Cinco lições da vitória marcante de Joe Biden na Superterça


Eric Bradner, Gregory Krieg e Dan Merica CNN
04 de março de 2020 às 21:55
Joe Biden discursa na Califórnia após Superterça

Joe Biden discursa em Los Angeles, na Califórnia; resultados da Superterça deram novo rumo para as primárias democratas

Crédito: Elizabeth Frantz/Reuters (03.03.2020)

Joe Biden dominou o sul dos EUA na terça-feira (3) e obteve uma vitória dramática no Texas, ao mesmo tempo que surpreendeu em Minnesota e Massachusetts. Biden entrou de vez na disputa nas primárias presidenciais democratas — cada vez mais parecidas com uma corrida com dois participantes, o ex-vice-presidente americano e Bernie Sanders, senador de Vermont.

O ex-vice-presidente terminou a noite com dez vitórias. Já o senador terá de esperar para ver se o maior prêmio do Superterça, a Califórnia, permitirá que ele alcance ou supere Biden. 

Agora, o resultado que mais importa é o número de delegados que cada candidato conquistou. Serão necessários dias ou até semanas para determinar como serão divididos os resultados dos 14 estados e do território da Samoa Americana, que representam 34% dos delegados declarados democratas.

A Califórnia conta todas as cédulas postadas no dia das eleições, estendendo o tempo necessário para relatar os resultados, o que significa que o impacto do estado na matemática dos delegados democratas não ficará claro tão cedo.

Enquanto isso, os US$ 560 milhões (cerca de R$ 2,5 bilhões, no câmbio desta quarta-feira) em gastos neste ano com publicidade do ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg acabaram resultando em fracasso. O mesmo aconteceu com a a tentativa da senadora Elizabeth Warren, de Massachusetts, de navegar no meio termo entre Sanders e Biden: ela acabou ficando atrás dos dois em seu estado natal com metade dos votos contados. Bloomberg anunciou apoio a Biden; o futuro da campanha de Warren é um grande ponto de interrogação no momento.

Aqui estão cinco lições da Superterça:

Biden surfa na onda

As vitórias de Biden na terça-feira estão relacionadas com o ímpeto recentemente conquistado pelo pré-candidato. Até alguns dias atrás, a campanha do ex-vice-presidente patinava com pouca organização e problemas na arrecadação de fundos. Ele mal fez publicidade nos estados da Superterça e não tinha escritórios físicos em alguns deles.

Sanders tinha mais funcionários na Califórnia do que Biden em todo o mapa. Nada disso importou. O nocaute decisivo que Biden desferiu em vários de seus rivais com sua vitória no sábado na Carolina do Sul se transformou em uma onda de apoios e cobertura da mídia que levou Biden a vencer no mapa.

Joe Biden conquistou cinco estados nos quais nem havia feito campanha. As maiores surpresas poderiam ter sido Minnesota e Massachusetts, que sua campanha mal havia tocado. Mas teve mais. Biden visitou o estado da Virgínia uma vez, tinha um escritório no estado e gastou US$ 233 mil (cerca de R$ 1 milhão) em anúncios lá. Mesmo assim, ganhou 53% dos votos da Virgínia. Já Bloomberg, que fez o primeiro comício de sua campanha lá e gastou US$ 18 milhões (R$ 82,5 milhões) em anúncios, não conseguiu ultrapassar os 10%.

Seu ataque tardio no Texas, com comícios na segunda-feira em Houston e Dallas, pontuados pelo apoio do ex-deputado do Texas Beto O'Rourke, ajudou-o a superar a vantagem de Sanders com os latinos e vencer o Texas.

Biden demonstrou ter uma base de apoio no sul, onde os eleitores afro-americanos compõem grande parte do contingente democrata de cada estado, com vitórias no Alabama, Arkansas, Tennessee e Oklahoma, além da Carolina do Norte. Isso é um bom presságio para Biden nas votações no final do mês no Mississippi, na Geórgia e na Flórida.

A grande noite de Biden mudou a corrida democrata para uma nova fase, enquanto ele e Sanders se preparam para uma prolongada batalha de delegados.

Biden constrói uma coalizão

Ao longo do mapa, surgiu uma coalizão a favor de Biden. Afro-americanos, eleitores mais velhos e brancos moradores de subúrbios o apoiaram em números esmagadores.

Foi uma demonstração vigorosa da velocidade vertiginosa com a qual Biden consolidou a ala moderada dos democratas a partir de sábado à noite. Os apoios de segunda-feira (2) de Pete Buttigieg, ex-prefeito de South Bend, Indiana, e da senadora Amy Klobuchar, de Minnesota — pré-candidatos que conversavam com os democratas nos subúrbios — pareciam traduzir diretamente em votos de seus apoiadores. Estado após estado, pesquisas de boca de urna mostraram que Biden venceu esmagadoramente entre os eleitores que se decidiram nos últimos dias.

“As pessoas estão falando sobre uma revolução", disse Biden na noite de sábado (29) em uma quadra de basquete em um centro recreativo perto do Obama Boulevard, em Los Angeles.

Em um ataque a Sanders, que prometeu trazer novos eleitores para o partido Democrata, Biden disse: “Começamos um movimento. Aumentamos a participação. As pessoas querem participar conosco!"

