Aplicativos de cirurgia plástica na China: deslize para comprar um rosto novo

Aplicativos que ligam pacientes a cirurgiões e clínicas são populares na China. GengMei, o maior deles, tem 36 milhões de usuários e 20 mil médicos cadastrados

Da CNN
28 de março de 2020 às 15:37
Interface do app chinês de cirurgias plásticas GengMei
Foto: Reprodução

Wu Xiaochen disse que tinha 14 anos quando fez seu primeiro procedimento estético – uma lipoaspiração paga por sua mãe para reduzir a gordura das coxas.

Na época, ela disse que havia sido diagnosticada com uma doença autoimune que exigia um tratamento com glicocorticoides, uma classe de hormônios esteróides.

"Eu tinha ganhado muito peso e me sentia muito desconfortável com meu corpo", disse Wu, agora uma modelo e empresária de 30 anos morando em Pequim. "Eu me senti muito mais confiante depois disso."

Nos 16 anos desde o primeiro procedimento, Wu afirma ter se submetido a mais de 100 cirurgias, custando impressionantes 4 milhões de yuans (cerca de US$ 574.000).

Ela agora é uma famosa defensora do setor, tendo aberto duas clínicas de beleza que oferecem cirurgia plástica em Pequim.

O mercado potencial de Wu é enorme.

Um número crescente de mulheres chinesas está se submetendo à cirurgia plástica para obter olhos maiores, maçãs do rosto altas, nariz fino e pernas magras. Como Wu, muitas procuram imitar um ideal de beleza inspirado em elementos dos mangás do Japão, K-Pop da Coreia do Sul e da cultura ocidental.

Em 2014, mais de 7 milhões de chineses fizeram cirurgias plásticas, de acordo com a Associação Chinesa de Plásticas e Estética. Apenas três anos depois, os dados compilados pela filial de Shanghai dos consultores da Frost & Sullivan sugeriam que o número chegava a quase 16,3 milhões.

De acordo com especialistas entrevistados pela CNN, o rápido aumento de cirurgias plásticas na China se deve em parte a uma série de aplicativos como o So-Young e o GengMei, que permitem que pacientes em potencial vejam fotos antes e depois, marquem cirurgias e até solicitem crédito para pagar por elas.

"Na China, é muito difícil encontrar informações confiáveis sobre clínicas, especialmente em cidades menores", explicou Tony DeGennaro, cofundador da Dragon Social, uma agência de inteligência de mercado chinesa. "As pessoas não confiam mais nos resultados de pesquisa retornados pelo (site de busca) Baidu, após vários escândalos médicos envolvendo a plataforma; então, esses novos aplicativos passaram a ser listas não oficiais com informações de contato de cirurgiões".

"Não é bonita o suficiente"

Wu cresceu em uma família de classe média em Shenyang, uma grande cidade industrial no nordeste da China. Quando adolescente, estudou arte e sonhava em ser famosa. Uma atriz, ou talvez uma modelo.

Mas ela achava que não era bonita o suficiente e se sentiu insegura com seus "olhos pequenos e rosto redondo". Então, após seu primeiro procedimento bem-sucedido, disse que logo optou por fazer uma lipoaspiração facial - para deixar seu rosto mais fino, removendo um pouco de gordura - e depois por uma cirurgia de contorno facial, para dar uma aparência mais angular, com a colocação de implantes de silicone nas maçãs do rosto.

Aos 16 anos, ela disse que elevou a ponte nasal para que tivesse uma aparência mais alta e mais longa. Depois disso passou por cirurgias para dar à sua mandíbula um formato em V, implantes mamários e um procedimento de pálpebra dupla para adicionar um vinco às pálpebras, fazendo os olhos parecerem maiores. "A cada dois ou três anos, eu faço mais alguns procedimentos", disse ela. "A cirurgia acabou se tornando meio que um vício para mim."

Muitas das mulheres chinesas que fazem cirurgia plástica são jovens e vivem nas cidades de segundo e terceiro nível do país, de acordo com um documento publicado em 2019 pelo So-Young, com base na análise de seus próprios dados e visitas a clínicas.

Mais da metade tem menos de 26 anos, informou o documento. Em comparação, pacientes de cirurgia plástica com menos de 30 anos representam apenas 6% do total nos EUA.

Para os membros da geração Z da China, fazer cirurgia plástica é uma forma de se destacar em um contexto de namoro e de mercado de trabalho cada vez mais competitivo. "A China continua sendo uma sociedade muito patriarcal", disse Brenda Alegre, professora de estudos de gênero da Universidade de Hong Kong, que pesquisou a tendência de cirurgia plástica. "Ser bonita é uma maneira de garantir que você terá sucesso no trabalho e encontrará um marido".

A disseminação da cultura da Internet, com apresentadores atraentes transmitindo ao vivo e aplicativos de fotos como o Meitu, que permite que seus usuários aprimorem suas selfies removendo imperfeições, também tem feito com que a cirurgia plástica se tornasse mais desejável. "As pessoas procuram replicar na vida real os efeitos que estão conseguindo com esses aplicativos", disse Stephanie Lam, cirurgiã plástica em Hong Kong.

Aplicativos para cirurgia plástica

Aplicativos que ligam pacientes a cirurgiões e clínicas são incrivelmente populares na China.

O maior deles, o GengMei, tem 36 milhões de usuários e conta com uma lista de quase 20.000 cirurgiões em sua plataforma, confirmou uma porta-voz da empresa. O So-Young, apoiado pela Tencent, tem 2,47 milhões de usuários ativos mensais e uma lista de quase 6.000 cirurgiões, de acordo com um porta-voz da So-Young.

Esses aplicativos fornecem testemunhos de pacientes de cirurgia estética, com fotos de antes e depois, além de análises de cirurgiões.

O GengMei possui um recurso de realidade aumentada que pode analisar um rosto e dar a ele uma nota de até 100, com base em critérios como disposição, atratividade e simetria. Em seguida, ele dá sugestões para melhorias através de cirurgia plástica, como refazer as pálpebras ou obter preenchimentos.

"Através do aplicativo GengMei, podemos acessar todas as informações médicas sobre beleza sem sair de casa", disse Wu.

"Isso é um reflexo do desenvolvimento da nossa sociedade e um microcosmo da nossa mudança de estilo de vida".

O aplicativo ainda oferece aos usuários acesso a micro-empréstimos através do serviço de empréstimos da Alipay, o Huabei, para pagar pela cirurgia.

Ofertas especiais

Durante as férias de verão, período em que muitas jovens passam por cirurgias plásticas para ganhar uma nova aparência antes do início do ano letivo, algumas clínicas oferecem descontos e pacotes especiais, disse Alegre, professora da Universidade de Hong Kong. "As meninas farão cirurgia em grupos, para se beneficiarem de ofertas como três procedimentos pelo preço de dois".

Nessas clínicas, a cirurgia de pálpebra dupla pode custar até 1.000 yuans (US$ 142), segundo DeGennaro, da Dragon Social.

Pacientes mais ricas preferem ir a clínicas na Coreia do Sul, Tailândia ou Hong Kong para realizar procedimentos, disse Lam. "Elas acreditam que os médicos são mais confiáveis no exterior", acrescentou.

Uma dessas clínicas fica no One Pacific Place, um prédio de escritórios construído em cima de um shopping de luxo no centro de Hong Kong. Decorado com sofás bege, arte de vanguarda e enormes janelas com ampla vista para o porto, parece mais um spa sofisticado do que uma clínica. Mas é uma divisão do Hong Kong Sanitorium & Hospital, uma das instalações médicas particulares da cidade.

"Atendemos muitos pacientes da China continental", disse o Dr. Gordon Ma, chefe do Centro de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva do hospital. Entre os mais jovens, a cirurgia de pálpebra dupla é o procedimento mais comum, disse ele.

"Alguns desses clientes querem ir até onde é possível", acrescentou. "Eles não querem apenas realçar sua beleza natural, querem alterar sua aparência de maneira perceptível e óbvia."

Encontrando um novo visual

Com seus olhos grandes, nariz longo e reto e lábios carnudos, Wu não se parece em nada com a adolescente tímida das antigas fotos de família.

"Durante muito tempo, eu tentava copiar o rosto de Angelababy", disse ela, referindo-se a uma famosa atriz e modelo chinesa. "Mas eu me afastei progressivamente desse modelo e comecei a desenvolver minha própria aparência, misturando e combinando recursos que combinam com a minha personalidade e rosto".

Agora, quando se olha no espelho, ela diz que vê "uma versão melhor de si mesma".

Os rostos de Angelababy e da atriz chinesa Fan Bingbing têm sido habitualmente usados como referência para jovens aficionadas por cirurgia plástica.

Wu disse que é porque elas incorporam a regra "três medidas e cinco olhos", o que denota que rostos perfeitamente proporcionados têm uma largura de cinco olhos e um comprimento de três "medidas" iguais: da testa à sobrancelha, da sobrancelha à ponta do nariz, depois ponta do nariz ao queixo.

