Durante uma pandemia, o que significa ser o país mais feliz do mundo?


Katia Hetter, Da CNN
22 de março de 2020 às 22:43
Catedral de Helsinki, capital da Finlândia, eleito o país mais feliz do mundo

Catedral de Helsinki, capital da Finlândia, eleito o país mais feliz do mundo em 2020, pelo terceiro ano consecutivo

Foto: Divulgação/Unsplash

Para Samuel Kopperoinen, viver no país mais feliz do mundo durante a pandemia de coronavírus não se trata de uma felicidade de curto prazo.

É uma questão de rede de segurança social e de outros sistemas de apoio que seu país tem em vigor antes que surjam problemas.

Kopperoinen mora na Finlândia, eleito o país mais feliz do mundo pelo terceiro ano consecutivo na sexta-feira, de acordo com o último Relatório Mundial da Felicidade das Nações Unidas.

A Finlândia é seguida pela Dinamarca, Suíça, Islândia e Noruega.

O relatório foi divulgado pela Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas em 20 de março, o Dia Internacional da Felicidade criado pela ONU.

Os países estão classificados a partir de seis variáveis-chave que sustentam o bem-estar: renda, liberdade, confiança, expectativa de vida saudável, apoio social e generosidade.

"Grande parte do bem-estar consiste em uma assistência médica de boa qualidade", disse Kopperoinen, prestador autônomo de Helsinque casado e com três filhos. O povo finlandês "tem a sensação de que, em caso de doenças e deficiências, receberemos tratamento.

"Confiamos em sua qualidade e disponibilidade", disse ele, "e a nossa rede de seguridade social é importante. Nos ajuda no caso de perdermos o emprego, ficarmos doente ou se [nossos] filhos adoecerem. Perderemos renda, mas podemos ser remunerados, o que nos ajuda a sobreviver e ajustar nosso consumo diário".

E não são apenas os benefícios de assistência médica, assistência infantil, sistema educacional e de desemprego que contribuem para uma boa sociedade, especialmente em um momento angustiante à medida que o coronavírus se espalha pelo mundo.

"Municípios e igrejas locais estão organizando ajuda e assistência para seus membros", disse Kopperoinen. Também existem serviços ponto a ponto, organizados pela internet, como o Nappi Naapuri, "onde as pessoas podem dar e pedir nos seus bairros".

"É um regime muito duro"

A felicidade não vacinará esses países contra o novo vírus, avisou o coautor do relatório Jeffrey Sachs, professor de economia e diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Columbia. "Os sistemas de saúde também não são capazes de lidar com isso sozinhos”.

"As principais medidas nas próximas semanas serão distanciamento social, auto-isolamento, quarentena, abrigo e outras medidas para encerrar, deliberada e sistematicamente - se bem feito - partes essenciais da vida social e econômica", disse Sachs.

"As principais medidas nas próximas semanas incluem o distanciamento social, autoisolamento, quarentena, abrigo no local e outras medidas para o fechamento, deliberada e sistematicamente –se bem feito– de partes essenciais da vida social e econômica", contou Sachs.

"É um regime muito duro, difícil de implementar e seguir, e com um alto custo econômico no curto prazo. Tudo para evitar um desastre de mortalidade", disse ele. "Tenho certeza de que os governos que funcionam bem acabarão se saindo melhor, pois essa epidemia exige governos e implementação fortes e eficazes".

Por outro lado, a situação nos Estados Unidos - que ocupa a 18ª posição no Relatório Mundial de Felicidade - "é caótica", contou. "Nesse caso, reflete uma baixa confiança do governo e baixo desempenho e expectativas do governo por parte do público. Estamos completamente despreparados."

Pessoas prosperam em sociedades de alta confiança

Quando uma pandemia como o coronavírus ataca a saúde e a renda da população de um país, os cidadãos de "uma sociedade de alta confiança procuram e encontram, de forma bem natural, maneiras cooperativas de trabalharem juntos para reparar os danos e reconstruírem vidas melhores", segundo o relatório. 

"Isso às vezes tem levado a aumentos de felicidade surpreendentes na esteira do que de outra forma poderiam ser desastres não mitigados.”

"A explicação mais frequente parece ser de que as pessoas ficam agradavelmente surpresas com a disposição de seus vizinhos e de suas instituições de trabalhar em conjunto para ajudar uma ao outro", continuou o relatório. "Isso promove um maior senso de pertencimento e orgulho pelo que têm conseguido realizar por meio da mitigação. Esses ganhos são às vezes grandes o suficiente para compensar as perdas materiais".

O professor finlandês de história e educação cívica, Ville Jäättelä, concordou.

Jäättelä não acredita que o governo da Finlândia seja perfeito, mas o morador de Tampere disse que confia que o atual governo fará o melhor possível durante esta crise.

"Talvez, olhando para trás, possamos descobrir algumas coisas que deveriam ter sido feitas antes ou depois ou deixadas por fazer", disse ele.

"Mas durante uma crise como essa, eles precisam operar com as informações que têm, sendo que não podem ver o futuro. E nem todos os desdobramentos podem ser estimados com 100% de certeza. Portanto, acredito que farão o melhor possível e tudo o que puderem."

As superpotências não estão contentes

Mesmo sem o impacto do coronavírus, nenhuma das maiores economias do mundo chegou ao top 10 do ranking. O Reino Unido ficou em 13º lugar, subindo do 15º lugar no ano passado, enquanto a Alemanha ficou em 17º lugar pelo segundo ano consecutivo. O Japão ficou em 62º lugar (descendo do 58º lugar); a Rússia ficou em 73º lugar (descendo do 68º lugar); e a China ficou em 94º lugar (descendo do 93º lugar).

E do outro lado do espectro, as pessoas no Afeganistão são as mais infelizes com suas vidas, de acordo com a pesquisa de 153 países, seguida pelo Sudão do Sul (152º lugar), Zimbábue (151º lugar), Ruanda (150º lugar) e República Centro-Africana (149º lugar).

 

Começou com o Butão

O Butão propôs um Dia Mundial da Felicidade às Nações Unidas em 2011, chamando a atenção internacional para a felicidade como uma medida de bem-estar.

Em 2012, a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou o dia 20 de março como o Dia Mundial da Felicidade, reconhecendo "a relevância da felicidade e do bem-estar como metas e aspirações universais na vida dos seres humanos em todo o mundo e a importância de seu reconhecimento nos objetivos de políticas públicas."

Este relatório é o oitavo a ser publicado desde 2012. Os rankings dos países mais felizes do mundo vieram a partir de uma análise de dados de pesquisas em 156 países, incluindo o World Poll do Instituto Gallup.  

 

Os países mais felizes do mundo:

1. Finlândia

2. Dinamarca

3. Suíça

4. Islândia

5. Noruega

6. Países Baixos

7. Suécia

8. Nova Zelândia

9. Áustria                

10. Luxemburgo

 

Países menos felizes do mundo:

1. Afeganistão

2. Sudão do Sul

3. Zimbábue

4. Ruanda

5. República Centro-Africana

6. Tanzânia

7. Botsuana

8. Iêmen

9. Malawi

10. Índia