Congresso da Guatemala é incendiado por manifestantes


Sofia Menchu, da Reuters
22 de novembro de 2020 às 09:38 | Atualizado 22 de novembro de 2020 às 10:46

 

Milhares de pessoas realizaram no sábado (21) o maior protesto já registrado contra o presidente da Guatemala, Alejandro Giammattei. O ato culminou com manifestantes ateando fogo ao prédio do Congresso.

A manifestação foi motivada pelos cortes previstos no plano orçamentário para 2021, quando o país ainda tenta se recuperar depois dos danos causados por furacões recentes.

Agitando bandeiras guatemaltecas e cartazes pedindo a renúncia do presidente, os manifestantes gritavam para que Giammattei vetasse o orçamento, aprovado por legisladores na última quarta-feira, enquanto o furacão Iota ainda inundava partes do país. A Guatemala ainda se recupera da destruição causada pelo furacão anterior, o Eta.

O orçamento aprovado no congresso foi de 99,7 bilhões de queztais (US$ 12,9) e, ao mesmo tempo em que aumenta a dívida pública do país, também corta fundos para saúde, educação, direitos humanos e sistema judiciário. A proposta gerou indignação em vários setores da sociedade guatemalteca, desde estudantes a líderes empresariais, depois de um ano também marcado pela crise econômica gerada pela pandemia do novo coronavírus.

"O Congresso alocou mais dinheiro para as próprias refeições, mas não destinou dinheiro à população pobre", disse o estudante Diego Herrera, de 25 anos.

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Manifestantes quebraram janelas do Congresso e atearam fogo à parte interior do
Manifestantes quebraram janelas do Congresso e atearam fogo à parte interior do prédio, na Guatemala
Foto: Reprodução/Twitter


 

Enquanto a maioria dos manifestantes se reunia pacificamente na praça principal da cidade, outros quebraram as janelas do Congresso e atearam fogo do lado de dentro, produzindo colunas de chamas laranja, imagens que foram parar nas redes sociais e registradas pela Reuters. Uma nuvem de fumaça cinza podia ser vista a quarteirões de distância.

A porta-voz do Hospital Geral San Juan de Dios, um dos maiores da capital, disse que estava atendendo 14 pessoas devido a múltiplos ferimentos e intoxicação por gás lacrimogêneo, após confrontos de manifestantes com policiais, que utilizaram o gás para dispersar a multidão.

Segundo o porta-voz de um tribunal, 22 pessoas foram presas.

A diretora para as Américas da Anistia Internacional, Erika Guevara Rosas, pediu investigações sobre as prisões. Vídeos compartilhados em redes sociais mostram que houve detenções violentas. "Várias queixas de maus-tratos, uso excessivo da força, uso indiscriminado de gás lacrimogêneo pela polícia da Guatemala", escreveu Rosas pelo Twitter.

Na sexta-feira, o presidente Giammattei disse, pela televisão, que se reunirá com "quem for necessário" para explicar o orçamento. Enquanto os protestos aumentavam, no sábado, ele se manifestou pelo Twitter, dizendo que havia se reunido com vários setores para analisar modificações na proposta, mas não forneceu detalhes.

O vice-presidente do país, Guillermo Castillo, se opôs ao plano orçamentário e sugeriu que ele próprio e o presidente deveriam renunciar aos cargos.

Giammattei foi empossado em janeiro, pouco antes de a pandemia chegar à Guatemala e impor medidas de bloqueio, prejudicando uma economia já enfraquecida.

Em novembro, dois furacões mataram 60 pessoas na Guatemala - o Eta e o Iota, que atingiram o país com duas semanas de diferença. Muitos ainda estão desaparecidos. Os furacões também destruíram plantações, fonte de sustento para milhares de famílias.