Precisamos mesmo de calças? Essa e outras lições em um ano de pandemia

Nesta nova e estranha vida pandêmica, aprendemos algumas diferentes formas de adaptação

Para muitos que estão trabalhando de casa, usar calças sociais se tornou algo raro
Para muitos que estão trabalhando de casa, usar calças sociais se tornou algo raro Foto: Shutterstock

Allison Hope, CNN

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Estamos um ano, ou cerca de 31.536.000 segundos, nesta nova e estranha vida pandêmica.

Sentimos falta de entes queridos, casamentos e funerais, recitais de dança e jogos esportivos, mais “estreias” e prazeres simples do que podemos contar neste momento.

Aprendemos a rir com os olhos, através de máscaras, a cerca de 2 metros de distância.

Aprendemos a trabalhar, dormir, brincar, fazer exercícios e relaxar – tudo no mesmo cômodo. Aprendemos a valorizar o valor humano pelo tamanho de seu estoque de papel higiênico.

Enquanto estou sentada usando um moletom furado, sei que há lições do ano passado que provavelmente carregarei para o resto da minha vida. Aqui estão as minhas favoritas.

Em poucas situações as calças são necessárias

Até agora, a maioria de nós apareceu para uma videoconferência parecendo arrumada da cintura para cima e pronta para dormir (ou pior) da cintura para baixo. Nós negligenciamos nossos cosméticos faciais quando saímos – as máscaras cobrem os pelos do queixo ou manchas – e debatemos se é hora de realmente, literalmente, queimar todos os sutiãs. A Covid-19 introduziu novas normas de beleza que, provavelmente, causarão impacto em um mundo pós-pandêmico.

 “Quase houve uma divisão igual entre a beleza/moda da era Covid-19, do minimalista e do rosto nu a qualquer coisa que chega ao glamour total”, disse Rachel Weingarten, especialista em cultura pop e tendências.

“Por um lado, você tem aqueles que acreditam que sutiãs e calças se tornaram irrelevantes e não veem mais o propósito de calçar um par de sapatos”, destaca Weingarten. “A visão oposta geralmente inclui aqueles que estão usando muito Zoom [programa de videoconferências] e sentem a pressão ou o alívio de uma oportunidade de se vestir – pelo menos da cintura para cima – e gastar tempo com sua maquiagem e cabelo”.

Weingarten acredita que eventualmente encontraremos um equilíbrio entre os extremos que vemos acontecer agora. “À medida que avançamos, encontraremos um meio-termo confortável”, disse.

“Saltos dolorosamente altos nunca deveriam ter sido a norma, nem deveríamos aspirar às proporções irrealistas ditadas pelos deuses da moda. Minha esperança é que, à medida em que sairmos da pandemia, queiramos nos sentir bonitos novamente, sem nos sentirmos pressionados a perseguir a perfeição”.

Abrir sacolas sem lamber o dedo merece uma medalha olímpica

Com o provável cancelamento dos espectadores estrangeiros nos Jogos Olímpicos de Tóquio e menos esportes para assistir na TV, as competições de sacolas de produtos não são uma má ideia. Ao longo do último ano em que moramos com a Covid-19, tivemos que nos adaptar de muitas maneiras estranhas.

Quem já pensou que saudaria sua mãe com um frasco de álcool em gel? Ou se diverte vendo o vizinho levar o lixo para fora?

“Oh, deve ser quarta-feira de novo”, eu me pego dizendo, impressionada com uma sacola de 90 graus jogada na lata de lixo.

Nós nos adaptamos a um novo normal bizarro que está realmente começando a parecer assustadoramente normal. Meu filho de 3 anos fica preocupado quando as pessoas falam sobre não usar máscaras dentro de casa porque ele não se lembra da vida antes da pandemia. Procuramos grandes quantidades de entretenimento digital – incluindo assinaturas excessivas de mídia com tema apocalíptico em um ato cruel de guerra psicológica contra nós mesmos. Ouvi dizer que havia um lugar chamado cinema, onde você podia assistir a filmes em uma tela grande e comer pipoca o quanto quisesse.

O toque não é superestimado; a menos que seja do seu cônjuge

O poço de solidão se aprofundou durante a pandemia, quando nos disseram para ficar em casa e não nos socializar.

De acordo com um estudo publicado no Journal of Psychoactive Drugs, em 2020, cerca de 80% dos jovens estavam se sentindo solitários e deprimidos durante a pandemia.

O distanciamento social atrapalhou nossa capacidade de amar livremente, quer isso signifique abraçar um amigo ou encontros aleatórios. Aprendemos a apreciar o quão significativo é o contato físico humano e o quanto sentimos falta dele. A menos, é claro, que você seja casado e tenha ficado preso em casa 24 horas por dia, 7 dias por semana, com o seu parceiro. Então, você experimentou o problema oposto – muito contato. (Eu te amo, esposo! Além disso, saia daqui!).

