Eleições nos EUA: 7 lições do último debate entre Trump e Biden

Evento provavelmente não fez nada para mudar a trajetória da corrida eleitoral

Eric Bradner e Kevin Liptak, da CNN
23 de outubro de 2020 às 14:16
Donald Trump e Joe Biden durante o último debate antes da eleição presidencial dos EUA
Foto: Reprodução - 22.out.2020 / CNN

O segundo e último confronto entre o presidente Donald Trump e desafiante democrata Joe Biden se pareceu muito mais com um debate normal do que o primeiro embate. Mas provavelmente não fez nada para mudar a trajetória da corrida eleitoral.

Entre uma infinidade de mentiras, Trump atacou Biden por não ter resolvido problemas como racismo institucional durante o tempo dele no Senado e na vice-presidência, classificando-o como um político típico.

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Biden, por sua vez, condenou Trump em termos de política, criticando sua forma de lidar com a pandemia de Covid-19 e sua abordagem sobre cuidados de saúde, economia e imigração. Contudo, às vezes, o ex-vice-presidente fazia menções a mais pessoais. Em um determinado momento, chamou Trump de “um dos presidentes mais racistas que já tivemos na história moderna”.

Veja sete lições aprendidas no último debate presidencial de 2020.

Trump abaixa a temperatura

Trump entrou no debate de quinta-feira (22) com um conselho quase unânime de seus assessores: o de se acalmar. Ninguém sabia se ele aceitaria de fato o palpite. Mas conseguiu, na maior parte do tempo – ajudado parcialmente pela nova regra de silenciamento que ele criticou antes do confronto.

Sim, ele ainda emitiu informações falsas. Sim, ele ainda fez ataques pessoais. Sim, ele minimizou o novo coronavírus (a maior crise que o país enfrenta) sem assumir qualquer responsabilidade. Sim, ele insistiu que centenas de crianças imigrantes separadas dos pais estão sendo bem cuidadas.

Porém, durante a maior parte da noite, ele parecia mais contido e mais decidido a seguir um plano. Ele foi até cortês com a moderadora Kristen Welker, da NBC, dizendo a ela que aprovava a condução do evento.

Após o primeiro debate, Trump sentiu que havia vencido e poucos conselheiros lhe disseram o contrário. Mas, depois de assistir a clipes de si mesmo, Trump reconheceu que poderia diminuir um pouco o tom.

O resultado foi um grande suspiro de alívio entre os republicanos, que temiam outro desempenho abrasivo que afastaria os eleitores. E permitiu um debate mais substantivo, com os eleitores capazes de ouvir respostas definitivas.

Não está claro como isso ajuda Trump. Com frequência, as respostas dele – especialmente sobre saúde e etnia – careceram de conteúdo. E ele, mais uma vez, evitou apresentar um programa concreto para o segundo mandato, algo que falhou em articular durante a maior parte da campanha. No entanto, se a disputa depende, em parte, do comportamento de Trump, a abordagem dele na quinta-feira está mais de acordo com o que a equipe esperava.

Pensamento positivo de Trump

A primeira resposta de Trump – que pretendia demonstrar como ele lideraria o país durante o próximo estágio da pandemia – focou em olhar para trás e pensar em uma vacina. Assim como ocorreu com muitas de suas respostas durante o resto da noite, o argumento central de Trump parecia ser que as coisas poderiam ser muito piores.

Embora com um estilo novo e menos agressivo, a resposta de Trump trouxe o mesmo discurso de rejeição à pandemia que ele vem oferecendo há meses, e que os eleitores rejeitaram em grande parte. “Vai passar e, como disse, estamos dobrando a esquina, estamos virando a página. Está indo embora”, disse ele, sem se preocupar com o aumento de casos em todo o país.

Como faz quase todas as vezes em que é pressionado sobre uma resposta à pandemia, Trump citou a decisão de encerrar as viagens à China, embora milhares de pessoas estivessem isentas e ainda pudessem entrar no país. Ele insistiu que os EUA estão sofrendo ao lado da Europa, que também está passando por novos picos. Mas, ao contrário de Trump, os líderes europeus (incluindo o presidente francês Emmanuel Macron) impuseram novos lockdowns (bloqueio total).

O presidente ainda colocou quase todo seu otimismo em uma vacina, que afirmou que chegaria “dentro de semanas”. Não há indicação de que seja verdade: os testes de vacinas ainda estão em andamento e a FDA, a agência reguladora de alimentos e medicamentos no país, impôs regras que exigem meses de dados para o uso emergencial de uma nova vacina.

Mais tarde, Trump reconheceu que a promessa de uma vacina “dentro de algumas semanas” não era uma “garantia”. Mas ele disse que esperava uma até o final do ano.

As respostas foram um sinal de que Trump não planeja mudar sua abordagem ao novo coronavírus, mesmo com o aumento dos casos. O presidente disse isso no início desta semana. Em um encontro público com eleitores, ele respondeu, quando questionado sobre o que faria de diferente: “Não muito”.

Em vez disso, a principal distinção que Trump procurou fazer foi aversão a qualquer lockdown adicional para prevenir contágio posterior. “Não podemos fechar nossa nação”, afirmou. "Não podemos nos trancar em um porão como Joe faz."

Biden prevê um “inverno sombrio”

Joe Biden ofereceu uma visão muito mais sombria da pandemia do novo coronavírus, prevendo que um “inverno sombrio” está chegando. Ele acusou Trump de negar a responsabilidade pela propagação da doença nos EUA e desperdiçar meses que, segundo ele, deveriam ter sido usados para acelerar a produção de equipamentos médicos de proteção e preparar escolas e empresas para a reabertura.

“Qualquer pessoa responsável por tantas mortes não deve permanecer como presidente dos Estados Unidos da América”, disse Biden.

Ele foi muito mais comedido do que Trump ao discutir como lidaria com o vírus. O democrata disse que estabeleceria padrões nacionais para a abertura de escolas e empresas, e buscaria dinheiro de estímulo para prepará-los.

Biden também ofereceu uma visão mais sombria da linha do tempo para uma vacina em potencial (que se alinha mais de perto com o que os especialistas em saúde pública projetaram) ao dizer que “não há perspectiva de que haja uma vacina disponível para a maioria do povo norte-americano antes de meados do próximo ano”.

No entanto, o democrata proporcionou um momento unificador ao criticar Trump por colocar a culpa nos governadores democratas pela disseminação do vírus em seus estados. “Eu não vejo isso da maneira que ele vê – estados azuis [democratas] e estados vermelhos [republicanos]. Eles são todos os Estados Unidos”, disse Biden. Ele apontou que picos ocorreram nas últimas semanas em estados com tendência republicana. “Eles são todos norte-americanos.”

Trump recorre ao manual de 2016

Com quase 50 milhões de votos já depositados e praticamente sem tempo para reverter a sorte nas pesquisas, Trump recorreu às táticas que o ajudaram a vencer há quatro anos. Uma delas foi classificar Biden como um político típico, assim como fez com Hillary Clinton. Trump repetiu várias vezes que Biden está na política há 47 anos, culpando-o por não resolver problemas como o racismo sistêmico.

“Joe, eu concorri por sua causa. Concorri por causa de Barack Obama. Porque você fez um trabalho ruim. Se eu achasse que você fazia um bom trabalho, nunca teria concorrido [à presidência]”, afirmou Trump. A tática pode ter saído pela culatra, porque deu a Biden uma oportunidade para recontar as conquistas políticas do governo Obama.

Trump foi ainda menos eficaz ao tentar transformar uma série de alegações complicadas e não comprovadas sobre o filho de Biden, Hunter Biden, achando que esse poderia ser um momento de virada na campanha. Fora do ambiente replicador de direita que Trump e seus mais fervorosos apoiadores ocupam, ele não conseguiu trazer esse momento à tona, e se abriu para respostas contundentes de Biden sobre as operações comerciais de Trump na China e a recusa em liberar as declarações de impostos.

“O cara que teve problemas na Ucrânia foi esse cara”, disse Biden, apontando para Trump, “tentando subornar o governo ucraniano para dizer algo negativo sobre mim, o que eles não fariam”. As ações de Trump na Ucrânia levaram a Câmara dos Deputados a abrir um processo de impeachment contra ele.

Com ânsia de voltar no tempo, Trump chegou até a acusar falsamente Biden de se referir aos negros como ”superpredadores” durante uma discussão sobre o projeto de lei do crime no início de 1990. Ele não disse isso – o termo foi usado por Hillary Clinton.

Biden mostra suas marcas de política

Os momentos mais eficazes do ex-vice-presidente no debate podem ter sido a exposição das entranhas das políticas econômicas, de saúde e de imigração de Trump.

Foram cenas que ressaltaram uma realidade sombria para o republicano: embora o Congresso possa atrapalhar, Biden está fazendo sua campanha com uma série de propostas políticas detalhadas – e frequentemente explica o que significam para o norte-americano médio. Trump, porém, falhou repetidamente em detalhar o que ele tentaria conseguir se ganhasse um segundo mandato.

Biden criticou Trump por tentar fazer com que a Suprema Corte desfizesse a Lei de Cuidados Acessíveis (Obamacare) e suas proteções para aqueles com doenças pré-existentes. Trump, que há muito promete um plano para proteger essas pessoas, mas nunca o fez, negou a realidade de que suas proteções seriam revogadas se o esforço do governo na Corte fosse bem-sucedido. Biden detalhou sua proposta para permitir que os norte-americanos adquiram um seguro de saúde público e introduziu uma nova frase para descrevê-lo: “Bidencare”.

O democrata também defendeu vigorosamente o aumento do salário mínimo de US$ 7,25 para US$ 15 a hora, enquanto Trump disse que a questão deveria ser deixada para os estados decidirem.

O mais significativo poderia ter sido a parte do debate que se concentrou na imigração, quando Biden expôs Trump citando uma reportagem desta semana sobre as 545 crianças que foram separados dos pais na fronteira e ainda não se reuniram com as famílias. Trump afirmou que as crianças são “muito bem cuidadas”, embora tenham estado separadas das famílias por meses ou anos.

“Eles foram separados de seus pais, o que nos torna motivo de piada e viola todas as noções de quem somos como nação”, disse Biden.

Uma pergunta sem resposta

Trump e Biden responderam a uma pergunta provocativa e importante sobre etnia: será que eles entendem por que os pais negros conversam com os filhos sobre como lidar quando encontrar policiais?

O instinto de Trump foi insistir que ele fez mais pelos afro-americanos do que qualquer presidente anterior desde Abraham Lincoln – e atacar Biden. “Eu sou a pessoa menos racista nesta sala”, disse Trump.

Biden, por sua vez, tentou lançar Trump como alguém que alimenta as divisões raciais, um dos argumentos motrizes de toda a campanha. “O Abraham Lincoln aqui é um dos presidentes mais racistas que já tivemos na história moderna”, falou o democrata sarcasticamente, fazendo referência à afirmação anterior de Trump. “Esse cara comunica mensagens secretas para seus grupos de forma tão alta quanto uma buzina."

As respostas dos candidatos foram projetadas menos para convencer os eleitores negros de que qualquer um dos homens seria melhor para eles, e mais para convencer os eleitores brancos de que Trump é ou não racista. Na verdade, o tema foi um dos fatores que derrubou os números das pesquisas de Trump entre as mulheres que moram nos subúrbios, desanimadas pelo comportamento cada vez divisível do presidente.

Não está claro se só o fato de Trump afirmar que não é racista reverte essa impressão (dadas as amplas evidências de que ele alimenta conspirações racistas ou fomenta divisões raciais). Para um candidato que acredita que pode tirar apoio entre os negros dos democratas, deixar de oferecer qualquer tipo de resposta política ou baseada em ação pareceu uma oportunidade perdida.

Biden e a 'transição da indústria do petróleo'

O momento que os republicanos mais gostaram no debate foi o comentário de Biden de que ele "faria a transição da indústria do petróleo, sim". “Ah, essa é uma grande declaração", respondeu Trump. “Essa é uma grande declaração”, retrucou Biden. “Porque a indústria do petróleo polui significativamente.”

Ele prosseguiu dizendo que queria uma transição gradual para formas mais limpas de energia, mas Trump procurou transformar imediatamente o momento em uma vantagem política em estados com forte concentração de extração e produção de petróleo e derivados.

“Você vai se lembrar disso, Texas? Você vai se lembrar disso, Pensilvânia, Oklahoma, Ohio?”, afirmou Trump.

Não está claro se o momento é o tipo de virada de jogo política que Trump espera que seja. Pode, no entanto, ser problemático para democratas que disputam áreas republicanas como o Texas. Após o debate, a campanha de Biden procurou esclarecer a troca, dizendo que o ex-vice-presidente estava falando especificamente sobre a eliminação dos subsídios ao petróleo.

(Texto traduzido. Leia o original em inglês.)