A transformação da imagem de uma primeira-dama em arma política


Fiona Sinclair Scott, da CNN
29 de outubro de 2020 às 18:50 | Atualizado 29 de outubro de 2020 às 19:50

A primeira-dama dos Estados Unidos vive numa das posições públicas mais visíveis do mundo. A partir do momento em que os votos são contados, e muitas vezes durante a campanha nos meses anteriores à eleição, a esposa de um presidente recém-eleito é colocada em destaque, onde permanece durante todo o mandato.

Ao longo da história, testemunhamos a amplitude e a profundidade da inspeção pública enfrentada pelas mulheres que ocuparam o cargo até agora.

Os maneirismos, os atributos físicos, a forma como opta por se vestir: tudo da primeira-dama é minuciosamente examinado pelo povo, pelos meios de comunicação e pelos que a rodeiam no cenário político. E isso antes mesmo que as pessoas comecem a avaliar o trabalho que ela deve realizar como funcionária pública não remunerada e não oficial.

Muitas primeiras-damas saíram do calor da adoração pública para a frieza da indiferença quando não se encaixaram mais na imagem criada para elas.

Imagem, neste caso, não engloba apenas sobre roupas e aparência, mas também uma noção mais matizada da impressão que elas tentaram transmitir. É toda uma atmosfera em torno da primeira-dama, feito de características físicas e pessoais. Várias primeiras-damas foram vítimas de aspectos de sua imagem celebrados e transformados em armas, dependendo da multidão que as observava.

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Na série documental Primeiras-damas, exibida pela CNN americana, vemos esse paradoxo se desenrolar durante seis presidências. As histórias oferecem um lembrete contínuo de que a imagem pública de uma mulher está intimamente ligada ao seu sucesso e ao nível de respeito que ela recebe do mundo exterior.

Então, por que vozes críticas repetidamente fazem esse julgamento não merecido sobre essas mulheres? Leah Wright Rigueur, professora da Harvard Kennedy School, oferece sua resposta no início de um episódio sobre Michelle Obama: as primeiras-damas devem ser a “representação do que há de melhor nos norte-americanos”.

Quando os Estados Unidos elegeram seu primeiro presidente negro em 2008, a primeira primeira-dama negra do país, Michelle Obama, foi, para muitos fãs, um símbolo de esperança, oportunidade e mudança. Meninas e mulheres ao redor do mundo admiravam essa mulher inteligente e determinada do South Side de Chicago que agora morava na casa mais famosa do país.

No entanto, seus críticos exibiam uma visão diferente de sua convicção e força de caráter, e não tinham medo de expor suas ideias de forma frequentemente racistas e sexistas. Na campanha, ela foi rotulada de “brava” e seu amor e lealdade pelo país foram questionados.

Durante os primeiros meses da presidência de Obama, a preferência de Michelle por looks sem mangas também atraiu críticas excepcionais. O fenômeno foi lembrado por Robin Givhan, editora de moda ganhadora do Prêmio Pulitzer e crítica do jornal Washington Post, durante uma entrevista para o documentário.

“As pessoas se concentraram em seus braços porque não eram os braços de uma donzela frágil que era branca”, pontuou no episódio sobre Obama. “Os norte-americanos não brancos há anos olham para uma primeira-dama branca e ainda podem dizer que ela os representa. Mas acho que se torna algo muito mais desafiador para alguns norte-americanos brancos olhar para uma primeira-dama negra e se ver nela. Em vez disso, eles simplesmente a viram como uma alienígena”.

Michelle Obama

Os braços de Michelle Obama foram tema de críticas contra o vestuário da esposa do então presidente Barack Obama (2009-2016)

Foto: Joyce N. Boghosian/Casa Branca

Em contraste, Jackie Kennedy tinha sido idolatrada principalmente por sua beleza e estilo. Embora tenha enfrentado críticas durante a campanha por seu gosto caro, a partir do momento em que subiu ao palco no dia da posse usando seu agora icônico chapéu pillbox, Kennedy se tornou a primeira-dama da moda.

Aos 31 anos (jovem o suficiente para ser filha da antecessora Mamie Eisenhower), ela também era vista como um símbolo de rejuvenescimento. Jackie Kennedy surgiu no Capitólio para a posse de seu marido como “a pétala linda em um buquê de pele deselegante”, escreveu o historiador Thurston Clarke em seu livro de 2004, Ask Not (Não pergunte, sem edição no Brasil).

E como o jornalista Evan Thomas observou durante uma entrevista para a série da CNN, ela “foi o prêmio perfeito do establishment WASP [sigla para branco, anglo-saxão e protestante]”.

“Ela também sabia que a família Kennedy a estava usando", acrescentou Thomas. "Uma vez disse: ‘a família me trata como uma coisa. Como um ativo. Como Rhode Island’”.

Legados complexos

Se a história tivesse acontecido de forma diferente, o legado de Jackie Kennedy poderia ter sido reduzido à história de um objeto bonito com talento para design de interiores (ela dedicou muito de seu tempo na Casa Branca na reforma da residência oficial). Tragicamente, porém, ela teve a oportunidade de mostrar ao mundo do que era feita no dia do assassinato de seu marido.

Horas depois que o presidente Kennedy ser baleado a seu lado, a primeira-dama tomou uma decisão poderosa: enfrentou o público novamente com o mesmo vestido rosa manchado de sangue que usara durante o ataque, depois de falar para sua equipe: “Quero que vejam o que fizeram com John”.

Foi um momento trágico na história norte-americana. E também foi um exemplo devastador do poder das roupas: um vestido pode enviar uma mensagem.

