Com momentos hostis, Trump e Biden repetem ataques em 1º debate; veja íntegra


Diego Freire, da CNN, em São Paulo
29 de setembro de 2020 às 23:40 | Atualizado 30 de setembro de 2020 às 12:57
Presidente Donald Trump e Joe Biden durante o debate para a presidente dos Estad

Presidente Donald Trump e Joe Biden durante o debate para a presidente dos Estados Unidos (29.set.2020)

Foto: CNN Brasil

A pouco mais de um mês da eleição presidencial dos Estados Unidos, marcada para 3 de novembro, o atual presidente do país, o republicano Donald Trump, e o democrata Joe Biden, ex-vice de Barack Obama, subiram ao palco para o aguardado primeiro debate da campanha.

O evento foi moderado por Chris Wallace, da Fox News, na Universidade Case Western Reserve, na cidade de Cleveland, em Ohio.


Assista à íntegra do debate


O encontro presencial trouxe a repetição de ataques mútuos que têm marcado a campanha e diversos momentos de hostilidade. Em um dos episódios de maior tensão, Joe Biden, seguidamente interrompido pelo republicano, chegou a pedir que "calasse a boca".

Em um levantamento exclusivo, a CNN americana mostrou quanto tempo cada candidato falou ao longo da noite. E houve quase um empate: Donald Trump teve a palavra por exatos 39min06seg, enquanto Joe Biden se manifestou por 37min56seg.

Em pesquisa pós-debate, com particpação de 568 espectadores ouvidos pela CNN americana, 60% consideram que Biden foi o vencedor do debate, enquanto 28% opinaram que Trump foi superior.

No próximo dia 7, os candidatos a vice-presidente Kamala Harris e Mike Pence participam de um novo debate. Trump e Biden voltam a se encontrar presencialmente no dia 15. 

 

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Repetição de discursos

O debate teve seis tópicos principais: histórico de Trump e Biden, Suprema Corte, Covid-19, economia, violência nas cidades e integridade das eleições.

Ambos os candidatos aproveitaram a oportunidade para repetir discursos de entrevistas recentes e das convenções partidárias.

Biden condenou as políticas de Trump no enfrentamento da pandemia do novo coronavírus e o acusou de acelerar a aprovação de uma vacina. O republicano, por sua vez, afirmou que Biden tenta enfraquecer a polícia americana, voltou a questionar os votos pelo correio e novamente culpou a China pela pandemia - país que ele tenta associar a Joe Biden.

Na questão ambiental, Biden novamente defendeu o retorno americano ao Acordo Climático de Paris e citou o Brasil, reivindicando que o mundo se mobilize para viabilizar um fundo de US$ 20 bilhões voltado à conservação da Amazônia. O democrata afirmou que o fundo seria uma forma de pedir ao Brasil que "pare de destruir a floresta" e que, caso o Brasil falhasse nesse objetivo, ameaçaria o país com consequências econômicas.

Entre os temas mais recentes, os candidatos comentaram a indicação da conservadora Amy Coney Barrett para a Suprema Corte e a matéria do The New York Times segundo a qual Trump não pagou impostos durante dez anos desde 2000.

 

Momentos de hostilidade

Frente a frente pós meses de acusações e ataques mútuos em comícios, os dois candidatos protagonizaram momentos de hostilidade nesta noite. Logo início do debate, após ser interrompido seguidas vezes por Biden sobre a indicação da conservadora Amy Coney Barrett para a Suprema Corte, Biden foi ríspido: "quer calar a boca?"

Em outro momento, quando foi novamente interrompido por intervenções de Trump enquanto comentava a questão do Obamacare, Biden voltou a se irritar: "todo mundo sabe que ele (Trump) é um mentiroso, vocês têm ideia do que esse palhaço está falando?".

Frases provocativas marcaram a noite. Em um delas, Trump afirmou que "fez muito mais em 47 meses (no cargo) do que Joe Biden fez em 47 anos (na política).

Mais adiante, quando o apresentador Chris Wallace recriminou Trump por novamente interromper a fala de seu adversário, contrariando as regras do debate, Biden ironizou: "ele nunca cumpre o combinado".

Já no fim do debate, Trump levantou uma questão que, segundo seus conselheiros, ele estava ansioso para trazer à tona: Hunter Biden. Segundo Trump, o filho de Biden se envolveu em casos de corrupção quanto autou no conselho de uma empresa de energia ucraniana - e Joe Biden, vice-presidente do país na época, teria ajudado a acobertar supostos crimes.

Biden negou de forma veementeque qualquer ato ilícito de seu filho. Ao defendê-lo, acusou Trump de tirar o foco de outras questões mais importantes. "Ele não quer falar sobre o que precisa", disse.

 

Suprema Corte

A abertura do debate foi marcada por questionamentos de Joe Biden a Trump sobre a indicação da juíza Amy Coney Barrett para a Suprema Corte após a morte de Ruth Bader Ginsburg.

Biden considerou que Barrett "parece ser uma pessoa muito boa", mas afirmou que "ela votaria para acabar com o Obamacare" - lei federal aprovada no governo Obama para ampliar o acesso público a planos de saúde.

O democrata criticou, ainda, o rápido anúncio de Trump de um novo nome para a Suprema Corte. Segundo ele, o republicano deveria ter esperado a eleição para dar aos americanos "o direito de se pronunciar" no processo.

