"Governo em turbulência": imprensa internacional repercute saída de Sergio Moro

Jornais do exterior destacaram o papel do ex-ministro em campanhas anticorrupção e os impactos negativos de sua renúncia na economia brasileira

Pietra Carvalho Da CNN, em São Paulo
24 de abril de 2020 às 15:25
Um dos pilares do governo Bolsonaro, Sergio Moro deixou a gestão acusando o presidente de não cumprir com a autonomia que havia prometido a seu Ministério, tentando acessar dados sigilosos da Polícia Federal 
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O pedido de demissão do ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro, no final da manhã desta sexta-feira (24) foi visto pelos veículos estrangeiros como mais uma prova do enfraquecimento do governo de Jair Bolsonaro, apenas uma semana depois da saíde de Luiz Henrique Mandetta da pasta da saúde.

Os jornais internacionais repercutiram a alta do dólar e as acusações de interferência excessiva do presidente da República feitas por Moro em seu discurso de saída. Confira as manchetes da notícia pelo mundo: 

 

The New York Times

Governo brasileiro em turbulência enquanto Bolsonaro demite chefe de polícia e ministro da Justiça renuncia 

O jornal americano The New York Times destacou o papel de Sergio Moro como a “cara” do movimento anti-corrupção da Operação Lava Jato, que começou em 2016, e definiu sua demissão como o início de um “alvoroço político” no Brasil, depois que o agora ex-ministro acusou o presidente Jair Bolsonaro de tentar “corroer” a autonomia da polícia federal para colocá-la a serviço de suas ambições políticas. 

Em entrevista ao NYT, Ilona Szábo, diretora-executiva do Instituto Igarapé, que estuda a segurança pública no Brasil, definiu a saída de Moro como “um sinal de uma nova fase perigosa” no país. Para ela, os novos movimentos de Bolsonaro “são um golpe contra a democracia já que a autonomia da polícia federal é uma base essencial para uma governança democrática”. 

O tom da reportagem repercutiu as acusações de Moro contra o presidente, em que o ex-juiz o acusou de falsificar a assinatura do ministro na exoneração de Maurício Valeixo e pressioná-lo a deixar o cargo. 


The Wall Street Journal

Ministro da Justiça do Brasil se demite após conflito com presidente

O The Wall Street Journal também exaltou o papel de liderança de Moro na Operação Lava Jato e destacou que sua saída marca a segunda grande baixa no governo de Jair Bolsonaro em apenas uma semana, depois da demissão do ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta na sexta-feira 17. 

O veículo americano mencionou a “luta” do governo em meio a crise do novo coronavírus e a intervenção do presidente da República para trocar a liderança da Polícia Federal ocupada por um grande aliado do “super-ministro” da Justiça e Segurança Pública. 


The Guardian

"Ilustre” ministro da Justiça do Brasil, Sergio Moro renuncia em revés para Jair Bolsonaro 

O britânico The Guardian foi mais duro ao analisar os impactos da saída de Sérgio Moro para o governo Bolsonaro. Segundo o jornal, a saída do ex-juiz “enfraquece” o presidente, com “protestos batendo em panelas segundos depois do anúncio de saída” do então ministro. 

O texto reforça que Moro era uma “das figuras mais populares e poderosas da administração de extrema-direita” de Bolsonaro, e que seu discurso de hoje estabelece um momento de conflito político em meio às dificuldades da pandemia do novo coronavírus. 

 

Público

Sergio Moro demitiu-se e acusou Bolsonaro de interferência política na Polícia Federal

O jornal português Público destacou as falas de Moro na coletiva desta sexta-feira, 24, sobre as imposições do presidente em assuntos em que ele havia prometido autonomia para o ministro da Justiça e Segurança Pública em assuntos como a indicação da chefia da Polícia Federal.

“O Presidente é quem indica, mas ele assumiu compromisso que eu faria a escolha e uma troca aconteceria com causa consistente”, disse o ex-ministro, sublinhando que quando aceitou o cargo Bolsonaro lhe deu carta branca no combate à corrupção e ao crime organizado e que, agora, Moro foi pego de surpresa com a exoneração de Valeixo no comando da PF. 


El País 

O juiz Moro renuncia como ministro da Justiça pelas ingerências de Bolsonaro 

O espanhol El País definiu a saída de Moro como um “duro golpe” para o “debilitado” presidente do Brasil. Segundo o jornal, Jair Bolsonaro “perde a peça mais preciosa de seu governo”, em uma saída marcada por um discurso de 40 minutos muito crítico às “ingerências” do líder do Executivo. 

O jornal destacou a afirmação do ex-ministro de que “o presidente quer alguém (à frente da Polícia Federal) a quem possa chamar para pedir informações, informações de inteligência”, o que, para a jornalista Naiara Gortázar, vai contra a carreira de Moro, “construída sobre a luta anticorrupção”. 

 

Clarín 

O ministro Sergio Moro renunciou no Brasil: o dólar dispara e a Bolsa de São Paulo cai 

Maior jornal da Argentina, o Clarín destacou os impactos econômicos da saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça e Segurança Pública. A reportagem também lembrou que ex-juiz é o sexto ministro a deixar o governo em apenas 16 meses do “tempestuoso” mandato de Bolsonaro. 

 

RFI

O ministro da Justiça Sérgio Moro anuncia sua demissão 

O site francês RFI comentou brevemente a demissão de Moro, destacando suas críticas a ingerência política do presidente Jair Bolsonaro e o conflito diante da troca de comando da Polícia Federal. 

 

Associated Press

Popular ministro do Brasil Sergio Moro renuncia alegando interferências 

A Associated Press deu atenção para a reação do Poder Legislativo a saída do ministro Sergio Moro. Segundo o veículo, em comunicado emitido logo depois do anúncio, a “postura intransigente” de Bolsonaro o levou a perder um de seus maiores aliados. 

 

The Telegraph 

Ministro da Justiça brasileira Sergio Moro, famoso por guerra anti-corrupção, anuncia renúncia, alega interferência

 

Bloomberg

Colaborador chave de Bolsonaro renuncia e deixa os mercados do Brasil em queda livre 

Dedicada à economia, a Bloomberg detalhou os impactos econômicos dos conflitos entre o presidente e seus ministros, atribuindo a alta do dólar e a queda da bolsa de valores ao fato de que investidores viram a saída Moro “como mais uma prova de que a administração de Bolsonaro está desmoronando” em meio a especulações de que o ministro da Economia Paulo Guedes pode ser o próximo a deixar o governo.

Até a tarde desta sexta-feira 24, o dólar americano era cotado a 5,73 reais e a Bolsa de São Paulo caía 6%.