Índia está mudando aos poucos pensamento em relação ao casamento arranjado

Os casamentos arranjados ainda são a norma na Índia, mas há uma tendência crescente de algumas mulheres escolherem seus próprios parceiros ou não casarem

Manveena Suri, da CNN
19 de novembro de 2020 às 13:22
A Índia é um país de tradições rígidas, mas isso está se modernizando
Foto: iStock

Ananya tinha 15 anos quando viu sua irmã mais velha se casar com um homem que ela mal conhecia.

Sua irmã tinha 19 anos na época e só vira o marido uma vez, alguns meses antes. Eles conversaram várias vezes ao telefone.

“O casamento da minha irmã mais velha foi tradicional. Não acho que ela estava preparada e ela não parecia ser aquela noiva feliz... Acho que 19 é muito jovem para se casar”, confessou Ananya, que pediu para usar um pseudônimo para discutir assuntos familiares pessoais.

Os pais de Ananya escolheram o marido de sua irmã, bem como parceiros para suas outras duas irmãs, que se casaram quando tinham 22 e 26 anos. Agora com 30 anos, Ananya sabe que sua família adoraria que ela se casasse, mas ela não tem mais tanta certeza.

De qualquer forma, a mulher diz que terá mais controle sobre seu futuro do que sua irmã.

Os casamentos arranjados ainda são a norma na Índia, mas há uma tendência crescente de algumas mulheres escolherem seus próprios parceiros. Ou simplesmente não se casarem. A tecnologia também está substituindo os métodos tradicionais de arranjo. Em vez de depender de conexões familiares, muitos jovens indianos e seus pais estão se voltando para sites de casamento online para encontrar um parceiro.

Embora a metodologia possa estar se modernizando, muitos ainda dizem que as antigas medidas de compatibilidade (como casta e cor de pele) são discriminatórias e precisam ser eliminadas.

Como funciona o casamento arranjado

Os casamentos arranjados datam de séculos atrás. Eram uma forma das famílias das castas superiores manterem seu status e consolidarem riquezas. Com o tempo, o sistema se espalhou para outras comunidades por motivos semelhantes.

Tradicionalmente, as famílias redigiam um currículo das estatísticas vitais de seus filhos (peso, altura, cor e casta) e compartilhavam a lista com os pais de possíveis parceiros. As listas também podem ser compartilhadas com amigos da família, um sacerdote local ou até mesmo um casamenteiro pago, do tipo apresentado na série “Casamento à Indiana”, sucesso na Netflix, embora isso seja cada vez mais raro.

No passado, essas informações podem ter sido confinadas a esse círculo interno, mas agora também estão frequentemente na internet para o mundo ver.

Os sites matrimoniais funcionam de maneira semelhante aos sites de namoro, incentivando os usuários a postar suas informações pessoais para encontrar um par. Entretanto, embora as biografias de sites de namoro sejam normalmente divertidas e espirituosas, as informações compartilhadas em um site de casamento são muito mais pessoais. Ocupação, renda, religião e casta são listadas. Para as mulheres, a postagem também pode especificar seu peso, tipo de corpo e cor de pele.

Muitas famílias veem esses dados como cruciais para uma combinação bem-sucedida, mas os indianos mais liberais veem alguns critérios – particularmente casta e compleição – como discriminatórios.

“A gente é criado para se sentir como gado. É desumanizado a esse ponto e acho que as famílias nem percebem isso”, disse Mira, uma advogada de 26 anos que mora em Nova Delhi. Ela pediu para usar um pseudônimo para evitar ofender sua família.

“Quando você é reduzido a um conjunto de qualidades em um pedaço de papel, e tenho certeza de que isso também se aplica aos homens, é profundamente objetivante e é isso que me afasta de tudo”, continuou.

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Encontrar um parceiro

Se uma união é feita (seja por meio de um site de casamento ou na indicação pessoal), o par em potencial geralmente tem um punhado de “encontros”, geralmente acompanhados por membros da família. Espera-se que o casal tome a decisão de se casar.

Embora existam semelhanças com o namoro no Ocidente, esses casamentos não são considerados “casamentos por amor”, a união de duas pessoas que se apaixonaram uma pela outra. Os casamentos arranjados modernos dão aos indivíduos envolvidos mais poder do que eles teriam no passado.

Por exemplo, quando Ananya tinha 25 anos, ela foi convidada a compilar seu próprio biodata (a ficha com os dados biográficos). Anos atrás, sua família teria feito isso por ela. “Lembro que foi como fazer um currículo e o enviei para meu pai, que o encaminhou”, contou.

Ananya já estava levando uma vida relativamente moderna. Ela se mudou de sua cidade natal, Jaipur, no estado de Rajasthan, para a capital indiana, Nova Delhi, onde trabalha para uma empresa de gerenciamento de eventos de artes.

Após a troca de informações, uma família de uma cidade próxima a Jaipur abordou seu pai sobre a possibilidade de casamento, mas com a condição de que a nora ficasse em casa ou ingressasse nos negócios da família.

“Achei isso estranho porque eu fui bem clara sobre ser independente. Meu pai disse não a eles - mas só me contou mais tarde”.

