As sabatinas de Biden e Trump em 5 pontos principais


Eric Bradner e Kevin Liptak, da CNN
16 de outubro de 2020 às 15:13 | Atualizado 16 de outubro de 2020 às 15:27
Trump e Biden

Joe Biden e Donald Trump em sabatinas

Foto: Reprodução/NBC e ABC

Na rede de televisão norte-americana ABC, o candidato à presidência pelo Partido Democrata Joe Biden estava explicando seu plano de aumentar os impostos de pessoas que ganham mais de US$ 400 mil por ano. Na NBC, o presidente Donald Trump se mostrou equivocado sobre a existência de um culto satânico de pedófilos. 

O problema com suas sabatinas, que eram drasticamente diferentes em tom e substância: os norte-americanos só podiam escolher um para assistir.

Com o segundo debate presidencial descartado após o diagnóstico de coronavírus de Donald Trump, os dois candidatos concordaram em transmitir as sabatinas públicas em rede nacional, com Biden respondendo a perguntas de eleitores na Filadélfia e Trump em Miami. Os dois estão programados para debater apenas mais uma vez, na próxima semana. 

Aqui estão cinco lições do duelo das sabatinas públicas: 

A realidade alternativa de Trump

Trump afirmou que a ciência ainda não confirmou a eficácia do uso de máscaras, apesar da visão universal dos especialistas em saúde (inclusive dentro de seu próprio governo) de que isso pode mitigar a disseminação do coronavírus. 

Ele se recusou a dizer se acreditava ou não que os democratas estavam administrando uma rede satânica de pedofilia, encolhendo os ombros quando pressionado e dizendo apenas: “Não tenho ideia”. 

Ele afirmou, sem evidências, que cédulas eleitorais com seu nome foram encontradas em latas de lixo. 

E ele se negou a dizer se era falso ou não um tuíte conspiratório que ele retuitou alegando que Osama Bin Laden ainda está vivo, dizendo: “As pessoas podem decidir por si mesmas”.

“Eu não entendo isso”, disse a moderadora Savannah Guthrie após essa última ambiguidade. “Você é o presidente, não o tio louco de alguém”.

O mundo virado do avesso de Donald Trump, geralmente restrito aos locais regulares do presidente nos canais de televisão conservadores e no Twitter, às vezes perde seu impacto. Mas, na frente dos eleitores comuns, suas respostas pareciam totalmente distantes de qualquer versão aceita da realidade. Os eleitores que decidem entre Trump e Biden acabam escolhendo menos entre dois candidatos do que entre dois planetas inteiramente opostos. 

Trump x moderadora

Donald Trump usa máscara após ter alta de hospital

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usa máscara após ter alta de hospital

Foto: Jonathan Ernst/Reuters (5.out.2020)

Desde que deixou o hospital, Trump tem telefonado para órgãos de imprensa favoráveis a ele para relatar sua provação e detonar Biden. Na semana passada, ele ligou para a Fox News ou Fox Business cinco vezes, além de promover conversas na Newsmax e com o radialista Rush Limbaugh. 

O calor de um espaço conservador seguro é onde Trump prosperou durante a maior parte de sua presidência. Ao entrar no palco da NBC, as coisas pareciam muito mais frias. 

Advogada de formação, a moderadora Guthrie não desistia quando Trump fugia de perguntas como aquelas sobre seu diagnóstico de coronavírus, se ele foi testado no dia do último debate, sua posição sobre a supremacia branca, suas opiniões sobre QAnon ou sua visão da votação por correspondência. 

Trump participou de uma sabatina pública no lugar de um debate por escolha própria: ele não quis fazer um segundo confronto com Biden quando a Comissão de Debates Presidenciais insistiu o encontro que fosse virtual. Mas o resultado foram vinte minutos de confronto ao vivo com apenas ele mesmo no centro das atenções, uma raridade para um presidente que se limita principalmente a amigos na mídia conservadora. 

Sem um rival no palco, Trump estava sozinho em responder às perguntas. E ele não tinha adversário para lançar seus próprios ataques. Em vez disso, o presidente se viu na defensiva e cada vez mais raivoso – inclusive zombando de uma pergunta que Guthrie fez ao chamá-la de “fofa”. 

É o tipo de desempenho que alguns conselheiros de Trump esperavam evitar, reconhecendo que esse comportamento afastou os eleitores do sexo feminino e os idosos. Durante um dos intervalos comerciais, a diretora de comunicações estratégicas de Trump, Alyssa Farah, saiu e falou com Guthrie antes de se juntar a outros assessores para falar com o presidente. 

Trump pareceu mais moderado ao responder às perguntas dos participantes da sabatina. Mas a facilidade de conduzir quatro anos de entrevistas amigáveis ficou clara quando chegou a hora de sua pergunta final: por que os eleitores deveriam dar a ele um segundo mandato? Em vez de definir o que faria de forma diferente, Trump listou apenas o que havia conquistado até agora e concluiu com: “O próximo ano será melhor do que nunca”. 

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Contraste com Biden focado na política 

O contraste entre as abordagens dos candidatos e os tópicos de suas sabatinas foi imenso, especialmente quando confrontados com comentários polêmicos que eles fizeram no passado. 

