Entenda o colapso do sistema funerário no Equador


Da CNN, em São Paulo
02 de abril de 2020 às 08:55 | Atualizado 02 de abril de 2020 às 10:59
Equatorianos sofrem com dificuldades para enterrar vítimas do novo coronavírus

Sem equipamentos de proteção, parentes colocam corpo de mulher, morta possivelmente por COVID-19, em caixão na porta de casa

Foto: Vicente Gaibor del Pino - 31.mar.2020/ Reuters

Ao mesmo tempo em que tentam controlar a pandemia do novo coronavírus, autoridades do Equador têm que lidar também com outro problema: o colapso do sistema funerário do país.

Com o volume crescente de mortes relacionadas à COVID-19, doença causada pelo novo coronavírus, o país teve, nos últimos dias, dificuldades para coletar os cadáveres das vítimas, e algumas famílias relataram que ficaram com o corpo dos parentes em casa por vários dias.

Moradores de Guayaquil, a maior cidade do Equador, dizem que, por causa de rigorosas medidas de quarentena destinadas a impedir a propagação da doença, incluindo um toque de recolher, não têm como enterrar seus parentes de forma prática e digna.

Nesta semana, um caso chamou atenção depois que o corpo de um homem, possivelmente vítima da COVID-19, ficou por horas em uma calçada, coberto apenas por um plástico azul, até ser coletado pelas autoridades.

Leia também:
Equador estima que mortes por COVID-19 na cidade de Guayaquil cheguem a 3.500
A Ásia pode estar certa sobre uso de máscaras, e o resto do mundo percebe agora

Luiggi Ponce, de 22 anos, que mora em um bairro pobre de Guayaquil, disse que o corpo do tio dele, que ele acredita ter morrido pelo novo coronavírus, ficou mais de quatro dias em casa, onde moram cinco crianças e sete adultos.

“Ele teve pneumonia, febre, não conseguia respirar. Ou seja, tinha todos os sintomas [para COVID-19]. O corpo foi enrolado em plástico, mas toda a casa está com cheiro ruim”, afirmou.

"A intenção do governo é que todos os que morrem em Guayaquil, não apenas os que morreram do COVID-19, possam ter um enterro digno", disse o vice-presidente Otto Sonnenholzner a repórteres na segunda-feira, depois desse caso.

A situação fez o presidente equatoriano, Lenín Moreno, criar uma força tarefa para solucionar o problema e dar um “enterro digno para os falecidos”.

Fila nos cemitérios

Imagens de emissoras locais mostraram também longas filas do lado de fora dos cemitérios de Guayaquil, enquanto as pessoas esperam para poder enterrar seus parentes.

Sebastian Barahona, coordenador da Federação Nacional de Casas Funerárias, disse que Guayaquil registrou cerca de cinco vezes mais mortes em março do que em um mês normal. "A capacidade de resposta não está preparada para o que essa emergência exige", disse.

Protesto no Equador contra demora na liberação do corpo de mortos por COVID-19

Equatorianos protestam na porta de hospital em Guayaquil contra a demora na liberação dos corpos de seus parentes em meio ao surto de coronavírus no país

Foto: Vicente Gaibor del Pino - 1.abr.2020/ Reuters

Para resolver também essa ponta do gargalo, o governo de Moreno anunciou a construção de um cemitério em Guayaquil para tentar descongestionar os necrotérios e os hospitais onde foram registradas as mortes nos últimos dias.

O Comitê de Operações de Emergência também autorizou a operação de casas funerárias durante 24 horas, mesmo durante o toque de recolher, com o objetivo de descongestionar esses serviços. Além disso, mais médicos serão incorporados para emitir atestados de óbito.

A província de Guayas tem o maior número de infectados e mortos por coronavírus no país. Sua capital, Guayaquil, possui 70% dos 19 casos em todo o Equador, segundo o Comitê. (Com informações de Reuters e CNN)