A subversiva cabeça raspada está de volta em tempos de pandemia


Marianna Cerini, da CNN
21 de abril de 2020 às 08:15
corte de cabelo

Com o isolamento social, mais pessoas se aventuram a cortar o próprio cabelo, mas o novo estilo pode carregar também símbolos de décadas passadas. Na imaem, cabeleireiro Mark Francome (à esq.) ajuda Dominic Reeh a raspar o cabelo por videoconferência

Foto: Divulgação/CNN Style


Com os isolamentos valendo em todo o mundo, as redes sociais estão sendo inundadas com imagens e histórias de pessoas redescobrindo um velho amigo (ou inimigo) no domínio dos cabelos: o corte muito rente, estilo militar, ou simplesmente a cabeça raspada. Homens, mulheres e até celebridades estão tentando raspar suas cabeças, usando barbeadores ou tesouras elétricas e dominando uma boa dose de nervosismo.

No entanto, o visual desafiador não é sinal apenas de um corte de cabelo conveniente para o momento, feito para nos manter em casa enquanto os salões de beleza e barbearias permanecem fechados. Fora do exército, onde se originou, o corte estilo militar (ou reco, ou buzz, como é chamado nas barbearias da moda) foi preservado pela contracultura: ele é também um símbolo de estética rebelde, empoderamento e dissidência política.

Numa época em que o mundo parece estar fora do controle, assumir esse visual pode ser uma maneira poderosa e pessoal de nos recuperar. Mas, antes de você colocar a maquininha na tomada, por que não aprender sobre as origens e o simbolismo do corte militar?

Do símbolo da integridade à marca do punk

Desenvolvido junto com o advento dos aparadores manuais primeiro (no final do século 19) e dos aparadores elétricos mais tarde, o corte rente foi usado principalmente por meninos nas primeiras décadas. Em países como EUA, Rússia, Reino Unido e China, o estilo também era comum entre os recrutas militares que haviam acabado de começar a treinar — daí seu outro nome nos Estados Unidos, o "corte de indução", e seu nome no Brasil, o “corte reco”. As razões eram bastante óbvias: o estilo era limpo e fácil de manter, impedia a propagação de piolhos e, no exército, ajudava a criar uma sensação de uniformidade.

Estilo de corte que virou símbolo do movimento punk

Estilo de corte que virou símbolo do movimento punk

Foto: Pixbay/Divulgação

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Em seu minimalismo direto, o corte militar significava uma masculinidade simples, padronizada e jovem — ou assim o era até a década de 1960, quando a Guerra do Vietnã mudou drasticamente as coisas.

De repente, uma cabeça raspada não parecia mais um símbolo de integridade. Em vez disso, ela virou a cara do establishment, dos combates e da política manchados de sangue. A geração pós-guerra que adotava cada vez mais a cultura beatnik e hippie deu as costas para o corte raspado, exibindo cabelos compridos como seu novo emblema de orgulho.

O visual do final dos anos 60 não tinha mesmo nada a ver com cabeças limpas. Dreadlocks. Tranças e apliques esvoaçantes. Cortar o cabelo rente parecia aderir à conformidade das normas sociais antigas e severas.

Eis que, em meados da década de 1970, o punk começou a se firmar. Em seus princípios básicos, a subcultura, originada no Reino Unido e nos EUA, o punk compartilhava a ideologia hippie das visões anti-establishment, promovendo a liberdade individual e condenando o consumismo. No entanto, da maneira como o movimento surgiu, ficou parecendo que ele era uma resposta totalmente contrária à suavidade da filosofia "paz e amor".

O punk era barulhento, agressivo, em geral politicamente progressista e ansioso para chocar. Sua estética era a mais clara possível: saem os vestidos de tie-dye e as tiaras de flores e entram as jaquetas de couro, pregos, alfinetes — e as cabeças raspadas.

Usado por gente como Sid Vicious e Siouxsie Sioux — que ainda enfeitava a cabeça com um par com chifres —, o corte militar voltou, tornando-se uma das marcas mais reconhecíveis do punk. Foi também sua expressão mais evidente de rebelião contra o sistema que havia endossado o estilo no passado.

Mais do que um visual

Os cortes tipo buzz, reco, miltar ou raspado permaneceram populares durante toda a década de 1980, e não apenas por causa do punk. Muitas mulheres adotaram o visual como uma postura contra as normas de gênero e as ideias heteronormativas de beleza.

Entre elas estavam alguns dos ícones da música daquela época: a cantora irlandesa Sinéad O'Connor, que supostamente raspou o cabelo para desafiar os executivos de gravação que queriam o cabelo comprido; e a cantora escocesa Annie Lennox, que chegou a usar uma versão laranja do estilo e até hoje mantém o cabelo curtíssimo. Em entrevista alguns anos depois à revista Interview, ela afirmou "a aparência é algo temporário, e eu quero ser tão forte quanto um homem".

O raspado também foi usado por muitas mulheres negras notáveis como um meio de comentar a injustiça social. A supermodel Pat Evans orgulhosamente ostenta os cabelos cortados curtos para desafiar a pressão do setor da moda em modelos negras para se adaptarem às noções de beleza brancas (ou seja, cabelos lisos). A careca de Grace Jones tornou-se um símbolo de talento andrógino.

A cantora Grace Jones

A cantora Grace Jones

Foto: Divulgação

Nos anos 90 e início da metade dos anos 2000, os cortes femininos continuaram sendo usados como um sinal de empoderamento. O cinema de Hollywood ajudou a alimentar essa imagem: de Sigourney Weaver em "Alien" a Demi Moore em “Até o Limite da Honra", o estilo de cabelo se tornou o símbolo máximo da mulher durona. Fora das telas, outras celebridades adotaram o visual: Amber Rose, Erykah Badu e Cate Blanchett ficaram super curtas na virada do século 21 (Rose usa a cabeça raspada até hoje).

Ao mesmo tempo, os homens também voltaram ao estilo, desfilando-o em filmes e na cultura popular. Duas das maiores estrelas masculinas da época lideraram a tendência: David Beckham e Brad Pitt. Sem falar de Keanu Reeves em "Velocidade Máxima", Ewan McGregor em "Trainspotting" e Kevin Costner em "O Guarda-Costas".

Quando Britney Spears raspou a cabeça em 2007, o gesto se tornou um daqueles momentos na cultura de celebridades que as pessoas ainda se lembram hoje: um ato de desafio e libertação que nenhum outro corte de cabelo jamais poderia ter correspondido.

Depois de um breve hiato, o corte raspado voltou a crescer em popularidade mais uma vez em 2016 — época de Kristen Stewart e Cara Delevingne, Robert Pattinson e Nick Jonas.

Agora, mais uma vez, o corte buzz volta à moda. Seja em busca de conveniência ou de uma aparência radical para combinar com esses tempos inéditos, todos, de seu colega de trabalho a Héctor Bellerin, parecem estar usando as máquinas. E o distanciamento social significa que essa mudança ousada é de baixo risco no momento: se a aparência não se adequar, você pode esperar o cabelo voltar a crescer na privacidade de sua casa.

Cabelo raspado em formato Mickey Mouse

Cabelo raspado em formato Mickey Mouse

Foto: Pixbay/Divulgação