Nem todo mundo está triste por passar o fim de ano longe da família

Há quem use o distanciamento social como desculpa para evitar celebrações de fim de ano ao lado de parentes

Terry Ward, da CNN
09 de dezembro de 2020 às 16:00
Natal durante a pandemia: panetones e máscaras
Foto: Couleur/Pixabay

Em tempos pré-pandêmicos, a norte-americana Sarah Sheehan sempre foi para o estado da Carolina do Norte para uma agitada programação de fim de ano que incluía pular entre as casas de vários parentes diferentes, ir a uma cerimônia religiosa à meia-noite na véspera de Natal e cantar no coral do condado rural onde sua família vive.

“Na manhã de Natal, meus avós, minha mãe e eu nos reunimos na casa da irmã da minha mãe com meu tio e primos”, disse Sheehan, 27, estrategista de conteúdo e consultora na Virgínia. “Sempre comemos bolachas com molho de linguiça, quiche e bolinhos de canela com café ou chá quente e tomamos café da manhã juntos enquanto abrimos os presentes”.

Este ano, no entanto, com a Covid-19 implacável e uma desculpa útil para abandonar as festividades, segundo a própria Sheehan, ela planeja “enroscar-me com meu cachorro (em casa), assistir a programas sobre zumbis enquanto bebo vinho e fumo um baseado”.

Sheehan espera fazer uma pausa nas agitadas celebrações de festas de sua família, bem como não ter que parecer “religiosa, conservadora ou dócil como devo fingir ser quando estou em casa”, contou. “Por mais que eu cuide da minha família, somos pessoas incrivelmente diferentes. Eu amo estar com eles em pequenas doses, mas uma semana ou mais durante o Natal é demais”.

A estação a se evitar

Se você está ansioso para usar a pandemia como um um passe para se livrar das festas com a família este ano, você não é o único.

“As festas podem ser momentos de alegria, mas também podem ser de obrigações, por isso nem sempre são tão agradáveis”, disse a psicóloga Wendy Rice, do Rice Psychology Group, uma clínica em Tampa, Flórida. “Não é fácil escapar das coisas porque é isso que a sua família faz. Pode ser difícil quebrar a tradição”.

Entretanto, com as autoridades dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDCs) e outros especialistas em saúde dos EUA alertando os norte-americanos para considerarem os riscos de viajar nas férias e desaconselhando a reunião em grandes grupos, quebrar a tradição pode ser mais fácil do que nunca em 2020.

Além disso, para muita gente, mudar o roteiro pode servir para evitar o estresse que muitas vezes acompanha as reuniões familiares.

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Evitar a tensão é geralmente visto como uma má estratégia de enfrentamento, segundo Shevaun Neupert, professora associada de psicologia na Universidade Estadual da Carolina do Norte em Raleigh, e especialista em como as pessoas se preparam e respondem ao estresse. “Mas as pessoas agora estão percebendo o valor de evitar certas situações”, contou. “Certamente há uma hora e um lugar em que evitar é a melhor estratégia”.

As famílias “podem ser uma fonte de grande apoio”, disse a professora Neupert, mas também podem ser tóxicas. “E, às vezes essas duas narrativas podem ser usadas para descrever a mesma família”.

Vale a pena questionar se você deve enfrentar os problemas das famílias de frente, disse ela. "Evitar pode ser algo realmente adaptativo”, opinou Neupert. “Estamos tentando ficar fisicamente distantes, mas socialmente conectados de maneiras que são úteis para nós agora”.

Carrie Gray, que tem uma bebê de 6 meses e mora em Nova York, tem sido cautelosa ao expor a filha durante a pandemia. A Covid-19 é um bom motivo para evitar os habituais encontros de fim de ano que ela e o marido frequentam com até 40 pessoas em Nova Jersey e Connecticut.

Família reunida em torno de árvore de Natal
Foto: Imagem de Ragy Sabry por Pixabay

“Eu não quero um monte de gente aglomerando em volta da minha bebê, tocando-a, apertando suas bochechas ou fazendo caretas para ela”, explicou Gray, 41 anos. “Como mãe pela primeira vez, preciso de uma energia extra para socialização que simplesmente não tenho agora. Toda a minha energia é reservada para minha bebê – e a do meu marido também”.

Uma nova mãe pode se sentir ainda mais vulnerável durante a pandemia, disse Neupert, e evitar situações pode ser uma ferramenta útil para lidar com a situação. “Pessoas que são capazes de lidar com o estresse em suas vidas construíram uma caixa de ferramentas de ferramentas de enfrentamento que trazem à tona nessas horas. A pandemia é um novo tipo de estresse com o qual não tínhamos lidado antes”, continuou a professora de psicologia.

