Tailândia: manifestantes declaram vitória em protestos por reformas na monarquia

Ativistas entregaram uma lista de demandas por mudanças no país às autoridades de Bangkok

Helen Regan, da CNN
20 de setembro de 2020 às 03:56
Manifestantes da Tailândia declararam “vitória” em protesto por reformas na monarquia do país
Foto: Reprodução - 20.set.2020 / Reuters

Manifestantes antigoverno da Tailândia declararam “vitória” neste domingo (20), após enviarem uma lista de demandas por reformas na monarquia do país às autoridades da capital, Bangkok – uma medida sem precedentes em uma nação que reverencia o rei.

Milhares de pessoas se reuniram na cidade para protestar durante o fim de semana. Os atos começaram no sábado (19) e foram parte de um movimento que tem ganhado força desde julho.

A líder estudantil e ativista Panasaya "Rung" Sitthijirawattanakul, de 21 anos, discursou para uma multidão no sábado, dirigindo-se diretamente ao rei tailandês Vajiralongkorn. Em razão das estritas leis nacionais, o ato pode ser punido com até 15 anos de prisão, se os comentários dela forem considerados difamatórios à monarquia.

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As leis de lesa-majestade obrigam a CNN ter certos limites para reportar todo o contexto que envolve a monarquia da Tailândia.

Demandas ao rei

Panasaya listou aos presentes dez demandas feitas pelo Frente Unida de Thammasat e Manifestação, grupo sindical estudantil do qual ela é porta-voz. A lista inclui revogação de leis contra difamação à monarquia, uma nova constituição, o fim dos gabinetes reais, a derrubada da junta militar e a dispensa dos guardas reais.

Em uma entrevista à CNN, Panasaya disse: “Não quero prejudicar a monarquia”. Mas ela também enviou uma mensagem ao rei: “Você deveria mudar para que a monarquia possa continuar a existir na Tailândia. Se você estiver prestando atenção no que estou dizendo, gostaria que considerasse nossas demandas”.

Neste domingo, com milhares de manifestantes ainda nas ruas, um grupo do protesto anunciou que tinha a intenção de enviar as dez demandas ao Conselho Privado, os conselheiros do rei.

Contudo, Panasaya e outros manifestantes foram parados pela polícia enquanto tentavam se aproximar do Conselho. Em uma troca que foi transmitida ao vivo na TV local, a ativista concordou em entregar as demandas à polícia, e declarou vitória dos manifestantes.

Ativista Panasaya "Rung" Sitthijirawattanakul concordou em entregar a lista de demandas à polícia de Bangkok
Foto: Reprodução - 20.set.2020 / Reuters

O porta-voz do governo, Anucha Burapachaisri, disse à CNN: “Estou feliz que acabou de forma pacífica. Temos a segurança dos manifestantes como nossa prioridade. E isso tem sido administrado muito bem pelos nossos policiais”.

Questionado sobre a carta ao rei, Burapachaisri afirmou: “Estou ciente das demandas deles sobre reformas na monarquia, ouvi os discursos deles, mas não tenho detalhes ainda. Preciso de mais tempo para reunir informações antes de comentar sobre isso”.

Dois meses de manifestações

Os protestos deste fim de semana começaram após dois meses de manifestações quase diárias, incluindo uma com cerca de 10 mil pessoas que se reuniram em volta do Monumento à Democracia de Bangkok, no dia 16 de agosto.

Os manifestantes pedem uma lista de mudanças, mas a reforma na monarquia da Tailândia vem se tornando o ponto central dos atos. 

Pita Limjaroenrat, político e líder do Partido Siga em Frente, de oposição, disse que seu grupo vai propor um encontro com o Conselho para “reescrever a Constituição pacificamente”.

A melhor solução, segundo Limjaroenrat, é eleger um “grupo de pessoas” para reescrevê-la. Ele declarou à imprensa que, se não houver uma mudança no país, “as pessoas vão continuar indo às ruas”.

Por que os tailandeses estão protestando?

Os protestos no país começaram após anos de agitação política marcada por um golpe militar em 2014, seguido por falsas promessas de restauração da democracia, além do que os ativistas dizem ser uma repressão dos direitos civis e liberdades.

Panasaya "Rung" Sitthijirawattanakul, de 21 anos, discursou para uma multidão no sábado
Foto: Reprodução - 20.set.2020 / Reuters

Os manifestantes afirmam que estão cansados das injustiças, como a manutenção do poder nas mãos do Exército por meio da Constituição, o prolongado estado de emergência imposto por causa do novo coronavírus – o qual eles dizem que está sendo usado para sufocar a oposição política e a liberdade de expressão –, a crise econômica – que dá à população poucas chances de encontrar um emprego –, e o desaparecimento de ativistas que vivem no exílio.

Diante desse cenário, os manifestantes dirigiram seu descontentamento ao rei Maha Vajiralongkorn, que assumiu o trono em 2016 e foi coroado em maio de 2019.

A população acredita que ele passa muito tempo em outros países e está muito ausente da vida pública, enquanto a nação sofre com a pandemia de Covid-19.

Desde que se tornou rei, bilhões de dólares em ativos da Coroa Tailandesa vem sendo transferidos a Vajiralongkorn, garantindo o controle dele sobre as finanças reais e aumentando sua riqueza pessoal.

A Lei de Propriedade da Coroa, aprovada em 1936, reorganizou os ativos da família real tailandesa em categorias separadas de ativos reais. A anulação do ato levou os ativos pessoais do rei e da Coroa a serem colocados em apenas uma categoria, administrada por Vajiralongkorn.

Apesar de a monarquia absoluta ter sido abolida na Tailândia em 1932, ela ainda tem grande influência política. Muitos tailandeses seguem uma antiga tradição de venerar a instituição real.

(Texto traduzido. Leia o original em inglês.)