Duas em cada cinco plantas podem desaparecer do planeta, diz estudo britânico

Ao todo, mais de 7000 espécies podem servir de alimento, mas 90% de tudo que a humanidade consome vêm de apenas 15 plantas

Flávia Duarte e Denisse Odorissi, da CNN em Londres
30 de setembro de 2020 às 16:15
Tronco de árvore em chamas na Amazônia
Foto: Ueslei Marcelino - 23.ago.2019/ Reuters

O número é alarmante: duas em cada cinco plantas do mundo estão ameaçadas de extinção. Foi o que descobriu um estudo internacional elaborado pelo Kew Gardens, o Jardim Botânico Real de Londres. O relatório “Estado Mundial das Plantas e Fungos 2020”, lançado nesta quarta-feira, contou com a colaboração de mais de 200 especialistas de 42 países. Um dos coautores do estudo foi o pesquisador brasileiro Tarciso Leão.

"Há muitas espécies brasileiras ameaçadas. Um exemplo é o butiá, que é do sul do Brasil. É uma palmeira muito buscada para horticultura, para enfeitar jardins. Além disso, pressões como mudanças do solo fazem com que ela seja vulnerável à extinção", afirma o pesquisador.

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Outro exemplo apontado no documento é o fatu amarelo. A planta nativa de uma pequena ilha do Pacífico era considerada extinta até 2003, quando um único exemplar foi encontrado na natureza. Pesquisadores conseguiram reproduzi-lo no mesmo local, mas um deslizamento matou as mudas. Agora, a espécie só existe em cativeiro.

O diretor científico do Kew Gardens, o brasileiro Alexandre Antonelli, destaca a necessidade de diversificar o uso das plantas. Ao todo, mais de 7000 espécies podem servir de alimento, mas 90% de tudo que a humanidade consome vêm de apenas 15 plantas. Muitas outras, que podem até curar doenças, sequer são conhecidas pelo homem.

"O que mais me surpreendeu foi o pequeno número de plantas e fungos utilizados para comida, para remédios, como fontes de fibra e de energia. O Brasil, por exemplo, é o país mais diverso do mundo em termos de plantas. Mas é interessante saber que 4 bilhões de pessoas no planeta dependem só de três plantas: trigo, milho e arroz." afirma Antonelli.

O relatório lista 4000 novas espécies identificadas só no último ano. Outra autora do estudo, a conservacionista britânica Eimear Nic Lughadha, chama a atenção para a importância de proteger e conhecer a biodiversidade. 

"Cada espécie é uma oportunidade. A humanidade já descobriu várias dessas oportunidades para comida, para medicina. Mas ainda somos ignorantes sobre as possibilidades da maioria das espécies. Vamos, com certeza, perder muitas dessas plantas e fungos sem antes de entendermos o que eles têm para oferecer."

"Estamos vendo uma grande perda da biodiversidade mundial. Nos últimos 50 anos, 94% das populações de animais selvagens da América Latina foram dizimadas. Uma grande quantidade de espécies está desaparecendo, por exemplo, em regiões como o Pantanal e a Amazônia, onde existe uma grande perda da mata nativa. Existe um risco enorme de perdermos essa diversidade. Se não conseguirmos identificar e proteger essas espécies, perderemos qualquer futuro benefício delas", completa Antonelli.