Saída de Teich piora reputação do país no cenário internacional, dizem analistas

Para analistas, o prestígio do Brasil entrou em declínio ano passado com os incêndios na Amazônia e continua com a resposta da administração federal à pandemia

Marcelo Favalli Da CNN, em Nova York
15 de maio de 2020 às 19:39
O ex-ministro Nelson Teich em pronunciamento de despedida
Foto: Adriano Machado/Reuters (15.mai.2020)


Os sites dos principais jornais americanos publicaram a notícia da demissão do ministro da Saúde e enfatizaram dois aspectos: trata-se da segunda mudança na pasta em menos de um mês e as semelhanças das políticas federais do Brasil e dos Estados Unidos no combate ao novo coronavírus.

As reportagens destacam que os presidentes dos dois países se tratam como amigos e ambos têm resistência em basear as decisões administrativas nas pesquisas científicas.

A imprensa americana ressalta que Jair Bolsonaro continua defendendo o uso da cloroquina em pacientes infectados, enquanto nos Estados Unidos Donald Trump promete uma vacina contra a Covid-19 até o final do ano, no país. Nos dois casos, uma importante parcela da comunidade médica não garante tais resultados.

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A demissão de Nelson Teich ainda prejudica a já manchada reputação do Brasil na comunidade internacional. Segundo o vice-presidente de política da Americas Society/Council of The Americas, Brian Winter, o prestígio do país entrou em declínio ano passado com os incêndios na Amazônia e continua com a resposta da administração federal à pandemia.

“Parte da razão pela qual a administração Bolsonaro ganha tamanha atenção nos Estados Unidos é porque a opinião pública entende o que acontece no Brasil é um reflexo perfeito do que acontece nos Estados Unidos, onde o presidente também tentou promover o uso da cloroquina. E falhou”, disse o pesquisador.

Winter ainda comparou os governos Trump e Bolsonaro no ataque que ambos fazem a governadores e prefeitos que defendem o isolamento social. “Eu nasci no Texas. Tenho amigos que ainda vivem no estado. E todo mundo sabe quem é Bolsonaro”, completou Brian Winter.

Por outro lado, o pesquisador prevê que a imagem desgastada do Brasil deve ser passageira. “Na década de 1990, a reputação internacional do Brasil era realmente terrível, por conta do massacre da Candelária e o impeachment (do então presidente Fernando Collor). Depois, as circunstâncias mudaram, a política brasileira mudou... E as coisas melhoraram. Reputação internacional é algo muito volátil”, concluiu Brian Winter.

Samelys Lopez, pré-candidata a uma vaga ao Congresso dos Estados Unidos pelo estado de Nova York, também tem usado as comparações entre Trump e Bolsonaro na campanha pela indicação no partido democrata. Segundo ela, quando os dois líderes desvalorizam conclusões da comunidade científica, minorias historicamente vulneráveis se tornam mais suscetíveis às epidemias. Lopez, que trabalha em políticas sociais no condado do Bronx, diz que o grande número de vítimas da Covid-19 nos dois países é resultado da postura dos presidentes que demoraram para assumir que a doença chegaria a todas as regiões dos países. 

Na economia, a demissão do ministro da Saúde não deve ter um grande impacto na decisão do investidor estrangeiro em apostar no Brasil, como explica Caio Azevedo, o CEO da XP Investments, em Nova York. “Quem investe em economias emergentes está acostumado ao risco político. Eu não vejo como esse episódio (a demissão do ministro Teich) como um aumento no ruído político”.

Na opinião de Azevedo, os investidores têm preferido aplicações nos Estados Unidos e em outros países que podem dar mais retorno com menor margem de risco. Ainda segundo o CEO da operação da XP nos Estados Unidos, o que tem afastado o investidor estrangeiro do Brasil nem é tanto a crise política causada pelo novo coronavírus, e sim a falta de “galinhas mortas”. “O Brasil está caro”, concluiu o analista referindo-se à valorização de empresas que tradicionalmente atrai o especulador.