Para conseguir essa aparência, algumas mulheres podem precisar de cirurgia. Outros recorrem a preenchimentos baratos de ácido hialurônico, fáceis de reverter.

"Eles podem ser usados para aumentar as maçãs do rosto, deixar o queixo mais pontudo ou até mesmo levantar o nariz, um procedimento conhecido como "procedimento líquido" para o nariz, disse Lam, cirurgião plástico.

Algumas mulheres vão além e se submetem a grandes operações, como usar parte de seus ossos da costela ou do quadril para deixar o nariz mais pontudo e mais longo, de acordo com Lam.

Mas algumas pacientes chineses de cirurgia plástica começaram a se afastar desses ideais de beleza de celebridades. "Elas procuram aparências mais individualistas, por exemplo, um rosto com características de elfo ou mesmo um rosto entediado do mundo e com vivência", disse DeGennaro.

Muitas dessas novas tendências são evidentes no GengMei. Entre as características mais populares discutidas no aplicativo está um lábio em forma de M, que é um lábio inferior com uma covinha no meio.

Uma usuária disse que decidiu injetar ácido hialurônico em seus lábios para copiar "os lábios em forma de M" das estrelas sul-coreanas Yoon Eun-hye e Lee Sung-kyung.

Outra aparência procurada é descrita como um "rosto de bebê". Trata-se de um rosto redondo e cheio de contornos suaves, queixo curto, testa proeminente, olhos grandes e um pequeno nariz de botão, de acordo com as descrições publicadas no aplicativo, que recomenda preenchimentos faciais, bem como cirurgias de olhos e nariz, para obter essa aparência.

Outro tópico popular no GengMei é como tornar as pálpebras únicas mais atraentes, em vez de recorrer à cirurgia de pálpebras duplas. Isso pode ser obtido alongando a pálpebra superior e certificando-se de que ela não esteja flácida ou excessivamente grossa, escreve uma usuária, fazendo referência às pálpebras únicas da modelo chinesa Liu Wen e da estrela taiwanesa Jacklyn Wu Chien-lien. Remove-se um pouco de pele da parte interna e externa da pálpebra, um procedimento chamado cantoplastia.

Clínicas perigosas

Mas nem todas as cirurgias são bem sucedidas.

A mídia chinesa frequentemente relata casos de pacientes submetidos à cirurgia que sofreram efeitos adversos ou até morreram na mesa de operações. Casos de negligência médica

geralmente ocorrem em pequenas clínicas sem licença, sem as autorizações necessárias para a realização de cirurgias.

"Algumas dessas clínicas usam preenchimentos abaixo do padrão e injetáveis antienvelhecimento com agentes contaminantes ou com menos princípios ativos do que deveriam ter", disse Lam. Ela lembrou uma série de casos em 2016 em que pacientes de Hong Kong foram à China para tomar injeções antienvelhecimento e voltaram com botulismo - uma doença causada pela toxina botulínica - e acabaram na UTI com dificuldades respiratórias.

Gordon Ma, do Hong Kong Sanitorium & Hospital, atende regularmente pacientes que precisam de cirurgia corretiva depois de entrarem na faca no exterior, inclusive na China. "Eles chegam, por exemplo, com um olho que não pode mais fechar direito por causa de uma cirurgia pálpebra dupla mal feita", contou.

Pequim já começou a reprimir as clínicas sem licenças e não qualificadas.

A Comissão Nacional de Saúde da China identificou 2.772 casos de cirurgia plástica ilegal durante uma operação de um ano, que teve início em maio de 2017. Isso levou a mais de 1.200 processos criminais, segundo um comunicado do governo. A comissão está considerando criar uma lista negra de cirurgiões perigosos, disse o comunicado.

Wu também teve várias experiências ruins. "Uma clínica em Pequim usou um molde em forma de L para remodelar meu nariz, mas minha pele ficou tão esticada após o procedimento que eu podia ver a luz através dele", disse ela. Ela contou que tinha que fazer uma cirurgia corretiva depois disso. Apesar dos riscos, a China está alcançando rapidamente os Estados Unidos em relação ao número total de procedimentos cosméticos realizados.

Até 2023, a receita total deve exceder 360 bilhões de yuans (US$ 52 milhões), segundo um prospecto da So-Young, que cita números dos consultores Frost & Sullivan.

Para Wu, a evidência do crescimento do setor está à sua volta.

"Dez anos atrás, era difícil encontrar uma pessoa que havia feito cirurgia plástica, mas hoje em dia é difícil encontrar alguém que não tenha", disse ela.