Protestos por morte de homem negro refletem descrença em punição, diz sociólogo

No Brasil, mais de 75% das pessoas que morrem em abordagens policiais são negras, segundo dados do Fórum de Segurança Pública

Da CNN, em São Paulo
29 de maio de 2020 às 12:04

Pesquisador da violência policial de cunho racial, o sociólogo Paulo Ramos afirmou à CNN nesta sexta-feira (29) que os protestos em Minneapolis (EUA) pela morte de George Floyd -- um homem negro de 46 anos, desarmado, que foi sufocado por um policial branco -- são uma reação à falta de esperança de que haja punição a responsáveis por casos como esse.

Para o pesquisador, "os eventos de Minneapolis estão dentro de um história de ação e reação".

"Essa reação de queimar carros e prédios públicos ou privados ocorre muitas vezes quando estão esgotadas as expectativas de resposta justa das instituições que regulam a nossa vida", avaliou. " Quando não há mais esperança nenhuma de que a justiça será feita, parte-se para esse tipo de repertório de ação coletiva."

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Ramos ainda disse observar que "a experiência justifica não os atos em si, mas essa falta de esperança", já que casos semelhantes de pessoas negras mortas por policiais brancos não tiveram resposta à altura. Ele cita como exemplo a morte de Eric Garner, que morreu, em 2014, em circunstâncias semelhantes a Floyd.

"Todos esses casos não tiveram uma resposta à altura do ponto de vista jurídico e judicial. Poucos policiais foram punidos, e quando foram, tiveram punições brandas", pontuou. "Muitas vezes é a falta de punição que gera revolta."

Racismo no Brasil

No Brasil, dados do Fórum de Segurança Pública apontam que mais de 75% das pessoas que morrem em abordagens policiais são negras. Ao traçar um paralelo entre os dois países, o sociólogo apontou diferenças culturais na reação ao racismo na sociedade.

"Existe uma diferença de composição racial na população norte-americana através de uma cultura de expressar as divergências raciais, o que, no Brasil, muitas vezes é visto de uma maneira indelicada. Se o racista comete um racismo é abominável, mas se quem for vítima reage à ação que o vitimizou, ele também é visto como alguém que está ferindo o código de ética no Brasil", analisa.

Segundo Ramos, "os atos de violência policial fazem parte de uma estrutura na qual acabam sendo paroxismo -- aquilo que a gente vê de mais dramático."

"Contudo, existe um leque muito variado de desigualdades e violações dos direitos das pessoas negras nos EUA e no Brasil, do qual a violência policial acaba sendo apenas a ponta do iceberg -- mas, claro, abominável".