A solução do México para a crise educacional com a Covid-19: aulas pela TV

País fará uma grade de programação com horários específicos para as diferentes séries e vai adiar avaliações no novo ano letivo que começa neste mês

Matt Rivers e Karol Suarez, da CNN
22 de agosto de 2020 às 17:30 | Atualizado 22 de agosto de 2020 às 19:56
Família Jiménez e amigos em casa no México: crianças terão aula pela televisão 
Foto: CNN

A família Jiménez tem a mesma rotina todas as manhãs. Ou pelo menos, costumava ter.

Levantar cedo, tomar banho e sentar na mesa para um rápido café da manhã composto por pão com presunto, alguns cookies e café ou chá para os mais velhos.

"Eu sinto falta disso, a rotina ao acordar, sempre na correria", diz Mariana Yoko Jiménez Arzate, dona de casa e condutora dessa horquestra matinal, sabendo que neste ano será diferente.

O passo natural após o café é uma corrida louca para a escola, que fica a algumas quadras de distância. A versão 2020 do ano escolar, que no hemisfério norte se inicia em agosto, terminará sendo apenas dez passos de distância, em direção à sala de estar do apartamento, na vizinhança de Moctezuma, na Cidade do México.

É da sala que os filhos de Mariana farão a maior parte das aulas deste semestre – assistindo a TV.

"É bom que nós continuamos tendo aulas", disse a filha de 12 anos da dona de casa, Giselle. "Mas eu estou triste por que eu ia começar o colegial e conhecer pessoas novas."

O dilema educacional

O governo do México não permitirá aulas presenciais neste ano, o que significa que os 30 milhões de estudantes mexicanos serão obrigados a aprender de forma remota.

Autoridades dizem que a pandemia do novo coronavírus – que já custou 60 mil vidas entre mais de 550 mil casos confirmados – é ainda perigosa demais para permitir que as crianças voltem para a sala de aula.

O aprendizado remoto é difícil mesmo em países desenvolvidos. Mas em lugares como o México, ter aulas de inglês ou de matemática online não é tão fácil assim – apenas 56% das residências possuem acesso à internet, de acordo com as estatísticas do governo.

Portanto, como a lei exige que a educação pública seja oferecida para todas as crianças mexicanas, o governo decidiu que a melhor forma de fazer isso é através das ondas, com 93% das casas possuindo uma televisão.

Luz, câmera... aulas

Na última semana, dentro de um estúdio bem iluminado no canal Channel 11, da Cidade do México, o professor da quinta série Omar Morales fechava os olhos enquanto um jovem com cabelo roxo brilhante aplicava maquiagem em seu gosto.

Professor Omar Morales grava aula que será exibida para milhões de estudantes pela TV no México
Foto: CNN

"Ok, esta é a sua diretora", um produtor disse a ele. "Ela é seus olhos e ouvidos aqui fora. Ouça o que ela te diz, olhe para a câmera que ela fale para você olhar e você vai se dar bem."

Neste mesmo momento no ano passado, Morales era apenas um professor da escola pública preparando a sua sala de aula, se aprontando para abraçar seus alunos no primeiro dia de aula.

Agora, parte ator, parte professor, ele praticou apresentar um plano de aulas a respeito dos elementos do som que eventualmente será assistido por milhões de pessoas.

"É desafiador", ele diz modestamente. "Não são mais 40 crianças em uma sala, onde eu conheço seus nomes, paixões, jogos favoritos. Aqui, eu estou preso em um set, mas eu sei que há milhões de crianças lá fora que ainda precisam desse conhecimento."

Morales é parte de um ambicioso plano governamental para gravar um leque de aulas acessíveis para todos os níveis, do jardim de infância ao colegial, e então transmití-lo pela TV.

O governo fechou acordos com diferenciais canais de TV para transmitir aquele conteúdo 24 horas por dia, 7 dias por semana, com diferentes graus de formação em diferentes horas do dia.

O país também usará programas de rádio para alcançar crianças sem TV ou internet, a maioria que vive, segundo o governo, em comunidades indígenas remotas.

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"Não há precedente para algo desse tamanho", diz Rodolfo Lara Ponte, que comanda o programa de educação pelo rádio durante a pandemia. "Nós planejamos ter 640 programas, através de 18 de estações de rádio em 15 estados do país", ele diz, acrescentando que muitas são gravadas em dialetos indígenas para diferentes regiões.

Por agora, tanto os programas de TV quanto os de rádio serão veiculados até dezembro, mas tudo pode ser alterado conforme a pandemia se apresenta ao longo dos próximos meses.

Autoridades dizem que o objetivo é ter as crianças de volta às salas de aula quanto antes possível, mas neste momento, alegam estar fazendo o seu melhor.

"Foi uma decisão díficil não reabrir as escolas", diz Maria Meléndez, a diretora de desenvolvimento currícular do ministério. "Mas ao fazer as aulas por rádio e TV, não estamos deixando o hiato educacional ficar ainda maior."

Desigualdade

"Hiato educacional" é um jeito educado de dizer que crianças ricas frequentemente obtém uma educação melhor do que as pobres. Esse já era um problema para o México mesmo antes da Covid-19 forçar as escolas a fechar em março. 

Por exemplo, a relativamente rica Cidade do México viu uma taxa de retenção educacional até o segundo grau de 92% em 2019. O muito mais pobre estado de Chiapas viu a sua ficar em apenas 59%.

A pandemia pode aprofundar, no entanto, o que já era um problema agudo – e televisão e rádio não poderão resolver essas disparidades. 

Você não precisa ser um especialista em educação para concluir que estudantes mais ricos com acesso à internet e a possibilidade de interagir com um professor, mesmo que remotamente, tendem a se dar melhor do que aqueles que terão suas aulas da forma que assistem desenhos de TV.

"O único aprendizado que eles terão neste ano será o que terão pela TV", diz Erandi Jacobo Martínez, professora de escola pública em Coyoacán, bairro do sul da Cidade do México. "E se eles tiverem quaisquer dúvidas, nossa possibilidade de ajudar será realmente limitada."

Outro problema é a avaliação. O Ministério da Educação diz que está diminuindo o peso da quantificação do progresso do estudante neste momento, não apenas porque é difícil fazer isso mas também pelo estresse adicional ao qual os estudantes estão submetidos.

"Falar sobre avaliação é ambicioso e eu não acredito que seja essa a nossa condição agora", disse Meléndez. "Quando os alunos voltarem para a escola, serão avaliados pelo que aprenderam."

No meio tempo, a carga para os país, que já é normalmente alta, vai crescer dramaticamente neste ano. Se as crianças fizerem progressos, os pais em casa serão a força primária de incentivo. "Se nós não pudermos vê-los, temos que confiar que os pais compartilhem conosco sobre seus filhos e em que eles estão trabalhando", diz.

É necessário se adaptar

Mariana, mãe solteira que trabalha de casa, diz que está pronta para o desafio. Ela até preparou programações diárias para a sua filha, Giselle (12), e para as duas filhas dos vizinhos, Tania (6) e Fatima (9).

"Tem que funcionar", ela nos disse enquanto bebia uma xícara de chá verde. "Você não pode nunca comparar isso com as aulas presenciais, mas nós temos que dar o nosso melhor. Temos que nos adaptar."

Tania e Fatima concordam – em quase tudo. Nós perguntamos a elas do que elas sentiriam falta não indo para a escola. "Meus amigos", disse Tania. "E meu professor."

Para as crianças, há algumas coisas que nem um pouco mais de tempo à frente da TV pode resolver.

(Texto traduzido. Clique aqui e leia o original em inglês)