Brasil, Paraguai e Uruguai veem ambiguidade da Argentina em acordos do Mercosul

Diplomatas ouvidos pela CNN avaliam que Argentina está se pautando mais pela política interna do país do que sobre questões específicas do Mercosul

André Spigariol e Diego Rezende, da CNN em Brasília e Buenos Aires
30 de abril de 2020 às 21:22
O presidente argentino, Alberto Fernández
Foto: Gonzalo Fuentes - 05.fev.2020/ Reuters

A Argentina disse nesta quinta-feira (30), em reunião de coordenadores do Mercosul, que deseja rever o andamento das negociações de novos acordos de livre comércio do bloco com outros países, defendendo que cada país possa avançar nesse tema em “ritmos diferentes”. No entanto, na última sexta-feira (24), o governo de Alberto Fernández tinha anunciado que se retiraria da mesa de negociações.  

O posicionamento desta quinta-feira foi visto como “ambíguo” pelos demais sócios do Mercosul, que decidiram esperar a apresentação de uma proposta concreta pelos argentinos na próxima semana.

Segundo fontes diplomáticas ouvidas pela CNN em Brasília e Buenos Aires, a Argentina não deixou claro como pretende encarar as negociações em andamento com Coreia do Sul, Canadá, Singapura e Líbano, mas reafirmou que não colocará obstáculo nos acordos já fechados com União Europeia (UE) e Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA). 

“Na sexta-feira eles disseram uma coisa e hoje eles disseram outra. Primeiro, disseram que estavam deixando as negociações, e hoje falaram algo diferente”, disse um interlocutor do governo brasileiro à CNN.

Política interna

No Itamaraty e na chancelaria argentina, diplomatas ouvidos pela reportagem avaliam que a chancelaria argentina está se pautando mais pela política interna do país do que sobre questões específicas do Mercosul. 

Ao longo da semana, o chanceler Felipe Solá e o presidente Fernández sofreram críticas da oposição e do setor empresarial por conta do anúncio da última sexta-feira. Fontes diplomáticas argentinas disseram à CNN que a divergência de Buenos Aires com os acordos em andamento no Mercosul é mais política do que comercial; a intenção da Casa Rosada é rever tudo o que o governo anterior de Mauricio Macri havia acordado com o presidente Jair Bolsonaro. 

"A maior parte de nossa indústria, nossos serviços e nossos empregos enfrentam grande incerteza em relação ao mundo que temos", disse Solá, referindo-se aos impactos econômicos da COVID-19 sobre a Argentina. "É hora de aceitar uma aceleração dos acordos de livre comércio? Com que consequências? Quem solicita acordos de livre comércio do Mercosul com outros países não pode destacar um único benefício para o trabalho argentino", criticou. 

O Paraguai também se irritou com a decisão argentina de abandonar as negociações anunciada na semana passada. “Tanto esforço para libertar o Mercosul de sua contaminação ideológica e retornar às suas origens. Com essa decisão do governo argentino, voltamos aos últimos dez anos, que paralisaram suas relações externas”, escreveu o embaixador paraguaio, Eladio Loizaga, ex-chanceler do país.

Novas reuniões entre os quatro países sócios do Mercosul devem acontecer nas próximas terça (5) e quinta-feira (7), quando Brasil, Paraguai e Uruguai esperam ter mais clareza sobre a posição argentina. “Antes eles disseram que estavam fora, mas agora dizem que todos os países devem participar com diferentes ritmos, de formas distintas. É tudo muito bonito na generalidade, mas estamos falando de negociações técnicas”, disse à CNN um diplomata brasileiro. 

Sem uma definição argentina sobre o caminho a ser seguido, há diversas opções sendo especuladas nos círculos diplomáticos dos quatro países. A CNN apurou que uma das hipóteses apontadas é a de que Brasil, Paraguai e Uruguai continuem negociando os acordos comerciais conjuntamente, sem a Argentina. 

Até o imbróglio iniciado na última sexta-feira, a posição oficial do Itamaraty sempre foi a da integração entre as quatro nações. Quando a Casa Rosada anunciou que deixaria a mesa de negociações, Brasília, Assunção e Montevidéu começaram a discutir uma forma para dar continuidade aos acordos do Mercosul sem Buenos Aires.

Com relação aos acordos do Mercosul já acertados com União Europeia e EFTA, a avaliação do Itamaraty é que Buenos Aires continuará apoiando a assinatura dos textos, ainda que setores minoritários da indústria do país pressionem o governo Fernández para rejeitar o texto. A CNN apurou que o governo argentino considera os acordos importantes para assegurar o apoio da Europa nas renegociações da dívida externa do país, que entrou em moratória no ano passado.

Atualmente, os acordos com os europeus se encontram na última fase de revisão legal. Depois disso, serão submetidos à assinatura pelos governos e à ratificação pelos parlamentos.