Sob chuva de ataques, Trump precisa voltar com tudo no último debate de 2020

Encontro na noite desta quinta-feira (22), com transmissão da CNN Brasil, pode ser última chance para presidente de reverter o rumo de sua campanha

Stephen Collinson, da CNN
22 de outubro de 2020 às 16:20 | Atualizado 23 de outubro de 2020 às 00:36

 Em um momento de catarse, que serviu como alerta contra a brandura democrata, o ex-presidente Barack Obama atacou duramente o presidente Donald Trump em um discurso cheio de escárnio.

A fala veio na véspera do debate crucial desta quinta-feira (22) à noite – debate que talvez seja a última chance do presidente de reverter o rumo de sua campanha.

Obama revelou seus quatro anos de frustração reprimida em uma aparição contundente na Filadélfia na quarta-feira (21). O discurso provavelmente irritou ainda mais o já irritado comandante-chefe dos EUA antes de seu confronto com Biden.

O debate, a ser realizado em Nashville, Tennessee, ocorre em um momento fatídico na corrida pela Casa Branca, com novas pesquisas enfatizando a dura tarefa que Trump enfrenta para conseguir outro triunfo eleitoral surpreendente em 12 dias.

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Em uma pesquisa CNN/SSRS, Biden lidera com folga na Pensilvânia, potencialmente o mais decisivo entre os estados pêndulos, com um caminho aberto para os 270 votos no colégio eleitoral se converter também Wisconsin e Michigan em vitórias.

Isso deixa Trump precisando do tipo de aceleração de última hora que o levou a uma impressionante vitória em 2016 sobre a democrata Hillary Clinton.

Significa também que seu confronto com Biden, já crucial visto que o segundo debate foi cancelado após o diagnóstico de Covid-19, pode ser a última oportunidade de sacudir a corrida.

No entanto, com o surpreendente volume de 40 milhões de votos já depositados antecipadamente, a capacidade de qualquer um dos candidatos de mudar a dinâmica da eleição está se tornando cada vez mais limitada.

Enquanto se preparava para o debate, Trump criticou todo o evento chamando-o de injusto, ressentido com o plano de silenciar os microfones dos candidatos para limitar suas interrupções beligerantes e acusou de forma infundada a moderadora Kristen Welker da NBC de ser tendenciosa.

É provável que Trump tenha ficado especialmente furioso com a zombaria de Obama e a rejeição minuciosa de suas ações no governo, dado o desprezo e a obsessão do atual pelo ex-presidente.

A aparição de Obama na véspera de um debate em que o temperamento explosivo de Trump será severamente testado provavelmente não foi uma coincidência.

Joe Biden durante campanha nos EUA
Foto: CNN

Em outro fato desenrolado na quarta-feira, autoridades federais revelaram que tanto o Irã quanto a Rússia obtiveram informações de registro de eleitores dos EUA em um esforço para interferir na eleição.

Os agentes disseram que iranianos fingiram ser parte do grupo de extrema direita Proud Boys (um grupo que Trump se recusou a repudiar durante o primeiro debate) para enviar e-mails intimidadores aos eleitores.

O diretor de Inteligência Nacional, John Ratcliffe, disse que a intenção do Irã era prejudicar o presidente. Democratas e ex-funcionários dos serviços de inteligência viram sua declaração através de lentes políticas, dado seu fracasso em fornecer evidências após a revelação do caso e seus esforços anteriores para politizar a inteligência para ajudar Trump.

‘Eles teriam me chamado de Barry de Pequim’

Obama aproveitou a admissão de Trump de que mudaria “não muita” coisa no que fez até hoje para combater a pandemia que matou mais de 221 mil norte-americanos e devastou a economia.

“Sério? Não muito? Você não pensa em nada que pudesse ter ajudado algumas pessoas a manter seus entes queridos vivos?”, disse o ex-presidente, que subiu ao palco usando uma máscara com a palavra ‘Vote”.

“Joe não vai estragar o sistema de testes. Ele não vai chamar os cientistas de idiotas. Ele não vai sediar um evento super contagiador na Casa Branca. Joe vai controlar essa pandemia”, afirmou Obama sobre o homem que escolheu para ser seu vice-presidente há 12 anos.

Sua intervenção, uma repreensão extraordinariamente mordaz de um presidente em exercício feita por um ex-presidente, foi um lembrete de como a era Trump destruiu os protocolos da Casa Branca.

De forma mais ampla, enfatizou como a política dos últimos 12 anos é uma disputa não resolvida entre as filosofias e o comportamento do primeiro presidente negro e um sucessor que construiu sua marca com uma teoria conspiratória racista sobre o local de nascimento de seu predecessor.

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Em particular, Obama fez questão de abordar uma reportagem do New York Times que, ao investigar os registros financeiros de Trump, revelou que o presidente tem uma conta bancária na China – enquanto ele próprio critica Biden por ser brando com o gigante comunista.

“Escutem, dá para imaginar como seria se eu tivesse uma conta secreta em um banco chinês quando estava concorrendo à reeleição?”, Obama perguntou.

“Vocês acham que a Fox News poderia ter se preocupado um pouco com isso? Eles teriam me chamado de Barry de Pequim”.