Ananya disse que seu sucesso fora da casa da família ajudou a convencer seu pai de que não havia necessidade de ter pressa para o matrimônio.

“Ele viu que eu administro minha própria vida e trabalho. A cada ano, mais ou menos, eles perguntam quando quero tomar a decisão de me casar. É de uma forma preocupada, mas casual – algo do tipo ‘não que você precise fazer isso’”.

Casamentos são uma base da cultura indiana
Foto: Pixabay

Fazendo a escolha certa

No passado, os pais tomavam a maior parte das decisões sobre o casamento dos filhos. Os casais eram informados sobre com quem deveriam se unir e o evento era celebrado em um casamento tipicamente indiano de grande porte.

“Hoje, as partes que buscam se casar têm uma opinião mais forte sobre dizer sim ou não a uma ou mais propostas”, explicou Amitrajeet A. Batabyal, professor de Economia no Rochester Institute of Technology.

Sanjay Chugh, psiquiatra e terapeuta de Nova Delhi que trabalha com casais há 35 anos, contou que os jovens indianos estão aproveitando o sistema de casamento arranjado para conhecer pessoas e gastando mais tempo para se conhecerem antes de trocarem alianças.

“Casamentos arranjados são um sistema ativo aqui e eles não há pressa de acabar com ele”, opinou o psiquiatra. “A diferença agora é que ele serve como uma introdução para um futuro noivo ou noiva e as pessoas se encontram cinco ou seis vezes. Normalmente, quando você se encontrou tantas vezes, é provável que vá em frente”.

Pallavi (nome fictício) disse que essa abordagem moderna para um casamento arranjado funcionou bem para ela. A moça passou seis meses conhecendo o marido, que foi apresentado por uma amiga da família.

“Nós nos encontramos, nossas famílias se encontraram. Tivemos uma conexão e decidimos ir em frente. No mesmo dia, os dois lados disseram ‘sim’”, contou Pallavi.

Ela não estava sob pressão para se casar e poderia ter rompido o noivado a qualquer momento.

“Meus pais estavam muito sossegados. Dependia de mim me casar ou não".

A evolução dos casamentos arranjados

Em um país tão vasto e diverso como a Índia, as experiências de encontrar o amor vão do romance tradicional ao moderno. Mas estão surgindo tendências gerais que sugerem que os tempos estão mudando.

Nos últimos 30 anos, a idade média para uma mulher se casar aumentou de 19,3 anos em 1990 para 22,3 anos em 2018. Há diferenças com base em onde as mulheres vivem. Por exemplo, nas regiões rurais, a idade média de casamento era de 21,8 anos em 2019, mas 23,4 anos nas áreas urbanas, de acordo com uma pesquisa do governo.

A participação das mulheres na força de trabalho também caiu aproximadamente no mesmo período. Entre 1993-94, a taxa de participação na força de trabalho das mulheres urbanas de 15 a 19 anos era de 142 por 1.000, de acordo com dados governamentais. Menos de uma década depois, esse número caiu para 89 por 1.000.

Existem diferentes teorias para essa mudança, incluindo um mercado de trabalho mais fraco. Mas um dos motivos é que mais mulheres indianas estão estudando por mais tempo. Alguns vão para a universidade e se formam, o que lhes dá mais opções além do casamento.

“Tem havido uma progressão natural e as finanças e o dinheiro dão mais confiança. As mulheres têm mais controle sobre suas próprias vidas”, pontuou Nisha Khanna, psicóloga e conselheira matrimonial de Nova Delhi.

“A estrutura patriarcal da sociedade está mudando lentamente. As mulheres estão se tornando mais assertivas, seja em termos de necessidades de intimidade física ou questões financeiras. Estão se tornando mais francas, estão se tornando mais iguais”, disse ela.

Adornos usados em cerimônias de casamento segundo a tradição hindu
Foto: Pixabay

Talvez nunca

Mira, a jovem advogada de Nova Delhi, não tem certeza se vai se casar.

Ela diz que sua perspectiva sobre o casamento (e a vida de forma mais ampla) mudou quando saiu de casa e foi para a cidade, onde conheceu pessoas de diferentes origens e castas.

A família de Mira é de Amritsar, uma pequena cidade no estado de Punjab, no norte do país. Eles defendem a visão tradicional de que as moças devem se estabelecer e constituir família.

“Fui criada para ser uma esposa, não há outra saída. Mesmo as pequenas coisas como cuidar da casa ou garantir que tudo esteja em ordem, estão arraigadas em mim”, disse Mira.

A moça conta que foi criada para querer se casar, mas agora está “desaprendendo’ essa expectativa.

"Todo ano, eu empurro para frente, e é apenas rebelião. Como tenho 26 anos, estou nessa idade perigosa em que minha família realmente quer que eu me case nos próximos dois anos porque, é claro, você não pode ter 30 e ser solteira. É como se o mundo fosse acabar ou algo assim”.

“Quem sabe? Talvez aos 30, eu me sinta só e meus amigos terão parceiros, casas e filhos, talvez isso me entristeça, mas espero que o processo de desaprender dê frutos”.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).