Iêmen: "A parte mais difícil é quando perdemos uma criança"

Em março, o governo Trump e os principais aliados regionais dos EUA, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, reduziram o financiamento da ajuda ao Iêmen

Nima Elbagir, Angela Dewan, Nada Bashir, Barbara Arvanitidis e Yousef Mawry, Da CNN De Abs, no Iêmen
18 de setembro de 2020 às 13:38 | Atualizado 18 de setembro de 2020 às 16:36
Criança no Hospital Abs, no Iêmen
Foto: CNN

Os médicos e enfermeiros da ala de desnutrição no Hospital Abs estão acostumados a lutar – raramente há tempo suficiente durante o dia para cuidar de todas crianças desnutridas que chegam ali. Mas a situação nunca foi tão ruim quanto agora.

Nos últimos meses, a energia elétrica caiu diariamente e os altos preços do combustível significam que nem sempre os geradores ficam ligados. Quando isso acontece, os monitores e respiradores desligam. Crianças que poderiam ter sido salvas morrem. 

“Aquelas que não são mortas pelos ataques aéreos ou por esta guerra? Morrem por falta de suprimentos médicos”, disse o doutor Ali Al Ashwal à CNN no hospital em Hajjah, a noroeste da capital, Sanaa.

Em março, o governo Trump e os principais aliados regionais dos EUA, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, reduziram seu financiamento da ajuda ao Iêmen feito após o apelo das ONU. Os cortes significam redução dos serviços de saúde para civis iemenitas, com alguns forçados a fechar. Eles também obrigaram as agências de ajuda a esvaziar parte da assistência alimentar dada à população.

Essa situação é evidente no Hospital Abs. No primeiro semestre do ano, o local recebeu cerca de 700 pacientes desnutridos. Em agosto, a carga de casos foi o dobro do total médio mensal, de acordo com a equipe do hospital. 

“Nossa clínica costuma receber entre 100 e 150 casos por mês, e em um mês recebemos aproximadamente o dobro. Ao mesmo tempo, os suprimentos médicos diminuíram”, contou o médico.

“A parte mais difícil é quando perdemos uma criança quando poderia haver uma chance para ela sobreviver se a situação fosse diferente”. 

Em 2019, os EUA contribuíram com quase US$ 1 bilhão para o apelo da ONU. No entanto, em 2020, doaram menos da metade disso até agora, ou US$ 411 milhões, segundo dados da ONU.

Os cortes afetaram amplamente as áreas no norte controladas pelo movimento religioso Ansar Allah – conhecidos como rebeldes Houthi e apoiados pelo Irã – que os EUA e várias outras nações doadoras acusam de interferir em operações humanitárias.

Apesar do corte considerável dos EUA no financiamento, o país ainda é o maior doador para o apelo da ONU para o Iêmen.

Um porta-voz da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) disse à CNN que o país retomaria todas as operações no norte controlado pelos Houthi "quando estivermos confiantes de que nossos parceiros podem fornecer ajuda sem interferência indevida dos Houthi e responder pela ajuda dos EUA".

O porta-voz apontou os compromissos não cumpridos de “outros doadores” como a razão para o déficit de financiamento entre as agências da ONU no Iêmen. Segundo ele, “os Estados Unidos incentivam todos os doadores, incluindo os da região do Golfo, a contribuir com fundos adicionais para cumprir suas promessas de 2020 em tempo hábil e para que toda a assistência seja prestada de acordo com os princípios humanitários”.

O apoio prometido à ONU pela Arábia Saudita para o Iêmen caiu mais da metade neste ano. Em 2019, o país doou mais de US$ 1 bilhão e, neste ano, prometeu US$ 500 milhões. A ONU diz que apenas US$ 23 milhões desse dinheiro vieram por meio de seu apelo.

Um porta-voz do Centro de Ajuda Humanitária e Ajuda Humanitária Rei Salman da Arábia Saudita disse à CNN que o país estava pronto para entregar o resto do dinheiro em julho, mas agora esperava para finalizar acordos com as agências “para garantir que o valor prometido não seja desviado para outros propósitos além de atender às necessidades humanitárias”. Como os Estados Unidos, o país também citou preocupações de apropriação de ajuda pelos rebeldes Houthi.

“Esperamos que esses acordos sejam assinados em breve e que o valor total restante prometido seja imediatamente liberado para as agências da ONU e outras organizações internacionais”, disse o porta-voz. 

 
Foto: CNN

Já os Emirados Árabes Unidos nada doaram ao apelo para o Iêmen neste ano até agora, segundo a ONU. No ano passado, o país doou US$ 420 milhões. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos não confirmou nem negou que nada havia dado ao apelo neste ano. 

O porta-voz também mencionou preocupações sobre os rebeldes Houthi obstruindo e desviando ajuda. “Os Emirados Árabes Unidos avaliam regularmente a eficácia de seus programas de ajuda no Iêmen e assim ajustam sua abordagem. O compromisso dos Emirados Árabes Unidos com o povo iemenita é inabalável – os Emirados Árabes Unidos continuarão a ser um dos maiores doadores ao Iêmen enquanto o apoio for necessário”, disseram.

