A moda antimicrobiana pode proteger você do novo coronavírus?

Marcas adaptaram suas linhas para incluir máscaras estampadas e peças antivirais

Máscara facial da marca Burberry
Máscara facial da marca Burberry Foto: Divulgação/Burberry

Jacqui Palumbo, da CNN

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Sem o fim da pandemia à vista, marcas de moda e roupas esportivas têm adaptado rapidamente suas linhas para incluir máscaras decoradas com logotipos e estampas estilosas.

Embora as máscaras de tecido feitas de materiais tradicionais possam ajudar a reduzir a disseminação da Covid-19, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, algumas marcas estão indo além. Elas estão comercializando novos acessórios e, em alguns casos, linhas de roupas inteiras com propriedades antimicrobianas que inibem o crescimento de micro-organismos, como bactérias e fungos, ou reduzem a atividade viral. Mas o que a moda antimicrobiana faz? E será que ela pode oferecer proteção extra durante uma pandemia?

Nos últimos meses, marcas como a Burberry introduziram máscaras que afirmam ser protegidas de micróbios e germes. Os próximos designs bege e azul da Burberry seguem o estilo da marca. A máscara esportiva de múltiplas camadas da Under Armour, que é vendida como tendo propriedades antimicrobianas, esgotou em menos de uma hora quando foi lançada em meados deste ano. A Diesel está vendendo jeans que afirma ser “antivírus”. A marca italiana anunciou que usará uma tecnologia chamada ViralOff, que afirma “impedir fisicamente 99% de qualquer atividade viral”, em vários itens de sua coleção Primavera-Verão 2021. Essa tecnologia atua “interagindo com proteínas-chave, inibindo o vírus de se prender às fibras têxteis”, segundo o comunicado de imprensa da Diesel.

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Nos EUA, caso não forneçam provas suficientes, as marcas não podem alegar que os produtos dão proteção contra o SARS-CoV-2, o vírus que causa a Covid-19. Portanto, algumas marcas fazem apenas alusão à proteção extra ou higiene,

embora as letras miúdas muitas vezes revelem que os tratamentos antimicrobianos têm como objetivo apenas inibir o crescimento bacteriano ou viral, não proteger a pessoa de patógenos. (Lavar com sabão uma vez ao dia, conforme recomendado pela Organização Mundial da Saúde, ou OMS, também pode matar bactérias e vírus.) A FDA, agência que regular alimentos e medicamentos nos EUA, e o CDC, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, não responderam imediatamente aos pedidos da CNN por informações sobre produtos que foram testados ou enviados para aprovação formal.

Sem testes científicos sólidos das marcas em todos os níveis, é difícil avaliar se os tratamentos antimicrobianos podem proteger os usuários do novo coronavírus, de acordo com Amy Price, pesquisadora sênior do Anesthesia Informatics and Media (AIM) Lab, de Stanford, que aconselhou a OMS em suas diretrizes de máscara facial.

“O problema é que, às vezes, as alegações feitas não são de fato testadas nas máscaras ou com o vírus em si”, afirmou a pesquisadora durante uma videoconferência. “Então parecem ser farsas.” Price não testou nenhum dos produtos mencionados neste artigo.

Algumas empresas afirmam que testaram seus produtos com o SARS-CoV-2, como a PROTX2 AV, da IFTNA, que a Under Armour afirma usar, e o Viroblock, da HeiQ, que, de acordo com o site da empresa, é usado por diversas marcas para produzir máscaras faciais, casacos e até colchões. A IFTNA afirma que testes de laboratório recentes “mostram a eficácia do PROTX2 AV contra a Covid-19”, enquanto a HeiQ afirma que o Viroblock, que é adicionado ao tecido durante o estágio final do processo de fabricação têxtil, foi “testado como eficaz contra o Sars-CoV-2.” A CNN não conseguiu verificar essas alegações.

No entanto, outras marcas não revelaram em quais vírus, caso haja algum, seus produtos foram testados, o que traz questionamentos sobre a chamada moda “antimicrobiana”.

Price, que estudou a eficácia das máscaras de tecido junto com Larry Chu, diretor do AIM Lab, disse que há uma série de variáveis que determinam a proteção que um produto oferece.

“Muitas vezes, bactérias e vírus têm maneiras diferentes de se reproduzir, e há diferentes métodos eficazes contra eles. Com (tratamentos) antimicrobianos, é

importante saber com o que estamos lidando, o que foi testado e se é seguro para a pele humana.

“(Para) qualquer coisa que coloque em seu rosto, principalmente se for usar sempre, você precisa ter certeza de que é algo realmente seguro ou aprovado pelo FDA.”

Alegações obscuras

Desde que o surto de coronavírus foi classificado como uma pandemia pela OMS em março, a orientação sobre o uso de máscara continuou a evoluir. Muitos países agora exigem o uso de coberturas faciais em espaços públicos, a fim de reduzir a propagação do vírus.

“Se você está usando (uma máscara) e as pessoas ao seu redor também estão, vimos que a transmissão (do coronavírus) cai cerca de 90% ou mais, o que é uma probabilidade muito boa”, o Dr. Atul Grover, diretor executivo da Association of American Medical Colleges Research e do Action Institute, informou à CNN em agosto.

Em sua pesquisa, Price e Chu descobriram que as máscaras de tecido podem “ser melhores do que máscaras cirúrgicas em termos de bloqueio de partículas, mas apenas se forem bem feitas”, com um design de três camadas e encaixe justo. (A OMS produziu uma série de vídeos sobre materiais e ajustes recomendados, com base na pesquisa da dupla.)