Jackie Kennedy

Jackie Kennedy com o primeiro marido, o presidente John Kennedy, e os filhos

Foto: Wikimedia Commons

No livro de memórias de Michelle Obama, Minha História, a ex-primeira-dama revela até onde ela chegou ao se arrumar para aparições públicas, achando impossível não olhar para o marido do outro lado da sala: “Suspirei às vezes, observando Barack tirar o mesmo terno escuro do armário e sair para trabalhar sem precisar sequer de um pente”, escreveu.

“Sua maior consideração quanto à moda em um evento público era vestir ou tirar o paletó. Gravata ou sem gravata?”

Ela também discutiu os desafios específicos que enfrentou como afro-americana. “Como uma mulher negra, também, eu sabia que seria criticada se fosse vista como exibicionista e sofisticada, e também seria criticada se fosse muito casual. Então eu misturei tudo. Combinava uma saia Michael Kors de alta qualidade com uma camiseta da Gap. Vestia algo da Target em um dia e de Diane von Furstenberg no outro”.

Ela sabia que a sociedade não se dobraria por ela. Então, em um movimento que foi ao mesmo tempo inspirador e triste, ela se curvou para se adequar à sociedade.

Mas Michelle Obama venceu no final. Seu legado, definido por seu trabalho em torno de questões de saúde, educação e raça, também inclui o reconhecimento de jovens designers de moda e diversos ao lado dos mais estabelecidos, em peças que ela usou com graça. Michelle vestiu Jason Wu, Prabal Gurung e Tracy Reese, oferecendo-lhes um momento de destaque e ajudando em suas carreiras como resultado.

“Para mim, minhas escolhas foram simplesmente uma maneira de usar meu relacionamento curioso com o olhar do público para impulsionar um conjunto diversificado de talentos promissores”, escreveu.

Como Jackie Kennedy, Michelle Obama aproveitou o fato de que estava sendo examinada e discriminada por tudo o que vestia e usou isso a seu favor. Esse poder, sem dúvida limitado, continua sendo uma das maneiras pelas quais as mulheres na política podem fazer uma declaração sem dizer uma palavra.

Expectativas conflitantes

Nancy Reagan era vista como uma relíquia da velha Hollywood quando entrou na Casa Branca. As celebrações da posse em 1981 foram, segundo todos os relatos, eventos suntuosos e chamativos. Cerca de 700 jatos particulares voaram para a cidade naquele fim de semana, e o vestido de Reagan – com uma bainha de renda sobre cetim de seda, um ombro só e contas brancas, feito pelo estilista da alta sociedade James Galanos – foi de parar o trânsito.

Ela e o marido, o presidente Ronald Reagan, eram ambos ex-atores que se conheceram em Los Angeles na década de 1940 e tinham uma história de amor típica das telas do cinema. Seus críticos inicialmente zombaram da maneira adorável com que ela olhava para o marido, chamando-o de “o olhar”, e ela era vista como uma esposa muito típica dos anos 1950, preocupada com firulas e as coisas boas da vida, o que parecia estar em conflito com um país em crescente recessão.

Nancy Reagan e Donald Trump

Nancy Reagan, então primeira-dama, conhece o jovem empresário Donald Trump, hoje presidente dos Estados Unidos

Foto: Arquivo oficial

Entretanto, ao longo da presidência de oito anos de seu marido, Nancy provou ser mais do que a personificação desatualizada de uma rica esposa suburbana. De acordo com seu filho, Ron Reagan, que participa da série de documentários, ela queria que o presidente “fosse o protagonista, e ela a produtora/diretora nos bastidores".

Foi, talvez, um precursor da campanha meio jocosa dos Clinton sob o slogan “compre um e leve outro de graça”. Na verdade, está bem documentado que Hillary Clinton sempre sentiu o desprezo do povo norte-americano, em parte devido à sua imagem de mulher de carreira. Ironicamente, enquanto Reagan foi criticada por ser uma dona de casa dos anos 1950, Clinton foi informada de que ela não era domesticada o suficiente.

Hillary Clinton

Hillary Clinton, de primeira-dama a candidata a presidente dos Estados Unidos

Foto: Gage Skidmore/Wikimedia Commons

Seus agressores a pintaram como sendo muito forte para recuar e deixar seu marido político dar as cartas e muito fraca para se afastar quando ele foi infiel.

Na maioria das vezes, ela se rebelou contra esses julgamentos. Os terninhos de Hillary Clinton viraram sua marca, sua maneira de lembrar às pessoas que ela era uma primeira-dama com um diploma de direito, uma carreira independente e, em última análise, sua própria agenda, o que ela provou quando deixou a Casa Branca como senadora por Nova York, não efetivamente desempregada como seu marido. Então quando o retrato oficial dela foi lançado em 2004, Clinton foi naturalmente retratada usando seu terninho preto característico, outra novidade para uma primeira-dama.

Hillary Clinton voltou a sentir o olhar das ruas durante sua campanha presidencial de 2016. Em seu livro What Happened (O que aconteceu, sem edição no Brasil), ela explicou: “Como uma mulher que concorre à presidência, gostei da dica visual de que era diferente dos homens, mas também era muito conhecida”.

A tática não valeu a pena. Ao longo de uma das eleições mais feias da história dos Estados Unidos, Clinton sofreu repetidos ataques. Desta vez, ela não foi carismática o suficiente, era sombria, era “uma mentirosa”.

Mas será que o maior problema, na verdade, não era o mesmo de sempre? Mais uma vez, sua imagem não se encaixava nos moldes. Porque o presidente deveria ser um homem.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).