40% dos países mais pobres não apoiam estudantes em pandemia, mostra Unesco

Relatório anual de educação mostra que pobreza continua sendo maior obstáculo para o acesso à educação

Julyanne Jucá, da CNN
24 de junho de 2020 às 14:37 | Atualizado 24 de junho de 2020 às 14:38
Livros infantis
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil (5.abr.2013)

O Relatório de Monitoramento Global da Educação 2020, da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), divulgado nesta terça-feira (23), estima que cerca de 40% dos países de baixa e média-baixa renda não estimulam estudantes menos favorecidos durante fechamento das escolas causado pela pandemia.

Este é o quarto relatório anual de monitoramento que avalia o progresso de 209 países em relação às metas educacionais adotadas pelos membros da ONU (Organização das Nações Unidas) na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

Mesmo antes da pandemia, cerca de 258 milhões de crianças e adolescentes estavam excluídos da educação, tendo a pobreza como principal obstáculo. Estudantes de famílias ricas, mesmo em países de renda baixa ou média-baixa, por exemplo, apresentaram três vezes mais chances de concluírem o ensino médio.

Avaliando somente o ensino médio, alunos com melhores condições financeiras apresentaram duas vezes mais habilidades de leitura e matemática básica que os de famílias pobres. Entre todas as nações analisadas, com exceção das com maior renda na Europa e na América do Norte, apenas 18 dos jovens mais pobres concluem o ensino médio comparando a 100 jovens ricos. Em pelo menos 20 países, quase nenhuma mulher jovem que more em área rural pobre, principalmente da África subsaariana, conclui o ensino médio.

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Segundo o documento, menos de 10% dos países do mundo têm leis que garantem a inclusão total na educação. O principal objetivo deste estudo, portanto, é avaliar fatores para a exclusão do sistema educacional e como cada país enfrenta o desafio de incluir os diferentes estudantes. Ele considera questões como gênero, idade, etnia, locais onde vivem, pobreza, deficiência, língua, religião, orientação sexual, encarceramento, entro outros motivos.

Estes problemas podem ser explicados por alguns fatores que divergem de um país para o outro. Em todo o mundo, 117 países permitem o casamento de crianças e 20 não legitimam a convenção internacional que proíbe o trabalho infantil, razões que agravam o distanciamento do aluno da escola.

Há também questões relacionadas à discriminação. Nos Estados Unidos, estudantes LGBT apresentaram três vezes mais chances de ficar em casa por insegurança. Leis em 25% de todos os paíes exigem que pessoas com algum tipo de deficiência sejam educadas em locais separados — o índice chega a mais de 40% na América Latina, Caribe e Ásia.

O relatório da Unesco aponta que muitos países estão correndo atrás da inclusão de forma positiva. Mas, segundo Audrey Azoulay, diretora geral da Unesco, será ainda mais importante repensar a educação após a pandemia, que colocou as desigualdades em evidência. "O fracasso em agir impedirá o progresso das sociedades", afirmou.