Biden tem uma escolha de vice que se destaca do restante

Elizabeth Warren atende a critérios importantes e necessários para uma companheira de chapa que ajude Biden a vencer, opina o analista Julian Zelizer

Opinião de Julian Zelizer, analista político da CNN
19 de abril de 2020 às 16:05
Joe Biden em comício na Filadélfia
Foto: Brendan McDermid - 10.mar.2020/ Reuters

Julian Zelizer, analista político da CNN, é professor de história e assuntos públicos na Universidade de Princeton e autor do livro "Burning Down the House: Newt Gingrich, the Fall of a Speaker, and the Rise of the New Republican Party (“Botando fogo na casa: Newt Gringrich, a queda de um orador e a ascensão do novo Partido Republicano”, em tradução livre). Siga-o no Twitter: @julianzelizer. As opiniões expressas neste comentário são suas.

Joe Biden passou para a fase de apostas sobre o vice-presidente de sua candidatura. Embora a escolha para vice raramente importe tanto quanto o furor da mídia possa sugerir (já faz tempo que o equilíbrio regional na chapa eleitoral era vital para o resultado), a escolha de Biden dessa vez será significativa. Além das preocupações levantadas por alguns sobre a idade e a resistência física de Biden, o fato de que esta campanha ocorrerá no meio de uma grande pandemia significa que os democratas precisarão de todos os braços disponíveis para conseguir uma vitória em novembro.

Embora existam muitas boas possibilidades para Biden escolher, uma se destaca acima dos demais: Elizabeth Warren. A senadora cumpre vários critérios importantes necessários para um companheiro(a) de chapa que ajude Biden a vencer.

Manter grandes promessas: Esta é uma parte básica da decisão do vice, sobre a qual Biden não pode errar. Durante seu debate com o senador Bernie Sanders em março, Biden prometeu para todo o país, em rede nacional, que selecionaria uma mulher para o cargo. Muito embora governadores como Andrew Cuomo, de Nova York, e Gavin Newsom, da Califórnia – que ganharam destaque durante a pandemia –, pareçam atraentes, Biden não pode desistir dessa promessa. A última coisa que Biden quer fazer é seguir os passos do ex-presidente George H. W. Bush, que declarou: "leia meus lábios: não há novos impostos" na campanha em 1988, e dois anos depois, em 1990, fez exatamente o que prometeu que não faria.

O partido da governança e ideias sérias: A pandemia expôs o perigo de um governo que não valoriza o conhecimento nem leva a sério a tarefa de governar. A resposta casual do presidente Donald Trump à COVID-19 a cada passo desta crise intensificará o desejo de um governo que possa lidar com as demandas do cargo. Pesquisas nacionais mostraram que a confiança na capacidade do presidente dos Estados Unidos de lidar com a pandemia caiu.

Os norte-americanos podem estar procurando alguém em quem possam confiar, e Elizabeth Warren traz todas as qualidades para a mesa, com sua devoção a ideias e políticas públicas, vasta experiência em serviço público e a capacidade de deliberar de maneira substantiva sobre os assuntos mais complexos. Adicioná-la à chapa ajudaria os democratas a se distinguir de Trump e definir a campanha como uma corrida entre o partido da experiência e das ideias versus o partido do caos.

Mobilizar a base: Esse ponto permanece tão central como sempre. Dada a capacidade do presidente de reter grande parte de sua base nos principais estados do Colégio Eleitoral, os democratas precisarão garantir que todos os eleitores assumam sua responsabilidade cívica enviando a cédula pelo correio ou votando pessoalmente no dia das eleições. O desafio será duplamente difícil, pois os efeitos da pandemia podem facilmente levar a uma menor participação.

De todos os candidatos a vice-presidente, Warren tem uma das melhores chances de mobilizar progressistas dentro do partido. Sem ter que competir contra Bernie Sanders, a senadora pode representar a ala esquerda e servir como uma força unificadora na chapa. Defensora voraz do uso do governo na solução de problemas, Warren tem consistentemente apresentado políticas alinhadas com os progressistas.

