Meu corpo viralizou duas vezes e foi assim que me senti


Wana Udobang, em Lagos (Nigéria)
06 de novembro de 2020 às 17:38
Foto de Wana Udobang que viralizou

Foto de Wana Udobang que viralizou

Foto: Reprodução/Instagram @mswanawana (9.abr.2018)

NOTA DO EDITOR: Wana Udobang é escritora, intérprete e personalidade da TV nigeriana. Todas as opiniões expressas neste artigo são de Udobang. 

A primeira vez que meu corpo se tornou viral foi devido a uma fotografia que postei no Instagram. Eu vestia um maiô azul e estava em pé, com uma das mãos no quadril, fazendo uma pose na praia de Havana, em Cuba. Eu definitivamente não esperava o número de repostagens e que as pessoas me enviassem comentários privados dizendo "Bravo!", "Inspiradora" e "Confiante".

Até onde eu sabia, eu estava apenas vestindo roupas apropriadas para a praia durante as férias. Por que a minha publicação dessas atividades aparentemente normais despertou palavras tão fortes?

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Na verdade, meu corpo sempre foi uma das grandes narrativas da minha vida. Por exemplo, muitos dos apelidos que recebi quando criança eram relacionados ao meu peso, como "gordinha bunduda", dito com carinho. Meu corpo parece preceder tudo sobre mim, pelo menos na mente das pessoas.

Por isso, sempre estive ciente de sua classificação em termos de beleza e atração. Na verdade, sempre que meu corpo é assunto de conversa, alguém costuma dizer algo sobre meu "rosto bonito", me levando a acreditar que eu poderia ter tido a chance de ser bonita, mas não consegui por causa do meu corpo.

Embora o amor-próprio tenha sido necessário para transformar minha autopercepção em algo positivo, ele não é tudo isso que as pessoas dizem. Isso não me protegeu por completo do impacto dos pensamentos de outras pessoas sobre a minha forma física.

Segunda vez

A segunda vez que meu corpo viralizou foi por causa de uma colaboração entre mim, a designer sueca Mina Lundgren, da Notion of Form, e a fotógrafa nigeriana Lakin Ogunbanwo. O projeto foi uma investigação do corpo como forma escultural, com fotos mostrando como dobras, marcas de bronzeado e estrias podem se tornar marcadores de atração. O resultado foi uma série de imagens estáticas e um curta-metragem narrado com o poema que eu havia escrito.

O projeto afirma: "Você saiu do ventre de sua mãe, uma escultura de ossos frágeis e pele enrugada brilhando em poeira estelar e magia. Você é um milagre em forma de criança, uma linhagem de mulheres que desafia a noção de forma. Você é arte, um corpo cheio de histórias de amor e perdas, de ausência e abundância, você é selvagem, suave e livre. É por isso que dizem que você é bonita."

A recepção foi extremamente positiva e, mais uma vez, minha caixa de entrada foi inundada com mensagens aplaudindo minha coragem e mostrando admiração por minha escolha de expor meu corpo, bem como convites para falar sobre política do corpo em lives do Instagram e programas de televisão. E, embora parte de mim continue perplexa com o fato de que minhas fotos podem levar a respostas tão fortes, seria hipocrisia fingir que não faço ideia do motivo.

Corpos como o meu são muitas vezes considerados indisciplinados, preguiçosos, desregrados, vergonhosos, sem autocontrole e impregnados de baixa autoestima, portanto, mesmo quaisquer elogios que fazem alusão ao meu nível de confiança e suposta ousadia devem ser frutos de preconceito.

Também é por isso que postar uma foto minha de maiô automaticamente joga meu corpo – e tudo que eu sou – em uma posição "política", é como se fosse uma declaração. Contudo, isso também me nega o privilégio de ser simplesmente fútil, alguém que curte os prazeres da vida, ou de apenas exibir meu corpo de praia, como as mulheres mais miúdas podem fazer.

O direito de estar ali

Sei muito bem como as percepções que a sociedade tem da nossa aparência moldam a forma como nos vemos e, às vezes, como vivemos nossa vida. Uma vez, durante um teste para um programa de televisão, chegaram até mim alguns comentários ofensivos de bastidores. Durante uma reunião da direção, alguém se opôs à minha adequação para o papel, dizendo que os nigerianos não gostam de ver pessoas gordas na TV. Passei por todas as etapas do teste com isso na minha cabeça, mas ainda assim concorri. Eu ainda acreditava que tinha o direito de estar lá e acabei conquistando a vaga.

Ao longo dos anos, minha estratégia tem sido ser agradável, excessivamente agradável, e fácil de lidar. Em situações profissionais, me recusei a reclamar, mesmo quando tinha motivo para isso, com medo de ser facilmente substituída ou de minha aparência vir à tona. Decidi que, mesmo se eu não agradasse os olhos dos outros, pelo menos eu seria uma pessoa maravilhosa de se trabalhar.

Independentemente das conversas sobre a ampliação do que entendemos por "beleza" e do trabalho dos movimentos de positividade do corpo ao longo dos anos, é impossível ignorar que a forma como vemos os outros – e a nós mesmos – é moldada pelas imagens que circulam ao nosso redor diariamente.

Tornando-se um canal

Na última década, tive muita sorte de estar envolvida com produção de arte, especificamente com a atuação, o que me deu os meios de me conectar com meu corpo de maneira mais profunda. Desde atuar em um palco ou na frente de uma câmera até a colaboração com artistas visuais, tenho conseguido ver meu corpo como material físico e metafísico, forma e conteúdo, objeto e sujeito, um canal para compartilhar e canalizar a criatividade, não apenas um fim em si mesmo.

Contudo, até que as pessoas estejam dispostas a assumir a responsabilidade por suas próprias visões limitadas sobre a beleza e que forma um corpo deve ter (especialmente o corpo de uma mulher), resolvi aceitar o fato de que continuarei oscilando entre minhas próprias ideias sobre beleza e meu corpo e as expectativas de outras pessoas.

(Texto traduzido, leia o original em inglês)