A coalizão de latinos, eleitores mais jovens, liberais e independentes de Sanders foi mais difícil de se mostrar claramente na noite de terça-feira, com os resultados da Califórnia ainda por vir. Mas sua força relativa terá seu foco avaliado em breve.

Noite de Sanders depende da Califórnia

O senador Bernie Sanders lidera na Califórnia, o que pode lhe dar o lote de delegados necessários para sair da Superterça à frente de Biden.

Mas as vitórias de Biden em Minnesota e Massachusetts, dois estados nos quais Sanders fez campanha durante a reta final da votação, prejudicaram muito a noite do senador. Joe Biden também venceu Sanders em uma corrida apertada no Texas, um estado que muitos esperavam que Sanders vencesse por uma margem clara.

Embora Sanders tenha se beneficiado de um campo muito dividido nos primeiros embates, a consolidação moderada o prejudicou na terça-feira. Mesmo um estado como o Colorado, onde Bernie Sanders tinha uma vitória clara, pode terminar com indefinição dos delegados. É provável que Biden, Bloomberg e Warren terminem acima de 15%, o que significa que dividirão os delegados em geral.

O senador ficará ainda mais esvaziado pelas perdas no estado que havia conquistado em 2016, Oklahoma e Minnesota.

Se ele conseguir uma vitória significativa na Califórnia, o resto do mapa pode não parecer tão assustador. Enquanto os votos ainda são contados, a questão é se Bloomberg, atualmente em terceiro, e Warren, agora em quarto, terminarão em 15% ou mais em todo o estado.

Se não conseguirem, Sanders ainda poderá sair da Superterça com uma vantagem sobre Biden.

Bloomberg falha

Michael Bloomberg entrou na corrida com a crença de que Joe Biden seria fraco demais para enfrentar Bernie Sanders. No entanto, na terça-feira, Biden subiu e o ex-prefeito de Nova York entrou em colapso — perdendo no mapa enquanto potencialmente ajudava Sanders e prejudicava Biden ao desviar delegados que de outra forma poderiam ter votado no ex-vice-presidente.

É uma virada impressionante para a campanha da Bloomberg, considerando que ele gastou mais de US$ 230 milhões (pouco mais de R$ 1 bilhão) em anúncios nos estados da Superterça e passou os meses anteriores agradando enormes organizações estaduais e acumulando apoios importantes.

A noite de terça-feira mostrou quais são os limites de um orçamento de publicidade interminável em um ambiente de campanha pesada. O ex-prefeito de Nova York ficou abaixo dos 15% que ele precisava para conquistar delegados em muitos estados, e o único em que ele venceu foi a Samoa Americana, um território dos EUA com apenas seis delegados em disputa.

Até Bloomberg e seus principais assessores tiveram dificuldade para avaliar seu desempenho na terça-feira.

"À medida que os resultados chegam, isso é o que está claro: não importa como os delegados ganhem hoje à noite, fizemos algo que ninguém mais pensava ser possível", declarou Bloomberg aos apoiadores em sua festa de terça-feira à noite na Flórida, ressaltando sua capacidade de ultrapassar 1% nas pesquisas.

Nesta quarta (4), Bloomberg sua saída da corrida presidencial americana. Ele gastou cerca de US$ 464 milhões (R$ 2,1 bilhões) de sua própria fortuna para financiar a campanha e já anunciou apoio à candidatura de Biden.

A dura realidade de Warren

No dia da primária de New Hampshire, o gerente de campanha de Elizabeth Warren, Roger Lau, publicou um memorando traçando seu caminho para a indicação. O texto diz que ela terminaria entre os dois primeiros em oito dos 14 estados que votaram na terça-feira e atingiria os 15% necessários para reunir delegados em todo o estado em todos, exceto um. A dura realidade de Warren é que é improvável que ela chegue perto de atingir essas metas.

A campanha da senadora tem como premissa, há semanas, a ideia de que os Estados vencedores deveriam ter importância menor à de acumular delegados na rota para a convenção nacional em Milwaukee, que acontecerá no verão americano.

Mas, na terça-feira, Warren não apenas não conseguiu vencer em um único estado (incluindo seu estado natal, onde terminou em terceiro atrás de Biden e Sanders), como também parece improvável que atinja a marca de 15% em mais de alguns estados.

Agora, a senadora terá que avaliar seu caminho a seguir.

Uma importante fonte entre os democratas e Warren disse que ela precisa de um tempo para tomar uma decisão por conta própria e não deveria se afastar da corrida eleitoral. Mas a realidade é clara: não há futuro para ela.

“Não há caminho à frente para ela", disse a mesma fonte democrata na noite de terça-feira. “Está abaixo dela permanecer" na corrida.

Em um e-mail de angariação de fundos para os apoiadores na noite de terça-feira, a campanha pediu calma e cautela.

“Catorze estados votaram hoje e os resultados ainda estão chegando de todo o país. A verdade é que talvez não saibamos os resultados completos de estados como Texas, Califórnia e Colorado por alguns dias", dizia o email. “Os delegados devem ser contados e alocados pelo distrito congressional ou pelo senado estadual [da Califórnia], e esse processo leva tempo".