Militar americana é alvo de ataques após falsa acusação de que iniciou pandemia


Donie O'Sullivan, CNN Business Video by Richa Naik e John General, da CNN
28 de abril de 2020 às 01:04
Maatje Benassi,

Maatje Benassi,

Foto: Heather Fulbright/CNN

Maatje Benassi, reservista do Exército dos EUA e mãe de dois filhos, tornou-se alvo de teorias da conspiração que a colocam falsamente como responsável pelo início da pandemia do novo coronavírus (COVID-19), dizendo que ela trouxe a doença para a China.

As falsas alegações se espalham pelo YouTube diariamente, acumulando até agora centenas de milhares de visualizações adotadas até pela mídia do Partido Comunista Chinês.

Apesar de nunca ter tido um resultado positivo para o coronavírus ou sintomas, Benassi e seu marido agora são objetos de discussão nas mídias sociais chinesas sobre o surto, inclusive entre contas que são conhecidas por disseminar notícias falsas.

As reivindicações viraram suas vidas de cabeça para baixo. O casal diz que seu endereço residencial foi divulgado na internet e que, antes de encerrar suas contas, suas caixas de entrada nas redes sociais eram invadidas por mensagens de conspiracionistas.

"É como acordar e depois entrar em um pesadelo dia após dia", disse Maatje Benassi à CNN em uma entrevista exclusiva, a primeira vez que ela se manifesta publicamente desde que foi difamada online.

Como o coronavírus se espalhou pelo mundo, o mesmo ocorreu com informações erradas sobre a doença. Gigantes da tecnologia divulgaram as medidas que estão tomando para combater a desinformação do coronavírus, mas esses esforços falharam em ajudar o casal Benassi.

O sofrimento da família mostra o potencial de falsidades flagrantes serem ampliadas pelas plataformas de mídia social. Ele também serve como um lembrete poderoso de que a desinformação online, por mais selvagem ou obviamente falsa que possa parecer, pode ter consequências reais e duradouras offline.

Maajte e seu marido Matt ainda trabalham em seus empregos no governo. Maajte é uma funcionária civil no Forte Belvoir do Exército dos EUA, na Virgínia, onde trabalha como oficial de segurança. Matt, um oficial aposentado da Força Aérea, é funcionário civil da Força Aérea no Pentágono.

Apesar de trabalhar para o governo americano, o casal vem experimentando os mesmos sentimentos de desamparo, familiares a outras pessoas que foram alvo de assédio e desinformação. "Quero que todo mundo pare de me assediar, porque isso é cyberbullying e ficou fora de controle", disse Maajte enquanto lutava contra as lágrimas.

Matt tentou obter os vídeos retirados do YouTube e impedir a sua divulgação online. O casal disse que entrou em contato com um advogado, que lhes disse que havia pouco a ser feito, e a polícia local, que deu a mesma orientação.


Origens de uma teoria da conspiração 

As teorias da conspiração não são diferentes dos vírus, na medida em que evoluem e se transformam para se espalhar e sobreviver. Antes de Maatje Benassi se tornar o principal protagonista dessa conspiração, variações da história circulavam online há meses.

Nas primeiras semanas do coronavírus, os teóricos da conspiração começaram a alegar, sem evidências, que a doença uma arma biológica dos EUA. Mais tarde, um membro do governo chinês promoveu publicamente a noção de que os militares americanos levaram o vírus para a China. O secretário de Defesa americano, Mark Esper, disse que é "completamente ridículo e irresponsável" que alguém que fale em nome do governo chinês promova tal alegação.

Somente em março, meses após os primeiros casos relatados de coronavírus na China, os teóricos da conspiração voltaram seu foco para Maatje Benassi. A teoria infundada começou com sua participação em outubro nos Jogos Mundiais Militares, sediados em Wuhan, a cidade chinesa onde o surto de coronavírus começou no ano passado.

Maatje Benassi competiu em uma prova de ciclismo, quando sofreu um acidente na última volta que a deixou com uma costela fraturada e gerou uma concussão. Apesar do acidente, Benassi ainda terminou a corrida, mas acabou sendo o começo de algo pior. Enquanto centenas de atletas das Forças Armadas dos EUA participaram dos Jogos, Maatje Benassi recebeu um papel de destaque na teoria da conspiração.

Talvez o líder de torcida mais proeminente da idéia de que Benassi tenha participado da trama imaginária de infectar o mundo seja George Webb, um prolífico vendedor de desinformação americano de 59 anos. Durante anos, Webb faz transmissões ao vivo por várias horas diárias no YouTube, onde acumula mais de 27 milhões de visualizações e quase 100.000 seguidores.

Em 2017, a CNN revelou como Webb fazia parte de um trio de teóricos da conspiração que divulgou um boato falso sobre um navio de carga com uma "bomba suja" que deveria chegar ao porto de Charleston, na Carolina do Sul. A bomba nunca se materializou, mas as reivindicações levaram a que partes do porto - uma das maiores da América - fossem fechadas por um tempo como medida de segurança.

Até recentemente, disse Webb, seus vídeos no YouTube incluíam anúncios - o que significa que a plataforma, de propriedade do Google, estava lucrando com a desinformação de Webb, assim como o próprio Webb.

Webb chegou a afirmar que o DJ italiano Benny Benassi, cuja música de 2002 "Satisfaction" se tornou uma sensação mundial, tinha o coronavírus e que ele, junto com Maatje e Matt Benassi, faziam parte de uma trama ligada à dimenissão.

Benny disse à CNN que nunca conheceu Maatje e Matt, e ambos afirmaram que, tanto quanto sabem, não estão relacionados. Benny destacou que Benassi é um sobrenome muito comum na Itália.

Benny Benassi declarou que não foi diagnosticado com o coronavírus. Como artistas de todo o mundo, ele cancelou seus shows por causa do distanciamento social e restrições de viagens. Webb afirmou anteriormente, inclusive, que o DJ é holandês - mas ele não é.

Em entrevista por telefone na quinta-feira, transmitida ao vivo para seus seguidores no YouTube, Webb não ofereceu evidências substanciais para apoiar suas alegações sobre os Benassis e disse que se considerava um "repórter investigativo", não um teórico da conspiração.

Ele também afirmou que o YouTube recentemente parou de exibir anúncios em seus vídeos depois que começou a falar sobre o coronavírus. Webb alegou que normalmente ganhava algumas centenas de dólares por mês diretamente do YouTube.

O YouTube confirmou à CNN que não estava exibindo anúncios no canal de Webb, mas se recusou a dizer se os anúncios apareceram no passado ou fornecer detalhes sobre quanto dinheiro seu canal pode ter ganho.

Um porta-voz da empresa afirmou que o YouTube estava comprometido em promover informações precisas sobre o coronavírus. A empresa removeu alguns comentários ameaçadores sobre os Benassis que foram publicados nos vídeos de Webb quando perguntados sobre eles pela CNN. O YouTube também disse que havia removido alguns vídeos postados por Webb no passado.

 

Impactos no mundo real

Embora as alegações sobre o casal Benassi possam ser totalmente falsas, as ameaças que enfrentam e o medo que sentem são muito reais.

Matt Benassi teme que isso possa "se transformar em outro Pizzagate", referenciando outra teoria da conspiração infundada que alegava um anel de pedofilia que de alguma forma envolvia Hillary Clinton, entre outros, estava operando em uma pizzaria em Washington DC. A teoria não recebeu muita atenção popular até que um homem apareceu na pizzaria no final de 2016 e disparou uma arma de assalto, dizendo que ele estava lá para investigar o caso.

"É realmente difícil responsabilizá-lo [Webb]", disse Matt Benassi. "A polícia diz a você que não podemos fazer nada porque temos liberdade de expressão neste país. Depois, eles dizem: 'Vá conversar com um advogado civil', assim fizemos. Conversamos com um advogado. Você rapidamente percebe que para pessoas como nós, é muito caro litigar algo assim. Não recebemos recurso da polícia. Não recebemos recurso dos tribunais ".

Matt Benassi disse queixou-se ao YouTube, mas mesmo quando a empresa retira vídeos, pode levar dias para isso. A essa altura, um vídeo pode se tornar viral, e o dano está feito. Pior ainda: os vídeos que Webb postou no YouTube que são removidos são frequentemente reenviados para a plataforma.

Na China, os vídeos do YouTube atacando os Benassis são enviados para plataformas populares como WeChat, Weibo e Xigua Video e traduzidos para o chinês, de acordo com uma análise de Keenan Chen, pesquisadora do First Draft, uma organização sem fins lucrativos que pesquisa desinformação.

Infelizmente, a experiência do casal Benassi não é única, disse Danielle Citron, professora de direito da Faculdade de Direito da Universidade de Boston e bolsista da MacArthur que estuda assédio online. Diante de "cyber mobs", como a Citron os descreve, as autoridades geralmente não podem ou não querem investigar.

Quanto a YouTube, Citron disse que a lei precisa mudar: "No momento, eles estão totalmente imunes à responsabilidade legal de acordo com as leis federais. E podem simplesmente ir embora".

Aconteça o que acontecer a seguir, "o estrago está feito", segundo Maatje Benassi. "Eu sei que [nunca] será o mesmo. Toda vez que você for ao Google, meu nome aparecerá como paciente zero".