dois camps internacionais, dez competições internacionais e temos verba para cumprir esses campeonatos. É o trabalho de muita gente dando condições para que atletas talentososo possam desenvolver e atingir os objetivos esportivos. É uma gestão focada em atingir os objetivos esportivos”, completa Mateus Alves.

O desfecho acontece com as finais olímpicas: Hebert Conceição foi campeão do peso médio (até 75kg) e agora Beatriz Ferreira tentará repetir o feito no peso leve (até 60kg). Na luta pelo ouro, ela vai enfrentar a irlandesa Kellie Anne Harrington às 2h (horário de Brasília) deste domingo.

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