Todos os três países doaram dezenas de milhões de dólares e outras ajudas ao Iêmen por outros canais fora do apelo.

O subsecretário-geral para os Assuntos Humanitários da ONU, Mark Lowcock, disse à CNN na segunda-feira (14) que, embora a obstrução dos Houthis seja um problema, a crise de financiamento está tendo um impacto muito maior nas vidas dos iemenitas.

"O que está levando as pessoas à beira da fome é o fato de que não temos dinheiro. Acho repreensível que os países que estavam contribuindo no ano passado, afirmem que estão contribuindo novamente neste ano e não paguem, porque o efeito disso é dar às pessoas a esperança de que talvez a ajuda esteja chegando e quando você não paga, você destrói suas esperanças", afirmou Becky Anderson, da CNN, no programa “Connect the World”.

 
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Os EUA, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos são os principais atores no conflito do Iêmen e, em 2018 e 2019, foram os maiores doadores para a resposta da ONU no Iêmen.

Na próxima terça-feira (22), a 75ª Assembleia Geral da ONU será aberta com várias sessões agendadas sobre o Iêmen. Várias fontes de equipes de resposta humanitária da ONU disseram à CNN que esperam que os países prometam mais fundos na assembleia para preencher o déficit deixado pelos cortes dos três países neste ano.

Os Houthis impuseram restrições severas às agências da ONU que tentam acessar partes do país controladas pelos rebeldes no norte. As tensões subiram desde que o Programa Mundial de Alimentos, junto com os Estados Unidos e seus aliados, acusou os Houthis de roubar ajuda alimentar de outras partes do Iêmen.

Os rebeldes Houthi derrubaram o governo internacionalmente reconhecido do presidente Abd Rabbu Mansour Hadi em 2015. Uma coalizão liderada pela Arábia Saudita, da qual os Emirados Árabes Unidos são um parceiro fundamental, empreendeu uma campanha contra os Houthis nos últimos cinco anos, destruindo grande parte das áreas controladas pelos rebeldes com apoio dos EUA. Investigações anteriores da CNN mostraram que o governo dos EUA lucrou com a guerra, com a venda de bombas e armamentos de fabricação norte-americana para a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos.

Um bloqueio terrestre, marítimo e aéreo foi instituído por navios sauditas no início da guerra para interromper qualquer apoio que eles disseram que poderia ser enviado aos Houthis pelo Irã. Isso aumentou o preço dos alimentos básicos e do combustível, dificultando a manutenção de serviços essenciais, incluindo ambulâncias.   

Documento mostra um sistema em colapso

No Iêmen, 80% da população depende de ajuda. Os números da ONU mostram que as agências receberam apenas 30% dos cerca de US$ 3,4 bilhões de que precisam para manter o país de pé. É a pior situação lá desde o início da guerra civil – e é uma grande queda em relação ao ano passado, quando a resposta humanitária foi financiada em 87%.

 
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Iemenitas como Mushiraya Farah estão sentindo o impacto todos os dias. Numa rua nos arredores de Abs, Farah empurra seu filho, Asim, em uma cadeira de rodas. Ele está tão desnutrido que não consegue mais andar.

A criança foi avaliada por médicos em um hospital próximo, que desde então foi bombardeado e destruído. Com o combustível muito caro e a falta de ambulâncias, Farah não tem para onde levá-lo para tratamento. O dinheiro escasseou desde que o pai de Asim morreu em um acidente de carro.

“Asim costumava sair para estudar, como os outros meninos. Foi uma surpresa quando ele começou a cair enquanto caminhava. Os médicos fizeram exames e me disseram que não havia nada de errado com ele”, contou a mãe, mostrando à CNN sua casa, uma pequena moldura de madeira com trapos como telhado. Os trapos começaram a rasgar e não oferecem proteção contra as intempéries.

Depois que Asim ficou incapaz de andar, os médicos disseram a Farah que a desnutrição havia prejudicado seu desenvolvimento.

Ela costumava receber ajuda alimentar, mas não mais. Faz pequenos bicos e compra comida apenas o suficiente para manter a si mesma e seu filho vivos. Tudo o que ela tem, diz ela, é oração. 

“Eu rezo pela saúde. Eu oro por dignidade. É por isso que oro - saúde e dignidade”, disse. “Está nas mãos de Deus”. 

Como resultado de cortes de fundos, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (UNOCHA), que coordena a resposta internacional no país, disse à CNN que agências da ONU já foram obrigadas a fechar ou reduzir mais de 75% se seus programas só este ano, afetando mais de 8 milhões de pessoas. Entre os mais significativos estão os cortes no Programa Mundial de Alimentos (PMA) e na Organização Mundial da Saúde (OMS). Em julho, o governo Trump retirou formalmente os EUA da OMS. A retirada entra em vigor em julho de 2021.