“Os seres humanos são criaturas sociais por evolução. Está embutido em nossa programação para nos sentirmos seguros em grupos”, explica Alexandra Lo Re, assistente social de Nova York. “De repente, somos expostos a uma cobertura da mídia 24 horas por dia, 7 dias por semana, nos dizendo que o contato próximo com nossos entes queridos vai nos matar, e celebrar o Dia de Ação de Graças é semelhante a um assassinato. É impossível para nós sintetizar totalmente o que está acontecendo; atualmente, nosso cérebro racional está em guerra com nosso cérebro primitivo”, disse.

Segundo com a assistente social, “para muitos casais e famílias, a pandemia teve um efeito diferente. De repente, todos são colocados em quarentena em suas casas. As famílias que costumavam passar os dias na escola ou no trabalho agora podem lutar por um espaço de trabalho na mesa da cozinha. Os casais ficarão mais irritados com seus parceiros”.

 Mas nem tudo é terrível. Reconheça a tensão, sugeriu Lo Re, como forma de superar seus sentimentos de estar privado de companhia ou completamente oprimido por ela. Comunique suas necessidades e trabalhe em equipe em casa ou procure ajuda profissional para falar sobre seus sentimentos.

Na minha opinião pouco profissional, um útil litro de sorvete de banana com pedaços de chocolate resolve quase todos os problemas a curto prazo (exceto pelos níveis de glicose).

Você realmente não pode prever nada

Aquelas férias em Cancún, no México, que você planejou para abril de 2020 agora parecem uma memória distante e risível de todas as coisas boas que você não pode mais ter.

Se aprendemos alguma coisa com a Covid-19, é que não importa o quanto esperemos que as coisas aconteçam de uma certa maneira, nunca podemos prever o futuro. O melhor que podemos fazer é preparar para o cenário desconhecido, ou de pior hipótese, e redefinir nossas expectativas para que possamos enfrentar qualquer contágio global, agitação social ou política – ou apocalipse zumbi que surgir em nosso caminho.

“A incerteza não é algo com que os humanos se dão bem, o que novamente remete a um traço evolutivo quando a incerteza pode ser fatal”, afirma Lo Re. “O segredo é nos concentrarmos no que podemos controlar, em vez de nos fixarmos naquilo que não podemos. Não temos controle sobre a pandemia, mas podemos controlar como respondemos a ela. Precisamos reconhecer e cultivar os pontos fortes que temos, e usá-los para nos ajudar a superar dificuldades”.

Aula pelo Zoom
Estudante tem aulas online com seus colegas usando o aplicativo Zoom em casa, durante a pandemia de coronavírus em El Masnou, ao norte de Barcelona, Espanha (02/04/2020)
Foto: REUTERS/ Albert Gea

Somos todos hipocondríacos

Essa coceira na garganta? Essa narina esquerda ligeiramente entupida? É o Covid-19? Muitos de nós, que nunca pensaram duas vezes em doenças menores, agora estão preocupados o tempo todo. E não estamos todos errados. As pessoas ainda estão adoecendo e morrendo. Além de nos tornarmos hipocondríacos intensos, podemos adicionar depressão e ansiedade à lista de coisas que acumulamos no ano passado.

“Se duas coisas ganharam tempo para brilhar em 2020, é a importância de lavar as mãos e a importância dos cuidados de saúde mental”, disse Lo Re.

“Estamos constantemente nos preocupando com nossa própria saúde, a saúde de nossas famílias, nosso futuro e o futuro do mundo. Temos vivido em um estado de trauma-resposta por um ano, cujos efeitos continuarão por muito tempo depois da pandemia em si termina”, complementa a assistente social.

À medida que mais pessoas forem vacinadas e as taxas de infecção continuarem diminuindo, podemos começar a curar um pouco o nosso interior hipocondríaco. Mas nem tudo é ruim. Tenho um suprimento mais saudável de ervas e suplementos do que nunca e estou pensando em ir ao médico para verificar essa coisa, em vez de dispensá-la. Também pode ser hora de admitir que sofro de alergias há um ano.

Dadas as incertezas e preocupações – e despreocupação com as calças –, para onde vamos a partir daqui? Se aprendemos algo que vale a pena lembrar, é que há tantas coisas que não sabemos. O futuro é incerto. Sentimos falta das pessoas, mas também, estamos fartos de pessoas. Gostamos de calças de cintura elástica e jeans é um obstáculo existencial que talvez não seja necessário.

Também aprendemos que somos resilientes. Podemos viver um filme de terror na vida real e ainda encontrar momentos de alegria e compaixão. Um estudo recente do Pew Research Center mostrou que a maioria dos norte-americanos acredita que a pandemia oferece lições para a humanidade.

O que realmente importa passou a ter um foco maior. Amamos mais autenticamente. E, se tudo mais falhar, sempre há sorvete.

Texto traduzido. Leia aqui a versão original em inglês.

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