“O que importa é ter uma barreira de múltiplas camadas”, comentou o correspondente médico-chefe da CNN, Dr. Sanjay Gupta, em um vídeo da CNN de abril sobre os benefícios do uso de máscara.

Existem poucos estudos publicados até agora que examinam o impacto dos tratamentos de tecidos antimicrobianos e antivirais no novo coronavírus. E não há um único tipo de tecnologia sendo usada por marcas de roupas, então cada uma exigiria extensos estudos individuais para julgar sua eficácia. Será importante considerar se um tecido tratado é capaz de neutralizar o vírus e, em caso afirmativo, quanto tempo leva (“o vírus pode entrar em nanossegundos”, segundo Price) e o número de lavagens que o tratamento antimicrobiano pode suportar.

No início deste mês, a Polygiene, que recentemente fez uma parceria com a Diesel e é a fabricante do ViralOff, disse em um comunicado à imprensa que a tecnologia de tratamento têxtil antimicrobiana pode matar com sucesso 99% do SARS-CoV-2 de superfícies têxteis em duas horas. Embora Price não tenha testado a tecnologia ViralOff da Polygiene, ela acredita que duas horas é “um longo tempo de desinfecção”, explicando que a roupa pode contaminar a pele, alimentos, água ou membranas mucosas durante esse período em caso de contato.

A Polygiene descreve seu tratamento têxtil como “durável”, mas aconselha os usuários a “lavar com menos frequência e somente quando necessário”. Por e-mail, a empresa esclareceu que não pode garantir que o ViralOff continuará funcionando após lavagem na máquina. Eles recomendam lavar delicadamente as roupas tratadas com o ViralOff à mão ou não as lavar, mas disse que há outra fórmula em desenvolvimento.

A Under Armour e a Diesel não retornaram os pedidos de comentários da CNN, e a Burberry não deu detalhes sobre o tipo de tratamento antimicrobiano usado em suas máscaras.

Questões não resolvidas

À medida que as empresas correm para atrair consumidores ansiosos, as alegações sobre a eficácia das vestimentas antimicrobianas contra o novo coronavírus em si parecem estar aumentando. A HeiQ afirma que sua tecnologia de tratamento mencionada elimina 99,99% do vírus em 30 minutos, enquanto o fabricante de tecidos IFTNA afirma que seu produto neutraliza mais de 99% do vírus em apenas 10 minutos, graças ao seu “poder residual”.

Ambas as empresas afirmam que seus produtos também foram testados com outros patógenos, incluindo cepas de influenza e diferentes tipos de coronavírus, e cada um durou 30 lavagens, mas a CNN não é capaz de verificar essas afirmações de maneira independente.

Porém, as empresas variam na forma como descrevem a proteção oferecida por seus produtos. Giancarlo Beevis, presidente da IFTNA, disse por e-mail: “Isso protegerá o usuário de possíveis pontos de transmissão em qualquer item tratado com PROTX2 AV.” A HeiQ, por outro lado, não afirma que seu produto pode proteger as pessoas contra patógenos – uma isenção de responsabilidade no site diz que o tratamento tem o intuito de proteger o tecido em si, não o usuário.

“Os tecidos antivirais reduzem o risco de transmissão do vírus por meio da contaminação da superfície e têm proteção adicional contra o vírus”, afirmou Rahel Kägi Romero, da equipe de marketing da HeiQ, por e-mail. “A HeiQ não quer fazer alegações de saúde e dar às pessoas um senso equivocado de segurança. O tecido antiviral é um fator para manter a segurança pessoal, mas precisa estar acompanhado de outras medidas, como distanciamento social, uso de máscaras em áreas de aglomeração e lavagem frequente das mãos”.

Embora manter as roupas livres de vírus possa, potencialmente, reduzir a chance de contaminação cruzada, ainda há muitas coisas que não sabemos sobre o SARS-CoV-2. As principais vias de transmissão ainda são contestadas, assim como a quantidade de vírus necessária para deixar uma pessoa doente. Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), embora a possibilidade não tenha sido descartada, “tocar uma superfície ou objeto que contenha o vírus não é considerada a principal forma de propagação do vírus”.

Os possíveis benefícios dos tecidos antimicrobianos são ainda menos claros para roupas que normalmente não entram em contato com o rosto, como jeans, segundo Price. “A menos que você fique esfregando as mãos nas pernas e depois as passando no rosto, de que adianta?”, ela pergunta. Além disso, mesmo que se prove que um tratamento têxtil reduz certas atividades virais, isso não o torna necessariamente prático para todos os tipos de roupas.

O preço não descarta o valor potencial dos têxteis antimicrobianos, mas até agora, ela firma que os estudos oferecem um quadro incompleto. “Isso deveria ser testado? Sim”, ela afirma. “[Porém], com certeza não deve ser comercializado para o público por meio de comunicados à imprensa e folhetos do setor antes que os resultados sejam avaliados e replicados em um teste de tratamento, como um ensaio clínico randomizado bem executado.

“Mesmo os testes do FDA contêm três fases e vigilância pós-venda… Se alguém se sentir mais seguro usando um tecido microbiano, e essa segurança seja apenas uma ilusão de marketing, isso pode lhe custar a vida ou a saúde.”

(Texto traduzido, leia o original em inglês)

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