ONU relata tráfico humano, tortura e mortes em minas de ouro da Venezuela

Na Investigação, a ONU identificou outros crimes nos garimpos da Venezuela, como tortura aos trabalhadores, trabalho escravo degradante e trabalho infantil

Daniel Motta Da CNN, em São Paulo
24 de julho de 2020 às 20:09
Bandeira da Venezuela
Foto: Alexander Rodriguez/Pixabay


Cento e quarenta e nove mineiros morreram em garimpos de ouro da Venezuela nos últimos quatro anos, em disputa pelo controle das minas. O dado é do relatório do Alto Comissariado de Direitos Humanos (ACNUDH) da ONU, divulgado esta semana.

O levantamento ainda revela que nas áreas de garimpo, conhecidas como Arco Minero del Orinoco, pessoas são submetidas aos mais “altos níveis de violência” por grupos armados chamados “sindicatos”. Na Investigação, a ONU também identificou outros crimes nos garimpos da Venezuela, como tortura aos trabalhadores, trabalho escravo degradante, trabalho infantil e tráfico humano. 

De acordo com o relatório do ACNUDH, a violência pelo controle nos garimpos resultou em pelos menos 16 disputas nos últimos quatro anos, que resultaram nas 149 mortes.  A ONU também destaca no documento que há informações de que membros das forças de segurança do país estejam envolvidas nas mortes. 

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Segundo a investigação, mineiros que descumprem as regras impostas pelos grupos de criminosos sofrem punições severas como tiros nas mãos. E os que acabam sendo assassinados, tem seus corpos abandonados minas desativadas. 

“Os mineiros que não seguem as regras impostas pelos criminosos sofrem violações como espancamentos, tiros na mão e houve até casos de trabalhadores tendo as mãos cortadas ou sendo assassinados, e os corpos abandonados em valas perto de minas desativadas”, diz a ONU. 

O ACNUDH afirma que, embora tenha percebido um esforço e presença da polícia na região, as “autoridades falharam na investigação e na punição dos crimes na região”. 

O relatório, assinado pela presidente do ACNUDH, Michelle Bachelet, revela que os grupos armados que controlam a região decidem quem tem acesso a área dos garimpos.

“Esses grupos 'decidem quem entra e sai da área e impõem regras e severas punições a quem não obedece às ordens'. Eles também controlam os lucros da mineração e praticam extorsões alegando proteção”, destaca o relatório. 

O Alto Comissariado teve acesso a denúncias que dizem que os grupos de criminosos conseguem se manter, de forma ilegal, nas minas por causa da corrupção e propinas que incluem o pagamento a comandantes militares na Venezuela.

Os trabalhadores também são vítimas de trabalho escravo, segundo a ONU. Eles trabalham 12 horas por dia, sem qualquer tipo de proteção, descem as minas profundas com equipamentos precários e ainda são obrigados a pagar uma parte do salário aos criminosos.

“O arranjo obriga o trabalhador a pagar de 10% a 20% do salário aos grupos criminosos. Um outro percentual, que varia de 15% a 30%, tem de ser entregue ao dono do moinho, onde as pedras são quebradas para extrair ouro e outros minerais”, cita trecho do relatório. 

A ONU também entrevistou mulheres vítimas de exploração sexual nas minas. Elas revelaram que tem aumentado o número de mulheres adultas e até adolescentes que são traficadas para as minas e obrigadas a se prostituirem.