Mundo corre o risco de se tornar um 'inferno inabitável' para milhões, diz ONU

Pesquisas apontam o agravamento progressivo dos impactos do aquecimento global

Helen Regan, da CNN
13 de outubro de 2020 às 16:44
Réplica carregada por um manifestante da causa ambiental em Mumbai, na Índia, em setembro de 2019
Foto: REUTERS/Francis Mascarenhas

Há um aumento “impressionante” em desastres naturais nos últimos 20 anos e isso é reflexo da crise climática. A conclusão está em um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) na segunda-feira (12).

Os pesquisadores responsáveis pelo documento apontam para uma falha dos líderes políticos e empresariais em tomar medidas significativas para mitigar o impacto das mudanças climáticas e impedir que o planeta se transforme em “um inferno inabitável para milhões de pessoas”.

Enquanto isso, a pandemia do coronavírus, que matou mais de 1 milhão de pessoas e infectou pelo menos 37 milhões no mundo, expôs o fracasso de “quase todas as nações” em evitar uma “onda de morte e doenças”, apesar dos repetidos avisos de especialistas, diz o relatório.

Entre 2000 e 2019, ocorreram 7.348 grandes desastres naturais (incluindo terremotos, tsunamis e furacões) que mataram 1,23 milhão de pessoas, afetaram outras 4,2 bilhões e resultaram em US$ 2,97 trilhões em perdas econômicas globais, de acordo com o Escritório da ONU para Redução de Risco de Desastres (UNDRR).

Isso é quase o dobro dos 4.212 desastres registrados de 1980-1999, disse a ONU no novo relatório, chamado “The human cost of disasters 2000-2019” (“O custo humano dos desastres 2000-2019”, ainda sem versão em português).

O Banco de Dados de Eventos de Emergência do Centro de Pesquisa de Epidemiologia em Desastres (Cred) caracteriza um desastre natural como tendo pelo menos dez ou mais pessoas mortas, 100 ou mais pessoas afetadas, declaração de estado de emergência ou um pedido de ajuda internacional.

A grande maioria desses desastres teve relação com o clima. Segundo os pesquisadores, os últimos 20 anos tiveram mais inundações, tempestades, secas, ondas de calor, furacões e incêndios florestais.

O forte aumento foi atribuído à subida das temperaturas globais, que os cientistas dizem estar aumentando a frequência de eventos e desastres climáticos extremos. 

Fonte: Banco de Dados de Eventos de Emergência do Centro de Pesquisa de Epidemiologia em Desastres (Cred)
Foto: CNN Brasil

“É desconcertante que continuemos a semear as sementes de nossa própria destruição de forma voluntária e consciente”, escreveram a chefe da UNDRR, Mami Mizutori, e Debarati Guha-Sapir, do Centro de Pesquisa sobre Epidemiologia de Desastres da Bélgica, no prefácio do relatório.

“De fato, precisamos tratar de uma questão de governança se quisermos livrar este planeta do flagelo da pobreza, da perda de espécies e da biodiversidade, da explosão do risco urbano e das piores consequências do aquecimento global”.

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A Ásia foi a região mais atingida pelos desastres climáticos nos últimos 20 anos, sofrendo 3.068 tragédias entre 2000 e 2019. Em seguida, ocorreram 1.756 desastres nas Américas e 1.192 na África.

O país mais afetado nas últimas duas décadas é a China, que experimentou mais de 500 desastres naturais, seguida pelos Estados Unidos, com 467 desastres.

Entre os mais mortíferos (considerados mega desastres porque cada um matou mais de 100 mil pessoas) estão o tsunami do Oceano Índico de 2004, o ciclone Nargis de 2008 em Mianmar e o terremoto de 2010 no Haiti.

Fonte: Banco de Dados de Eventos de Emergência do Centro de Pesquisa de Epidemiologia em Desastres
Foto: CNN Brasil

O relatório aponta também que houve avanço na proteção de comunidades vulneráveis graças a melhores sistemas de alerta precoce e respostas à emergência.

Agências de gestão de desastres em países como Bangladesh e Índia salvaram muitas vidas com uma melhor preparação para ciclones e inundações.

Mas os pesquisadores alertam que “as probabilidades continuam desfavorecendo” essas comunidades.

O cenário é mais crítico “em particular por causa de nações industrializadas que estão falhando miseravelmente na redução das emissões de gases de efeito estufa a níveis compatíveis com a meta desejada de manter o aquecimento global em 1,5 ° C, conforme estabelecido no Acordo de Paris", disseram Mizutori e Guha-Sapir, as autoras do prefácio.

Elas conclamaram os países a fazerem mais para fortalecer a governança do risco de desastres e se preparar melhor para futuras catástrofes climáticas.

Atualmente, o mundo está caminhando para um aumento de temperatura de 3,2 ° C ou mais, a menos que os países industrializados possam reduzir drasticamente suas emissões de gases de efeito estufa.

De acordo com o relatório, esse aumento de temperatura projetado é suficiente para aumentar a frequência de eventos climáticos extremos em todo o mundo, tornando qualquer melhoria na resposta a desastres ou adaptação climática “obsoleta em muitos países”.

As emissões precisarão ser reduzidas em pelo menos 7,2% a cada ano durante os próximos dez anos para atingir a meta de 1,5 ° C grau acordada em Paris.

“Temos visto pouco progresso na redução da perturbação climática e da degradação ambiental”, afirmou o Secretário-Geral da ONU, António Guterres. “Para erradicar a pobreza e reduzir os impactos das mudanças climáticas, devemos colocar o bem público acima de todas as outras considerações”.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).