Trump explicou suas razões para escolher Barrett e ponderou que, como atual presidente, tinha o direito de escolhê-la dentro do mandato.

"Creio que ela será excelente e será boa como qualquer outra que tem servido na Suprema Corte. Ela é extremamente respeitada por seus alunos, professores, colegas, frequentou boas universidades, e temos o direito de escolher porque vencemos a eleição. Indicamos e os democratas não pensam a esse respeito. Vencemos a eleição e temos o direito de indicá-la", declarou.

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Covid-19 e vacina

A pandemia do novo coronavírus foi outro tema que movimentou o debate logo no bloco inicial. Ao longo da campanha, Biden tem buscado responsabilizar Trump pela forma como os Estados Unidos foram afetados pela Covid-19: em números absolutos, o país é recordista no mundo em número de casos confirmados e mortes.

Com base em entrevistas do próprio Trump ao jornalista Bob Woodward para o livro "Rage" ("Ira", em tradução literal), Biden acusa o republicano de ter conhecimento prévio da gravidade da doença e ter minimizado os riscos em declarações à população.

Trump defendeu a forma como enfrentou a pandemia e disse que seu trabalho foi reconhecido, inclusive, por governadores democratas. Repetindo postura em recente discurso na Assembleia Geral da ONU, o presidente dos EUA responsabilizou a China pela pandemia. 

O republicano repetiu, ainda, que os Estados Unidos estão "a semanas de ter uma vacina". Biden tem afirmado que teme que Trump force a aprovação de uma vacina antes da comprovação de sua segurança e eficácia.

Questionado sobre as declarações de especialistas do próprio governo - como o Dr. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas - de que é improvável que uma vacina esteja amplamente disponível em prazo curto, Trump disse que "não concorda" com eles.

Trump ironizou, ainda, seu adversário na campanha pelo uso de máscaras. “Eu não uso uma máscara como (Biden), toda vez que você o vê, ele tem uma máscara”, disse Trump. “Ele pode estar falando a 200 metros de distância e aparece com a maior máscara que já vi.”

Imposto de Renda

Trump voltou a negar o conteúdo de uma matéria do jornal The New York Times, segundo a qual ele deixou de pagar imposto de renda durante dez anos desde 2000, declarando ter tido dívidas superiores a seus lucros como empresário.

De acordo com o jornal, tanto em 2016, ano em que venceu às eleições para a Casa Branca, quanto no primeiro ano na presidência, Trump pagou apenas US$ 750 em impostos. 

"Eu paguei milhões de dólares em impostos", afirmou Trump, lembrando que uma auditoria analisa seus pagamentos. "Assim que terminar (a auditoria), você verá."

 

Questão racial e reforma da polícia

O caso da morte de George Floyd, em maio, e diversos outros que se seguiram - como o de Jacob Blake e Breonna Taylor - geraram grandes protestos em todos os Estados Unidos contra a injustiça racial e abordagens violentas da polícia. 

Questionados, os candidatos se acusaram mutuamente de falta de ações pela população negra do país.

Trump afirmou que Biden apoia o enfraquecimento da polícia, o que foi negado pelo democrata.

"Eu me oponho totalmente a tirar o dinheiro dos policiais", disse Biden. "Eles precisam de mais assistência."

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Ameaça ao Brasil na questão ambiental


Como já se tornou tradicional dos debates nos Estados Unidos, a questão ambiental apareceu com força no primeiro encontro entre os postulantes ao pleito de 2020, Donald Trump e Joe Biden.

Vice-presidente dos EUA durante a gestão Barack Obama, Biden tratou do tema em um discurso que respingou até no Brasil. O candidato democrata voltou a citar a ideia de criar um fundo mundial de US$ 20 bilhões para que o Brasil "pare de destruir a faloresta". Caso contrário, ele diz que ameaçaria o país com consequências econômicas.

"As florestas tropicais do Brasil estão sendo destruídas. Mais carbono é absorvido naquela floresta do que é emitido pelos Estados Unidos. Vou garantir que vários países se juntem e digam (ao Brasil): aqui estão 20 bilhões de dólares. Parem de destruir a floresta. E se vocês (Brasil) não pararem (de destruir a floresta), então vocês sofrerão significativas consequências econômicas", disse o democreta.

 

Votos pelo correio e manipulação

Biden criticou Donald Trump por promover insinuações de que o voto pelo correio poderia levar a uma fraude eleitoral, dizendo que o presidente estava tentando diminuir o número de votos e desencorajar as pessoas a votar.

"Vamos garantir que as pessoas que desejam votar pessoalmente possam votar", disse Biden, encorajando as pessoas a comparecer pessoalmente, se possível. "Trata-se de tentar dissuadir as pessoas de votar, porque ele está tentando assustar as pessoas fazendo-as pensar que não será legítimo."

Trump recentemente pediu que seus eleitores, se votarem pelo correio, devem ir ao local de votação de qualquer maneira para "ver se o seu voto pelo correio foi tabulado ou contado", observando que, se o votado for contado, eles não poderão votar.

O republicano repetiu a postura na noite desta terça. “Estou pedindo aos apoiadores que votem com muito cuidado”.

Questionado se aceitaria o resultado das eleições em caso de derrota, Trump voltou a levantar a hipótese de que a eleição seja manipulada.

“Se for uma eleição justa, estou 100% a bordo [para aceitar os resultados]. Mas se eu vir dezenas de milhares de cédulas sendo manipuladas, não posso concordar com isso", disse.