Com dengue em alta, América Latina enfrenta duas epidemias ao mesmo tempo

A dengue é endêmica na América Latina, mas a chegada da Covid-19 afastou os recursos da luta contra a doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti

Da CNN, em São Paulo
12 de maio de 2020 às 19:01
Agente de saúde faz fumigação para combater proliferação do mosquito transmissor da dengue em escola de San Lorenzo, no Paraguai.
Foto: Jorge Adorno - 12.fev.2020/Reuters

Enquanto o surto do novo coronavírus mata milhares de pessoas e detém a atenção dos governos na América Latina, outra infecção viral letal está silenciosamente afetando os países do continente. 

A dengue é endêmica em grande parte da América Latina, mas a chegada da Covid-19 afastou os recursos da luta contra a doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, afirmam médicos e autoridades.

A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) prevê que o ano de 2020 seja marcado por altos índices de dengue, que podem ocupar unidades de terapia intensiva (UTIs) e matar pacientes em meio à pandemia da Covid-19.

Em todo o mundo, a doença causada pelo novo coronavírus afetou outras doenças de maneiras diferentes. Embora na Europa as medidas para conter o coronavírus tenham banido a gripe sazonal, na África o fechamento das fronteiras teve consequências mais graves, como a interrupção do transporte de vacinas contra sarampo e outros suprimentos.

Na América Latina, uma epidemia de dengue, que teve início no final de 2018, ainda está sendo sentida. As infecções por dengue nas Américas subiram para uma alta histórica de 3,1 milhões em 2019, com mais de 1.500 mortes na América Latina e no Caribe, de acordo com a Opas.

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Os casos da doença devem começar a cair no segundo semestre do ano, disse a organização.

Os surtos de dengue geralmente ocorrem três a cinco anos após a epidemia anterior. E com quatro cepas de dengue em circulação, as pessoas podem pegá-la mais de uma vez, sendo mais provável que o segundo caso seja grave.

"A Covid é a estrela no momento, então toda a atenção está sendo dedicada à Covid, mas ainda há problemas com a dengue", disse o doutor Jaime Gomez, que trabalha em um hospital em Floridablanca, na província de Santander, na Colômbia.

Embora a dengue geralmente não seja fatal e possa ser tratada com analgésicos, alguns sofrem com sintomas persistentes como fadiga, perda de peso e depressão, que afetam a capacidade de trabalhar. A dengue grave é tratada com fluidos intravenosos e aqueles que não são testados correm risco de terem complicações mais graves. 

Esse tipo de intervenção médica não pode ser dada se os pacientes ficarem em casa, preocupados em contrair Covid-19, ou se os hospitais superlotados tiverem que recusá-los.

Com relativamente poucos casos confirmados de coronavírus na província onde ele trabalha, Gomez disse que sua clínica viu as hospitalizações caírem pela metade, pois as pessoas temem se aventurar ao ar livre.

Sistema em colapso


A advogada paraguaia Sonia Fernández evitou procurar atendimento quando ela e suas duas filhas, de 11 e 8 anos, ficaram doentes com dengue no início de abril. "Nós três tínhamos dengue, todos os sintomas, mas não fomos a uma clínica ou centro de saúde para não nos expor [à Covid-19]", disse Sonia Fernández. As três conseguiram se recuperar.

Os casos de dengue no Paraguai explodiram este ano: nas primeiras 18 semanas de 2020, o país registrou 42.710 casos confirmados e 64 mortes, em comparação com 384 casos confirmados e seis mortes no mesmo período do ano anterior.

No Brasil, quando se compara a distribuição dos casos prováveis de dengue por semana epidemiológica em relação aos anos epidêmicos de 2015, 2016 e 2019, observa-se que em 2020, a curva epidêmica dos casos prováveis ultrapassa o número de casos dos anos epidêmicos de 2015 e 2019 até a semana 7 (9 a 15 de fevereiro), de acordo com boletim do Ministério da Saúde.

Entre as semanas 7 e 11, no entanto, o número de casos prováveis diminui em relação ao ano de 2015. A partir da semana 11, observa-se também uma diminuição dos casos prováveis em relação ao ano de 2019. "Vale destacar, no entanto, que os dados ainda estão em processo de atualização e digitação, podendo contribuir para uma subnotificação dos casos nesse período", disse o Ministério da Saúde em boletim epidemiológico.

Até o momento, foram confirmados 485 casos de dengue grave e 6.050 casos de dengue com sinais de alarme no Brasil, com 265 óbitos no país.

Subnotificação de casos

No Equador, onde o surto de coronavírus atingiu fortemente e os hospitais da cidade de Guayaquil ficaram sobrecarregados, uma aparente queda no número de casos de dengue pode mascarar outros problemas. De acordo com o Ministério da Saúde do país, os casos de dengue chegaram a 888 na semana que terminou em 14 de março, duas semanas depois que o país confirmou seu primeiro caso de Covid-19. 

"Claramente, a dengue está sendo subnotificada", disse Estebán Ortiz, pesquisador de saúde global da Universidade das Américas de Quito. "Os casos não diminuíram, o diagnóstico de casos diminuiu, o que confirma que o sistema entrou em colapso total", acrescentou.

O Ministério da Saúde do Equador informou em comunicado que o país não estava mais exposto ao duplo impacto da Covid-19 e da dengue do que qualquer outro na região, acrescentando que possui suprimentos suficientes para tratar casos da doença transmitida por mosquitos.

A dengue também aumentou muito na América Central. Casos na Costa Rica quase triplicaram até 1º de maio em comparação ao mesmo período no ano passado. Foram contabilizados mais de dois mil casos.  

"Estamos passando por um momento difícil ao lidar com a Covid-19, mas infelizmente outras doenças continuam seu ciclo", afirmou recentemente o diretor da agência de vigilância sanitária da Costa Rica, Rodrigo Marin. 

No Panamá, onde a dengue causou pelo menos duas mortes este ano, a autoridade de saúde da Cidade do Panamá, Yamileth López, também fez o alerta. "A dengue também mata", disse. 

Com Agência Reuters