Em um documento informativo interno confidencial da ONU obtido pela CNN, o impacto total e devastador dessa desvantagem é revelado em um arco-íris de cores marcando onde programas de ajuda foram fechados e os que estão em ameaça iminente de paralisação se mais recursos não forem recebidos. Há muito vermelho, indicando quais programas já foram encerrados ou reduzidos, e muito pouco verde, onde os programas são bem financiados.

Agências da ONU confirmaram à CNN os detalhes do documento e quase todas disseram que tiveram seu financiamento seriamente afetado.

Entre as agências mais afetadas está o Programa Mundial de Alimentos, que é financiado em apenas 44%. O PMA estima que mais de 66% das pessoas no Iêmen são consideradas sob “insegurança alimentar” e que mais de 14 milhões deles poderiam morrer se sua ajuda alimentar parar.

 
Foto: CNN

O PMA normalmente distribui alimentos (como farinha, leguminosas, açúcar e sal) para 13 milhões de pessoas por mês no país. Agora, 8,5 milhões dessas pessoas recebem rações apenas mês sim, mês não, limitando seu suprimento à metade. Se mais recursos não forem recebidos, os outros 4,5 milhões ficarão na mesma situação. Dois terços desses suprimentos vão para áreas controladas pelos Houthi, a maioria mais densamente povoada do que outras partes do país. 

“Ser forçado a reduzir pela metade a quantidade de alimentos que distribuímos é muito preocupante. O Iêmen corre o risco de cair na fome se houver interrupções prolongadas no fornecimento de alimentos”, disse a porta-voz do PMA no Iêmen, Annabel Symington, à CNN

A Unicef alertou que mais de dois milhões de crianças menores de cinco anos sofrem de desnutrição e que, com a redução do financiamento para unidades médicas especializadas, 260 mil dessas crianças poderiam ser forçadas a ficar sem tratamento nutricional essencial.

‘Paramos de contar os mortos’

É difícil ter uma visão geral do Iêmen controlado pelos Houthi. A CNN passou semanas entrando em contato com o Ministério da Saúde em Sanaa, conselhos locais, organizações de ajuda e médicos no norte do Iêmen em busca de dados recentes para mostrar quantas mortes aqui podem ter sido causadas por falta de alimentos ou desnutrição. Ninguém tinha dados sobre o número de mortos.

Fontes da ONU disseram à CNN que também têm lutado para realizar pesquisas de avaliação no norte do país. Um mapa da ONU mostra o nível atual de insegurança alimentar em todo o país e não inclui essas áreas controladas pelos Houthi no norte. 

Com um aparente excesso de mortes, presumivelmente de casos não detectados de Covid-19, tem sido difícil até mesmo manter a contagem de óbitos. Ninguém sabe ao certo se o falecido sucumbiu ao coronavírus, à desnutrição ou ambos.

Na cidade de Taiz, no sudoeste do país, um coveiro local disse à CNN que ele e seus colegas estão lutando para manter os enterros. Eles pararam de contar os mortos há algum tempo. 

“O coronavírus chegou ao Iêmen no final do mês do Ramadã. Desde então, continuamos cavando e cavando. Não damos conta”, relatou Tamim Yousef enquanto escava sob o calor sufocante do verão. 

“Você sente a maior dor com as crianças, quando tem que enterrar uma criança. É tristeza, sofrimento. Meus pensamentos ficam com os pais”.

É um sentimento compartilhado no Hospital Abs, onde o doutor Al Ashwal lamenta não ter como saber quantas crianças podem estar morrendo em casa, incapazes de receber tratamento.

Equipes médicas em todo o país estão se perguntando por quanto tempo mais podem aguentar. 

Em Aslam, no norte do Iêmen, um dos distritos mais afetados, uma unidade especializada em desnutrição teve todo o seu financiamento suspenso. Normalmente, ela recebia a maior parte de seu apoio financeiro da Organização Mundial da Saúde, mas a ONU diz que não tem dinheiro suficiente para manter programas como este em andamento.

Qais Ahmed, um enfermeiro da clínica, diz que os pacientes ainda chegam e a equipe simplesmente não pode mandá-los embora. Ele diz que o maior desafio são as falhas de energia e a falta geral de recursos.

“Não temos monitores, e o equipamento de oxigênio quando a energia para...”, ele faz uma pausa, achando difícil continuar. “Às vezes, se parar, as crianças podem sufocar. Esta é a pior parte e não há nada que a gente possa fazer para salvá-las”.

Jornalistas da Tell Your Tale Productions enviaram relatos de vários locais no Iêmen e Yousef Mawry escreveu de Dearborn, Michigan. Nima Elbagir, Angela Dewan, Nada Bashir e Barbara Arvanitidis da CNN, apuraram em Londres; Sarah Sirgany e Nada Altaher em Abu Dhabi; e Jennifer Hansler em Washington, DC.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês)