Membro de comissão repreende Trump e diz que presidente erra em ataques a debate

Declaração de John Danforth foi uma rara repreensão vinda de um membro de uma organização, que se esforça para permanecer neutra.

Chandelis Duster, CNN
22 de outubro de 2020 às 05:00 | Atualizado 23 de outubro de 2020 às 00:33
O presidente dos EUA Donald Trump
Foto: Carlos Barria/Reuters (30.set.2020)

Um membro da Comissão de Debates Presidenciais (CDP) dos Estados Unidos disse que os ataques do presidente Donald Trump à comissão são “simplesmente errados”. Foi uma rara repreensão vinda de um membro de uma organização, que se esforça para permanecer neutra.

Trump atacou repetidamente os moderadores do debate e a comissão, alegando falsamente durante uma entrevista ao programa Fox & Friends na terça-feira (20) que seu confronto com o ex-vice-presidente Joe Biden nesta semana é “uma armação”, embora os tópicos do debate e o moderador tenham sido acordados por ambas as campanhas semanas atrás.

“A aparente estratégia do presidente é desafiar a validade da eleição caso ele perca”, escreveu John Danforth, um republicano e ex-senador dos Estados Unidos pelo Missouri que está na comissão desde 1994, em um artigo de opinião publicado no jornal The Washington Post na terça.

“Vimos essa estratégia inicialmente em suas alegações de que as cédulas pelo correio são ferramentas para fraudes eleitorais em massa. Agora também vemos isso em sua afirmação de que os debates foram manipulados pela comissão para favorecer o ex-vice-presidente Joe Biden”.

Danforth observou que, como outros membros da comissão, ele manteve um “voto estrito de silêncio” em relação aos sentimentos pessoais sobre a campanha, mas agora que o presidente e seus apoiadores “atacaram a integridade da comissão, sinto-me compelido a responder”.

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Mencionando os ataques de Trump ao âncora da Fox News Chris Wallace, que foi o moderador do primeiro debate presidencial, o conselheiro sênior da campanha de Trump, Steve Cortes, acusou a comissão em um tuíte de um “esquema para proteger seu candidato preferido”, ou seja, Biden.

Mas, escreveu Danforth, “a conclusão de que qualquer membro da comissão evitaria o jogo limpo para defender uma posição partidária é, para dizer o mínimo, irônica. As mesmas pessoas que se recusam a estender a presunção de justiça aos membros da comissão afirmam corretamente que Amy Coney Barrett deixará de lado suas crenças pessoais na Suprema Corte”, escreveu ele, comparando a posição em que se encontra a comissão com a indicada de Trump para a vaga aberta no principal tribunal dos EUA.

"Mas, mais do que isso, o ataque é simplesmente errado."

Courtney Parella, vice-secretária de imprensa nacional para a campanha de Trump, disse à CNN na quarta-feira (21): “a recusa da comissão de debate em permitir que o povo norte-americano ouça mais dos dois candidatos é o verdadeiro ataque às nossas eleições”.

Depois de um intenso vai e vem com ambas as campanhas, a comissão cancelou o debate de 15 de outubro depois que Trump teve seu teste positivo para o coronavírus e se recusou a fazer um formato virtual.

A campanha de Trump criticou a medida, culpando a comissão pela falta de comunicação e não negociando outra data para o debate. No lugar do encontro, as duas campanhas realizaram sabatinas públicas presenciais. Danforth escreveu que a acusação de Trump de que a comissão optou por um debate remoto para favorecer Biden é “um absurdo”.

“Falando novamente por mim mesmo, se eu quisesse ajudar a campanha de Biden, a última coisa em minha mente teria sido restringir a técnica que o presidente Trump exibiu no primeiro debate”, escreveu Danforth.

Ele acrescentou que, embora seja justo questionar as decisões de uma organização e que a comissão “não esteja isenta de críticas”, há “uma enorme diferença entre criticar os esforços de boa fé e acusar a comissão de favoritismo corrupto”.

“O primeiro é útil para melhorar nosso trabalho. O segundo destrói a confiança pública no tesouro mais básico da democracia: a realização de eleições justas”, escreveu ele. “O segundo abre caminho para a violência nas ruas”. A Comissão anunciou na segunda-feira que Trump e Biden terão seus microfones silenciados durante partes do segundo debate presidencial.

O copresidente da comissão de debate, Frank Fahrenkopf, disse ao âncora da CNN Wolf Blitzer na terça-feira que silenciar os microfones de candidatos enquanto não é a vez de eles falarem é “necessário” após as interrupções durante o primeiro debate presidencial em Cleveland no mês passado.

“Não há dúvida de que o primeiro debate foi uma decepção para todos, principalmente para o povo norte-americano”, disse Fahrenkopf durante a entrevista.

“Nós, como comissão, sabíamos que não podíamos mudar as regras sem o consentimento de ambas (campanhas), mas dissemos aos candidatos que o que vai acontecer é quando o moderador pedir ao candidato número um que comece seus dois minutos para falar sem interrupções, o microfone do candidato número dois estará mutado. Quando esses dois minutos acabarem, é então a chance do candidato dois de falar”.

Keith Allen, da CNN, contribuiu para esta reportagem.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês)