Trump e Biden fazem debate final mais organizado, mas não abrem mão de ataques

Com microfones silenciados, debate teve menos interrupções, mas candidatos aproveitaram oportunidade para se provocar

Diego Freire, da CNN, em São Paulo
22 de outubro de 2020 às 23:38 | Atualizado 23 de outubro de 2020 às 03:41
O republicano Donald Trump e o democrata Joe Biden
Foto: Reprodução/CNN (22.out.2020)

Pouco mais de três semanas após o caótico primeiro debate, repleto de hostilidades e interrupções, o presidente republicano Donald Trump e o democrata Joe Biden, senador e ex-vice-presidente do governo Obama, voltaram a estar frente à frente nesta quinta-feira (22), no segundo e último debate das eleições presidenciais dos Estados Unidos.  

Assista à íntegra do debate final entre Trump e Biden

 

Com o cancelamento do encontro previsto entre os dois na última semana, após Trump contrair o novo coronavírus, o debate desta quinta se tornou ainda mais decisivo. Para melhor organização, a comissão responsável resolveu que silenciaria os microfones dos dois candidatos em certos momentos, evitando interrupções. 

O debate foi mediado pela jornalista Kristen Walker, da NBC, em Nashville, no Tennessee. Em relação aos apresentadores, Trump foi muito menos contestador do que no debate de setembro, quando insinuou que o moderador Chris Wallace, da Fox News, favorecia seu adversário.

 

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A maior organização, porém, não significou um clima amistoso. Ataques e provocações marcaram o encontro. Trump voltou a acusar o filho de Biden de corrupção quando trabalhou na Ucrânia e repetidamente perguntava ao democrata ao ouvir suas propostas: "por que não fez isso há quatro anos?".

Biden também não ficou na defensiva e usou da ironia. No bloco sobre questão racial, se referiu a Trump de forma jocosa: "o Abraham Lincoln aqui é o mais racista de todos os presidentes, joga gasolina em todas as questões raciais".

No final do debate, Biden, ao defender investimento em fontes de energia limpa, foi confrontado por Trump com a questão: "você quer acabar com a indústria do petróleo?". Ao não negar a afirmação do republicano, Biden permitiu que Trump repetisse diversas vezes: "ele está dizendo que vai acabar com a indústria do petróleo".

 

Trump falou mais

Em levantamento exclusivo, a CNN americana mostra que Trump, mesmo mais contido, falou mais que Biden durante o debate desta quinta - uma diferença ainda maior do que no primeiro encontro entre os dois. Nesta quinta, Trump falou por exatos 41min16seg, enquanto o democrata teve a palavra por 37min53seg.

No encontro anterior a diferença foi menor. Na ocasião, Trump falou por 39min06seg, enquanto Joe Biden se manifestou por 37min56seg.

Veja, abaixo, os principais temas debatidos nesta quinta.

 

Enfrentando a Covid-19

No primeiro bloco, "enfrentando a Covid-19", Trump voltou a responsabilizar a China pela pandemia e alegou que Biden foi contrário à sua decisão de impedir chegadas de voos estrangeiros aos Estados Unidos, supostamente denunciando um "preconceito contra a China". Biden rebateu: "eu falava sobre xenofobia (contra chineses) em um contexto diferente..."

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Trump novamente afirmou que uma vacina contra o novo coronavírus estará disponível à população em algumas semanas e que já há um estudo logístico para distribuir amplamente o imunizante aos americanos. Ao ser lembrado de que especialistas em saúde do próprio governo consideram que uma vacina estará disponível apenas em 2021, Trump disse que "seu calendário é mais preciso".

Em outro momento do bloco, Biden mencionou as mais de 220 mil mortes por Covid-19, que fazem dos Estados Unidos o país recordista em óbitos em números absolutos. "Trump disse que as pessoas estão aprendendo a conviver com isso (com o novo coronavírus), mas as pessoas estão aprendendo a morrer com isso".

 

 

Segurança nacional

Em bloco sobre a segurança nacional, foi lembrada a denúncia da Inteligência americana divulgada um dia antes, de que Rússia e Irã tentaram interferir nas eleições americanas, obtendo dados sobre eleitores e enviando e-mails falsos. 

"Qualquer pais que interferir nas eleições americanas vai pagar o preço. A Rússia, China e Irã estão interferindo em nossa soberania. O presidente (Trump) não disse nada para o presidente Putin", afirmou Biden.

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Trump, por sua vez, trazendo à tona novamente um tema que também levantou no primeiro debate, pediu de Biden esclarecimentos sobre as denúncias de corrupção envolvendo seu filho, Hunter Bidenm quando autou no conselho de uma empresa de energia ucraniana. Segundo Trump, Joe Biden, vice-presidente do país na época, teria ajudado a acobertar supostos crimes.

Biden voltou a negar o caso e lembrou da abertura de impeachment contra Trump, acusado de usar sua influência como presidente para que o governo ucraniano lhe ajudasse a investigar Hunter Biden.

"Trump tentou subornar o governo da Ucrania para tentar encontrar algo contra mim porque não há nada contra mim, meu filho não ganhou dinheiro com a China, a única pessoa que fez dinheiro na China foi ele", declarou.

A China foi citada no bloco. Diante das fortes críticas de Trump ao país, Biden foi questionado se tomaria alguma medida contra Pequim por conta da pandemia do novo coronavírus. "Faria a China seguir as regras internacionais", disse Biden.

A relação com a Coreia do Norte também fez os candidatos divergirem. "A Coreia do Norte não está em guerra (com os EUA) e temos um bom relacionamento", rebateu Biden. "Nós tínhamos também um bom relacionamento com Hitler antes de tentar conquistar a Europa", rebateu Biden.

 

 

Famílias americanas

O Obamacare - lei federal aprovada no governo Obama para ampliar o acesso público a planos de saúde - foi a primeira questão debatida no bloco. Trump considerou que o programa não funciona devidamente e que sua administração pretende encerrar o programa. "Nós fizemos um trabalho incrivel na area da saude e vamos seguir ainda melhor", disse o republicano. 

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Biden defendeu ampliar o plano, inclusive para as vítimas da Covid-19. "Vou aprovar o Obamacare como opção pública. Se você não tiver possibilidade de ter cobertura, você será amparado publicamente. Vamos possibilitar também que as mensalidades sejam reduzidas para criar competição", declarou, após Trump afirmar que planos de saúde já existentes poderiam ser encerrados no mandato de Biden. "Digo que ninguém vai perder seu plano de saúde", declarou o democrata.

Com a defesa dos democratas de uma "medicina socializada", Trump lembrou dos governos de Obama: "tiveram oito anos e não fizeram nada disso".

Questões econômicas também foram tratadas no bloco. "Ele tentou acabar com a previdência há muitos anos. Se ele for eleito o mercado de ações vai afundar", disse Trump. Biden questionou que o mercado de ações americano esteja bem.

Questão racial e imigração

A moderadora Kristen Welker lembrou do grande abismo racial no país, que recentemente viveu diversos protestos relacionados ao assunto, e as dificuldades enfrentadas por negros e hispânicos.

Nesta semana, repercutiu no país a notícia de que advogados ainda não conseguiram fazer contato com pais de 545 crianças que foram separadas das famílias por oficiais das fronteiras dos Estados Unidos entre 2017 e 2018. A imigração foi um tema bastante abordado no bloco, com questionamentos a Trump por suas políticas rígidas a respeito do tema - a mais famosa delas a construção de um muro na fronteira com o México.

"Crianças são trazidas aqui por transportadores ilegais, por cartéis", disse Trump. "Nós temos as fronteiras mais fortes do que nunca. Eles têm que vir de forma legal", acrescentou o republicano, afirmando que "estão se esforçando" para reunir os pais e as crianças que estão separadas.

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"Deixei claro que em cem dias mandarei para o Congresso um caminho para a cidadania para milhares de pessoas. Os dreamers ficarão nesse país", disse. 

