Grupo de brasileiros vive duplo isolamento em último continente sem Covid-19

Eles se dividem entre o alívio de estar longe da doença e a preocupação de ter de acompanhar, de longe, o que acontece com parentes e amigos no Brasil

Estadão Conteúdo
25 de maio de 2020 às 09:19
Grupo de 16 militares da Marinha ocupa Estação Antártica Comandante Ferraz
Grupo de 16 militares da Marinha do Brasil ocupa, desde janeiro, a nova Estação Antártica Comandante Ferraz
Foto: Divulgação - 26.ago.2019 / Marinha do Brasil

Eles são os únicos brasileiros no continente livre do novo coronavírus. O grupo de 16 militares da Marinha do Brasil - 15 homens e uma mulher - ocupa, desde janeiro, a nova Estação Antártica Comandante Ferraz. 

Escolhidos para a missão de passar 13 meses na Antártida muito antes de a Covid-19 surgir na China, eles se dividem entre o alívio de estar longe da doença e a preocupação de ter de acompanhar, a distância, o que acontece com parentes e amigos no Brasil.

"É uma mistura de sentimentos", contou o capitão de fragata Luciano de Assis Luiz, chefe da estação, em uma videochamada realizada na terça-feira (19). "Fico alegre por mim e por minha equipe porque somos privilegiados por não ter contato com a doença, mas triste porque nossos familiares estão no Brasil vivendo isso e não temos como dar o aporte necessário."

A médica e capitã-tenente Letízia Aurilio Matos afirmou que seus pais são idosos e saíram do Rio de Janeiro por causa da pandemia. Uma prima - também médica - testou positivo para doença e está se tratando em casa.

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"Não é fácil não", disse Matos. "Ficar longe gera ansiedade. Mas a gente pede para a família falar a verdade. Está todo mundo bem realmente? Marco horário, faço reunião pelo computador e digo 'quero ver tal e tal pessoa'. Porque às vezes eles querem nos proteger, dizer que está tudo bem, mas só ficamos aliviados quando vemos todo mundo. A gente se preparou para o isolamento, eles não.”

Isolamento dentro do isolamento

Os 16 militares brasileiros na Antártida compõem o chamado Grupo Base Ferraz. Eles desembarcaram na Ilha Rei George, onde fica a estação brasileira, no dia 4 de novembro de 2019 com a missão de permanecer ali até a primeira quinzena de dezembro deste ano. Eles se instalaram no Módulo Antártico Emergencial (MAE) até a inauguração oficial da estação, em 15 de janeiro.

O maior desafio é atravessar o inverno, quando a sensação térmica cai a menos de 20 graus negativos, a escuridão cobre 20 das 24 horas do dia e os mares em volta da estação congelam. 

De meados de março, quando os dois navios da Marinha que viajam para a região foram embora, até novembro, quando as embarcações retornam levando militares e pesquisadores, eles permanecem isolados.

Neste ano, em razão da Covid-19, eles têm de viver um isolamento dentro do isolamento. Em épocas normais, são comuns, por exemplo, visitas à Estação Polonesa Henryk Arctowski, a mais próxima da base brasileira, localizada a cerca de 9 km de distância. Mas agora, por causa da pandemia, o contato com os vizinhos ocorre apenas por vídeo ou WhatsApp. 

"Ninguém aqui ou lá apresentou sintomas do vírus. Mesmo assim, estamos mantendo o isolamento", explicou Luiz. "É lógico que, caso tenha necessidade de salvar uma vida ou de mantimentos, por exemplo, algo que afete a estadia na Antártida, teremos contato com eles, mas, por precaução, estamos deixando essa possibilidade apenas para algum caso de emergência."

Protocolo de limpeza

Uma missão extra causada pela pandemia deve ser a desinfecção dos produtos atirados pelos Hércules C-130 da Força Aérea Brasileira (FAB) durante o inverno. Como não é possível pousar na estação brasileira, o cargueiro voa periodicamente sobre ela nos meses mais frios do ano e despeja paletes com produtos perecíveis e outros itens de necessidade.

Para evitar que o vírus chegue até a estação por meio desses carregamentos, foi criado um protocolo de limpeza de todo o material desde a origem, no Rio, bem como dos compartimentos do avião. Já em solo antártico, o grupo reforçará a desinfecção para que o vírus não atinja o último continente ainda livre de contágio. Não há uma data prevista para o primeiro voo.

Baixa imunidade

Outro cuidado deverá ser com a tripulação dos navios quando as viagens marítimas forem retomadas, no fim de 2020. Segundo o chefe da Comandante Ferraz, todos terão de fazer exames para ver se têm o novo coronavírus, assim como os integrantes do grupo base que substituirá o atual.

"Nós estaremos há 13 meses isolados e nossa imunidade, querendo ou não, estará mais baixa para qualquer outro vírus. Então é importante que esses exames sejam feitos antes de eles virem para cá", afirmou Luiz.

Dependendo da evolução da pandemia no Brasil, a próxima Operação Antártica Brasileira (Operantar) poderá ser afetada. "Caso seja encontrada uma vacina, uma cura, a Operantar poderá seguir sua programação normal. Mas, se fosse pegar a situação atual e levar para o final do ano, eu diria que a nossa operação será basicamente logística, de aporte de mantimentos e combustível para a estação, mas reduzindo bastante as pesquisas", disse o oficial. "Porque muitas pesquisas são realizadas nos navios e quanto mais pessoas no navio, pior."

Nem mesmo o frio, que afasta tantos microrganismos da Antártida, promete ter efeito sobre a Covid-19. A capitã-tenente Matos contou que pesquisas já identificaram outros vírus, como o H1N1, em fezes de aves na região. Além disso, ainda não é possível saber o estrago que a doença poderia causar por lá.