Uma janela clara se abriu para as táticas de Biden em um cenário de sabatina (no qual os eleitores pressionando o candidato cara a cara) quando um jovem negro mencionou o comentário irônico do ex-vice-presidente ao apresentador de rádio Charlamagne tha God de quem não sabia se votava nele ou em Trump,?não era negro”

“Além de dizer ‘você não é negro’, como o senhor poderia convencer os eleitores negros a participar de um sistema que falhou em protegê-los?”, perguntou o eleitor. 

Em vez de abordar seu comentário polêmico, Biden mergulhou em uma ladainha de vários minutos de políticas específicas destinadas a ajudar os negros. Em sua lista: triplicar o financiamento da Escolas Título 1 para áreas de baixa renda; ajudar pessoas que compram seu primeiro imóvel com um crédito de US$ 15 mil de entrada para que famílias de baixa renda possam começar a acumular riqueza; US$ 70 bilhões em novos fundos para faculdades e universidades historicamente negras; e empréstimos apoiados pelo governo para jovens empreendedores negros. 

Questionado se já tinha ouvido o suficiente, o jovem respondeu: “Uh, acho que sim”. Então Biden se ofereceu para continuar a conversa depois que a sabatina terminasse. 

Biden ofereceu uma série de respostas prolixas na noite de quinta-feira (15), destacando seu estilo e seus esforços para usar o evento para se concentrar em como seus planos afetariam os norte-americanos comuns. É o contraste implícito que Biden há muito busca oferecer aos eleitores: a sobriedade diante da linguagem bombástica de Trump e uma conexão com as preocupações dos norte-americanos de baixa e média renda que, segundo ele, foram ignorados por Trump. 

A assessora sênior da campanha de Trump, Mercedes Schlapp, tuitou durante a sabatina de Biden que assistir “parece que estou assistindo a um episódio da série ‘Mister Rodgers’” (uma referência um programa infantil dos anos 60). Esse era exatamente o tom que Biden pretendia. 

A posição de Biden sobre mais juízes na Supreme Corte “depende”

Biden discursando

O candidato democrata à presidência, Joe Biden

Foto: Reuters

Biden não esclareceu sua posição na noite de quinta-feira sobre a pressão de alguns progressistas para adicionar assentos à Supremo Corte, mas disse que o faria antes da eleição. 

Pressionado sobre um tema que vem evitando desde que Trump indicou Amy Coney Barrett para ocupar o lugar da falecida juíza liberal Ruth Bader Ginsburg, Biden disse que “não é um fã” de aumentar o a corte, mas mudar de ideia “depende sobre como isso vai acabar” e  “se houver um debate real e ao vivo no plenário” do Senado sobre a confirmação da juíza Barrett.

Se isso não acontecer e os republicanos se apressarem em confirmar Barrett antes da eleição, ele disse: “Estou aberto a considerar o que acontecerá a partir desse ponto”.

Biden disse que tomaria uma posição mais clara sobre o tema antes da eleição, depois de ver como o processo de confirmação se desenrola. 

Mas ele também disse que estava hesitante em tomar uma posição específica neste estágio porque deseja que a atenção se concentre no que a confirmação de Barrett e a entrega aos conservadores de uma maioria de seis juízes a três na Suprema Corte significaria para os direitos ao aborto, assistência médica, direitos LGBTQ e muito mais. 

“Se eu responder à pergunta diretamente, todo o foco estará em ‘o que Biden fará se vencer’, em vez do foco apropriado para o que está acontecendo agora”, afirmou Biden. “Isso é uma coisa que o presidente adora fazer, que é sempre tirar nossos olhos da bola”. 

Alguma clareza de coronavírus

Desde que Trump entrou no Centro Médico Militar Nacional Walter Reed, duas das perguntas persistentes e sem resposta sobre seu diagnóstico são o que seus exames de imagem do pulmão mostraram e se ele teve testes negativos antes do primeiro debate presidencial. 

Seu médico, o doutor Sean Conley, recusou-se repetidamente a dizer quando pressionado diretamente, afirmando que era uma questão de sigilo do paciente. Os outros assessores de Trump descartaram a questão do teste, alegando que não queriam olhar para trás. 

Pressionado na quinta-feira sobre as mesmas questões, Trump foi igualmente evasivo. Mas suas não respostas foram reveladoras.

Questionado diretamente se ele foi diagnosticado com pneumonia, Trump disse que não, mas reconheceu que seus pulmões foram afetados. 

“Eles disseram que os pulmões estão um pouco diferentes, talvez um pouco infectados”, contou. Foi o primeiro sinal de reconhecimento, além de revelar que ele precisava de oxigênio suplementar, de que os pulmões do presidente haviam sido atingidos pela doença.

Trump afirmou que “não pediu muito” e que “não tinha muitos problemas com os pulmões”, mas acrescentou: “obviamente senti que estava faltando alguma coisa”. 

Questionado mais tarde sobre quando teve o último teste negativo para coronavírus antes do diagnóstico de Covid-19, Trump tentou evitar a pergunta, dizendo que era testado com frequência. Mas ele foi pressionado sobre se o teste era negativo no dia do primeiro debate presidencial, respondendo: “Não sei, nem me lembro”. 

Sua resposta afirmou o que fontes disseram à CNN: que o regime de testes há muito elogiado pela Casa Branca como sua principal medida de mitigação do coronavírus não era tão extenso quanto eles afirmavam. 

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).