"Nós nos livramos de várias coisas terríveis que eles (democratas) criaram. Mas, durante os oito anos que ele foi vice-presidente, ele (Joe Biden) nao fez nada. A não ser criar essas gaiolas para prender as crianças", afirmou.

Sobre as diferenças raciais no país, Biden expôs as grandes diferenças de oportunidades entre negros e brancos. "Dizemos que todos os homem foram criados iguais, mas o ponteiro sempre aponta para a exclusão", declarou, prometendo medidas para tornar o país mais igual

"Joe ficou no governo por 47 anos no poder e não fez nada. Já chamou a comunidade afroamericana de 'superpredadores' em 1994. Ninguém fez o que eu fiz pelos afroamericanos - talvez o Abraham Lincoln, mas nenhum outro fez", declarou Trump.

Quando Biden propunha planos para seu mandato, Trump questionava: "por que não fez isso há quatro anos? Você e Barack Obama fizeram um mandato horrível".

"Sou a pessoa menos racista desta sala", declarou Trump durante o bloco. De forma irônica, Biden retrucou: "o Abraham Lincoln aqui é o mais racista de todos os presidentes, joga gasolina em todas as questões raciais".

 

Mudanças climáticas


Ao defender suas políticas ambientais, Trump voltou a atacar outros governos. "Olhe para a poluição da China, da Rússia... Eu saí do Acordo de Paris porque era injusto, nos custava muito e queriam destruir nossos negócios", declarou. "Fizemos um trabalho incrível em termos ambiental. Temos o ar mais limpo, o rio mais limpo, as menores emissões de carbono e não destruímos nossas indústrias".

Biden afirmou que os quatro anos de governo Trump eliminaram as regulações que a administração Obama colocou em vigor para limitar as emissões de gás carbônico: "A mudança climática e o aquecimento global são uma ameaça à existência da humanidade", disse. 

"As empresas que estão crescendo mais rápido nos EUA são a de energia solar e eólica. Ele [Trump] acha que as empresas desse tipo causam câncer. Nós podemos crescer e ser mais limpos", provocou Biden na sequência. 

No momento mais polêmico do bloco, após Biden defender a adoção de fontes de energias sustentáveis e classificar o setor petrolífero como poluente, Trump questionou: "você então vai acabar com a indústria de petróleo?"

Biden disse que o faria "gradativamente" e Trump repetiu: "ele está dizendo que vai acabar com a indústria do petróleo".

 

Mensagem aos eleitores


Para fechar o debate, a moderadora propôs aos dois candidatos: "imagine que é o seu dia da posse. O que diria aos americanos que não votaram em você?"

Trump foi o primeiro a responder. "Tínhamos um país com sucesso total antes de termos essa praga chinesa. Vamos reconstruí-lo com números incríveis, milhões e milhões de empregos retornando. Antes dessa praga chegar eu recebia telefonemas de pessoas que não falariam comigo normalmente e queriam se reunir comigo" afirmou.

"Tivemos os menores números de desempregos entre negros, hispânicos, mulheres e asiáticos na história desse país. Pessoas com ou sem diplomas, todos com os melhores números. O sucesso nos une, estamos na estrada para o sucesso. Enquanto eu quero reduzir os impostos, ele quer aumentar os impostos de todos. Se ele entrar, vocês terão uma depressão como nunca antes vista e seus planos de previdência vão afundar. Será um dia muito triste", completou Trump.

Na sequência, Biden teve a palavra. "Eu diria que eu sou um americano que representa a todos, quer você tenha votado em mim ou não. Eu garantirei que vocês sejam representados. Nós vamos escolher a ciência e a esperança. Há oportunidades enormes de tornarmos as coisas melhores", disse o democrata.

"Vamos ao mesmo tempo garantir que essa economia seja guiada e motivada pela energia limpa, criando milhões de novos empregos. É isso que vamos fazer. E vou dizer, como disse no início: o que está na urna, neste ano, é o caráter deste país. A decência, a honra e o respeito. Tratar a todos com dignidade e garantir que todos tenham oportunidades iguais. Quero garantir que todos vocês tenham o que não tivemos nos últimos anos", declarou Biden no fim do debate.