Bolsonaro reforça imagem de “Trump tropical”

interferência na Polícia Federal e saída do ministro da Justiça são mais uma coincidência entre os presidentes

Lourival Sant'Anna
Por Lourival Sant'Anna, CNN  
24 de abril de 2020 às 16:20 | Atualizado 24 de abril de 2020 às 16:23
Presidente dos EUA, Donald Trump, ao lado do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro
Foto: Alan Santos/ PR

Quando o presidente Jair Bolsonaro foi eleito, a imprensa internacional o chamou de “o Trump tropical”. A interferência na Polícia Federal e a consequente saída do ministro da Justiça são mais uma coincidência na trajetória desses dois presidentes, que trouxeram militares para seus gabinetes, priorizam a economia em detrimento do meio ambiente e da saúde pública, incitam seus seguidores contra as instituições, os adversários e a imprensa.

No dia 9 de maio de 2017, menos de quatro meses depois de assumir, Donald Trump demitiu o diretor do FBI, James Comey, algo que só havia acontecido uma vez antes na história dos Estados Unidos. O motivo foram as investigações da polícia federal americana em relação ao conluio entre assessores de Trump e funcionários russos na invasão dos e-mails da campanha de sua adversária nas eleições, Hillary Clinton. Essas investigações perseguiram o presidente Trump durante boa parte de seu mandato e levaram a outras baixas na área da Justiça.

Em 8 de novembro de 2018, foi a vez do secretário de Justiça, Jeff Sessions. Essa demissão foi particularmente emblemática porque Sessions se tornou o primeiro senador republicano a aderir à campanha de Trump, em 2016, num momento em que o então candidato era combatido pela direção do partido nas primárias. Mas para o presidente, a lealdade de Sessions não era suficiente, uma vez que ele resistia às suas pressões para que barrasse as investigações do FBI.

Trump nomeou para o cargo o advogado William Barr, que havia, em um e-mail à Casa Branca, listado argumentos que a equipe jurídica poderia usar para afastar crime de responsabilidade nas múltiplas evidências de envolvimento dos assessores de Trump com as interferências russas nas eleições americanas, sob a investigação do procurador especial Robert Mueller.

Não há evidências de que o FBI tenha se dobrado ao desejo de Trump de dirigir suas investigações sob a direção de Christopher Wray, o sucessor de Comey, porque o presidente continuou se queixando da comunidade de inteligência, que ele chama de “deep state” ("estado profundo”).

O processo de impeachment foi alimentado com informações do FBI e de outras agências de inteligência. Ao final dele Trump demitiu vários funcionários que colaboraram com as investigações sobre sua pressão contra o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, para que o Ministério Público ucraniano investigasse a participação do filho do candidato democrata Joe Biden, Hunter, no conselho de administração da empresa de petróleo Barisma. Trump chegou a reter US$ 400 milhões em ajuda para o setor de defesa da Ucrânia, que enfrenta a ameaça russa, como forma de pressão.

No dia 11 de fevereiro deste ano, uma nova crise envolveu o Departamento de Justiça. O Ministério Público, subordinado ao Departamento, pediu entre 7 e 9 anos de prisão para Roger Stone, amigo e colaborador de Trump, por mentir para o Congresso e obstruir testemunhas no caso em que ele é acusado de buscar informações sobre o vazamento dos emails da campanha de Hillary. A pena pedida seguia as diretrizes do Departamento de Justiça para esses crimes.

O Departamento modificou a recomendação enviada ao juiz do caso, pedindo uma sentença “muito menor”. Em resposta, os quatro procuradores se afastaram do caso e um deles pediu demissão. O secretário de Justiça acumula nos EUA o cargo equivalente ao de procurador-geral no Brasil.

Trump reagiu no Twitter: “Parabéns ao procurador-geral Bill Barr por assumir o comando de um caso que estava totalmente fora de controle e talvez nunca devesse ter sido aberto. As evidências mostram agora claramente que o Golpe Mueller foi impropriamente levantado e manipulado. Até Bob Mueller mentiu para o Congresso!"

O tuíte foi também uma referência ao resumo que Barr fez para o Congresso do relatório do procurador especial sobre as ligações entre Trump e a interferência russa. Congressistas que tiveram acesso à íntegra do relatório, e depois o próprio Mueller, disseram que o resumo foi tendencioso em favor de Trump.

O relatório afirma que não há evidências de conluio direto do presidente com a interferência russa, e deixa a segunda acusação, de obstrução da Justiça, a cargo da interpretação de Barr. Ao apresentar sua síntese, o secretário enfatizou os pontos que levavam à tese de sua absolvição.

Barr se queixou em entrevista ao canal ABC que os tuítes do presidente “tornam o meu trabalho impossível”. Mas continuou no cargo.