Como o mundo mudou muito desde janeiro, algumas das ideias que a fizeram parecer radical demais durante a campanha – como uma visão abrangente do sistema de saúde, uma abordagem agressiva às mudanças climáticas e políticas econômicas ousadas para os trabalhadores norte-americanos – serão mais facilmente acomodados com eleitores mais ao centro. Além disso, Warren também pode ajudar Biden a atrair eleitoras, que nas eleições de meio de 2018 fizeram toda a diferença no equilíbrio de poder no Congresso.

Sofisticação de mídia: Durante as primárias, Warren foi muito hábil em gerar atenção da mídia e usar as mídias sociais para comunicar sua mensagem em um campo lotado de candidatos.

Em 2020, será essencial romper o ruído e se comunicar efetivamente em diferentes plataformas, sobretudo porque os eventos tradicionais da campanha serão limitados devido ao coronavírus e uma quantidade substancial de atenção da mídia será dedicada à saúde pública.

Durante sua campanha, a senadora ficou conhecida por tirar selfies com seus apoiadores, o que ajudou a gerar entusiasmo por sua candidatura e a criar uma forte presença online. Seu feed no Twitter era uma maneira eficaz de compartilhar suas mensagens políticas e oferecer vislumbres pessoais em sua vida.

Quando se trata de comunicação política, Warren não deixa dúvidas. Ela poderia facilmente ajudar Biden a aumentar sua posição pública e se comunicar de maneiras nas quais ele não se sente confortável. Warren teve um desempenho notável nos debates das primárias transmitidos pela TV -- ela mostrou capacidade de se manter firme em momentos controversos e de explicar ideias complexas de uma maneira simples.

Insegurança da classe média: Devido à pandemia, os eleitores estão particularmente preocupados com a segurança econômica. Muitos trabalhadores norte-americanos, que já estavam batalhando para sustentar suas famílias, agora perderam o emprego. E há uma grande recessão se desenhando no horizonte.

Há poucos políticos na arena nacional que enfrentaram os desafios econômicos da classe média tão intensamente quanto Warren. Como acadêmica, ela passou boa parte de sua carreira estudando as ameaças que a classe média enfrenta devido aos altos encargos com crédito, custos com educação e saúde, fraudes ao consumidor e trabalho não sindicalizado.

Warren chefiou o painel do congresso que supervisionou o programa Troubled Asset Relief, criado em 2008 para enfrentar a crise das hipotecas subprime. Foi Warren quem ajudou a estabelecer o Consumer Financial Protection Bureau (Departamento de Proteção Financeira do Consumidor). Como senadora, ela fez da saúde econômica da classe média sua principal prioridade. Colocar Warren como vice-presidente enviaria um forte sinal para os eleitores de que Biden lidaria com essas lutas desde seu primeiro dia no cargo.

Warren tem mais algo a oferecer. Ela ficou conhecida por ter um plano, ou o que parecia ser uma resposta para todos os problemas. Ela pensou sistematicamente sobre os desafios da nação e apresentou respostas detalhadas. Neste momento, os norte-americanos estão desesperados por um plano. Em algum lugar entre o distanciamento social permanente e a abertura imprudente deve haver um plano bem pensado, abrangente e claro.

Os norte-americanos querem saber como isso vai acabar e como vamos restaurar nossas vidas, com uma economia saudável e nossas instituições sociais intactas. Mais do que nunca, precisamos de um planejador para nos ajudar a sair dessa bagunça.

Entre as muitas opções de Biden, Warren seria a escolha mais poderosa. Ela energizaria instantaneamente a campanha de Biden e expandiria sua capacidade de alcançar uma ampla base eleitoral. Embora Biden possa estar considerando outros nomes, como o da ex-candidata ao governo da Geórgia Stacey Abrams ou a governadora de Michigan, Gretchen Whitmer, é Elizabeth Warren, uma das estrelas das primárias do Partido Democrata, que oferece a ele a melhor chance de assumir o Salão Oval.