Se a pandemia está dando às pessoas uma chance de não comparecerem ao que pode ser uma reunião familiar muito desagradável, “esse evitar é algo adaptativo”.

Diferentes pontos de vista e mais estresse

Para algumas pessoas, a pandemia destacou como os membros da família interpretam de forma diferente os perigos da Covid-19, aumentando o constrangimento das discussões sobre a viabilidade de fazer a reunião com muitas pessoas no final do ano.

Alex Smith (nome fictício), um profissional de turismo na casa dos 30 anos que vive com a família em uma grande cidade no sul dos Estados Unidos, disse que normalmente gosta de se reunir com seus parentes durante o ano e nas férias. (Smith não queria que seu nome verdadeiro fosse publicado porque não queria ofender os membros da família e também tem um emprego de destaque, e prefere permanecer neutro em público.)

Segundo ele, sua decisão de não se reunir com o que poderia facilmente ser mais de 40 parentes e agregados para as celebrações do feriado anual deste ano é puramente relacionada à Covid-19.

Muitos de seus parentes acham que o vírus é uma farsa, são contra o uso de máscaras ou “acham que não é tão ruim porque não está atingindo ninguém próximo”, contou. Mas, tendo visto em primeira mão como o vírus está dizimando a indústria do turismo, ele disse que é difícil não acreditar que seja real.

Árvore de Natal do Rockefeller Center, em Nova York, em 2018
Foto: Eduardo Munoz - 28.nov.2018 / Reuters 

“É estranho ter que se tornar pais de meus pais. Minha mãe estava perguntando se devíamos cancelar tudo. Antes que ela pudesse responder sua própria pergunta eu estava balançando a cabeça e dizendo sim.”

"Até a maneira como as pessoas lidam com a pandemia é uma fonte de discórdia nas famílias", disse a professora Neupert. “Alguns só ouvem cientistas. Outros podem dizer que são notícias falsas”.

A psicóloga sugeriu recorrer a conexões positivas com outras pessoas ao seu redor como uma forma de lidar com a situação, que é o que Smith disse que planeja fazer nas férias de dezembro.

"Não é uma tristeza imensa pular as reuniões de família este ano”, confessou. “Seremos apenas nós, uma família de quatro pessoas com dois filhos pequenos, com nossos vizinhos com filhos da mesma idade e da mesma escola”

“Ainda teremos todas as nossas tradições normais e coisas de família. A gente não vai é sentar no colo do Papai Noel”.

Uma chance de começar novas tradições

Enquanto para muitas pessoas evitar as festas com a família será uma estratégia suficiente para lidar com o que promete ser um final de ano diferente, outros podem sentir a necessidade de encontrar formas seguras de adicionar conexões sociais.

“Embora alguns aspectos da reunião possam ser realmente difíceis, existem partes que você vai sentir falta? Pergunte a si mesmo o que pode fazer para recriá-las, se for o caso”, disse Neupert.

A psicóloga disse que, para celebrar o final de ano com sua família da maneira como você se sente à vontade, é bom pensar primeiro no que você gosta nessa época (se houver alguma coisa).

Se você optar por não se reunir com parentes, mas ainda quiser alguma conexão com a tradição, considere recriar uma decoração de Natal que seja importante para sua família.
Foto: Shutterstock

Talvez valha a pena pedir a um parente uma receita favorita ou recriar algum tipo de decoração de Natal que seja importante para sua família. “A pandemia torna isso desafiador, então temos que ser criativos”.

Para canadenses e norte-americanos, a maneira como viveram o Dia de Ação de Graças pode ter sido uma boa simulação do que esperar para os feriados de Natal, Kwanza (celebração afro-americana) e Hanukkah (celebração judaica). Reflita sobre suas experiências anteriores para entender como deseja passar o final de ano, sugeriu Rice.

“Há uma tendência de reunir muitas pessoas quando voltamos para nossa família de origem. Meia hora no Zoom pode ser uma boa maneira de estar conectado e não enfiado um final de semana inteiro com tudo mundo”.

Quer você comece uma tradição inteiramente nova, recrie algo que possa estar perdendo ou opte por não comemorar, este final de ano pode ser exatamente como você quer.

“Não pretendo recriar nenhuma tradição este ano”, contou Sheehan. “Isso pode mudar conforme o Natal se aproxima, mas, por enquanto, pretendo apenas viver assim”.

“Há muita satisfação em passar a época do Natal da maneira que for melhor para mim, em vez de me pressionar a envolver outras pessoas apenas para dizer que eu fiz tudo como esperado”.

Terry Ward é redator freelance baseado em Tampa, Flórida.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).