Obama fez uma chuva de ataques a Trump e seu caráter. Ele o menosprezou por “tuitar para a televisão”. Ele advertiu que “este presidente quer crédito total pela economia que herdou e culpa zero pela pandemia que ignorou”.

Obama disse que Biden e sua companheira de chapa, a senadora Kamala Harris, da Califórnia, têm um plano para tirar os Estados Unidos de sua “bagunça” atual e alertou que a retórica de Trump havia encorajado a crueldade e o racismo nas pessoas.

Ele criticou as promessas não cumpridas do presidente de encontrar um substituto para o Obamacare, já que seu governo pedirá a sua erradicação na Suprema Corte uma semana depois da eleição.

“Vai fazer em duas semanas algo que vem nos últimos 10 anos? Onde isso nos leva?"

O ex-presidente retratou a possibilidade de um governo Biden-Harris como uma chance de paz e sossego após quatro anos tumultuados.

“Com Joe e Kamala no comando, você não vai ter que pensar nas coisas malucas que eles dizem todos os dias... Não vai ser tão cansativo. Vocês podem conseguir ter um jantar de Ação de Graças sem uma discussão”.

O presidente dos EUA, Donald Trump
Foto: Al Drago / Reuters

Trump tenta zombar de Obama

Em um cenário de campanha, o discurso de Obama foi ainda mais visceral do que suas acusações mais contidas e dentro da lei a Trump feitas no funeral do deputado John Lewis e na Convenção Nacional Democrática, feita de forma virtual. Foi um lembrete do talento de Obama como orador e sua habilidade em estruturar argumentos políticos abrangentes que lhe valeram dois mandatos na Casa Branca.

Mas o ex-presidente também foi uma figura singular que muitas vezes lutou para transferir sua aura para outros candidatos democratas. Enquanto falava, era impossível não se lembrar de que ele também esteve na Filadélfia há quatro anos.

Na ocasião, Obama fez um discurso pedindo aos norte-americanos que escolhessem Hillary Clinton na véspera da eleição, na qual ele também mirou nas políticas e temperamento de Trump.

No dia seguinte, Trump desafiou as pesquisas e conseguiu uma vitória chocante na Pensilvânia, a caminho de uma conquista nacional que foi, em essência, uma reação contra os oito anos de Obama no cargo.

Obama se referiu indiretamente a esse momento no seu discurso de quarta-feira, quando pediu aos eleitores democratas que apresentassem números mais altos do que em 2016.

“Eu não me importo com as pesquisas. Tivemos várias pesquisas da última vez. Não deu certo. Porque um monte de gente ficou em casa. E ficou preguiçoso e complacente. Não dessa vez. Não nesta eleição. Não desta vez", disse.

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Enquanto Obama criticava o presidente, Trump viajava para a Carolina do Norte, um estado indeciso que ele precisa segurar para manter viável seu caminho para um segundo mandato. Trump sugeriu que o ressurgimento do ex-presidente era uma boa notícia.

“Não teve ninguém que fez mais campanha pela desonesta Hillary Clinton do que Obama, certo? Ele estava em todo lugar”, lembrou Trump em um comício na cidade de Gastonia. “A única pessoa mais infeliz do que a Hillary desonesta naquela noite foi Barack Hussein Obama”.

Kamala Harris também esteve na Carolina do Norte na quarta-feira e fez uma de suas participações mais contundentes na campanha eleitoral até agora. “As pessoas têm me perguntado, os jornalistas perguntam, olha, você acha que ele é racista? Sim. Sim, eu acho”, afirmou Harris.

"E há um padrão aqui... Eu não digo isso levianamente. Nunca se deve dizer isso levianamente. Mas há um padrão aqui”.

Trump precisa de reviravolta

A presença de Trump em mais um estado que o favoreceu em 2016 foi apenas a última tentativa do presidente de defender um território que sua campanha teria gostado de assegurar até agora.

O presidente entra nos últimos 12 dias de campanha (momento em que planeja uma blitz de estados decisivos fazendo comícios que ignoram a ameaça do contágio da Covid-19 em multidões) precisando de uma das reviravoltas mais impressionantes da política moderna.

Duas novas pesquisas em estados pêndulos feitas para a CNN pelo SSRS explicam a magnitude de sua tarefa. Biden lidera por 53% a 43% na Pensilvânia, que tem 20 votos no Colégio Eleitoral e que ele não pode perder. 

Na Flórida, outro estado de Trump em 2016, a disputa está dentro da margem de erro, com Biden subindo 4% entre os prováveis eleitores. As pesquisas foram consistentes com outras recentes nos dois estados.

A campanha de Trump insiste que as pesquisas públicas são imprecisas, uma vez que não modelam adequadamente o tamanho do apoio do presidente e prevê que um grande influxo de novos eleitores de Trump confundirá as pesquisas novamente e o levará à vitória.

Enquanto milhões de norte-americanos votam antecipadamente e pelo correio (uma opção atraente com o avanço da pandemia), já está claro que Trump perdeu um voto republicano: o do candidato de seu partido em 2012, o senador de Utah Mitt Romney.

“Eu não votei no presidente”, contou Romney na quarta-feira, embora tenha se recusado a revelar se votou em Biden ou em outra pessoa.

Manu Raju, da CNN, contribuiu para esta reportagem

(Texto traduzido, leia o original em inglês)