Lockdown e fechamento de fronteiras dificultam fuga de criminosos procurados

Fugitivos estão enfrentando novos desafios para se esconderem durante a pandemia global, com seus movimentos restringidos em muitos países

Emma Reynolds, da CNN
20 de dezembro de 2020 às 11:04
Polícia brasileira prende o fugitivo Gonzalo Sanchez, como parte de uma operação de apoio à Interpol
Foto: Interpol/Divulgação

Quando as restrições causadas pela Covid-19 ficaram mais duras na China no início deste ano, um fugitivo que era procurado há quatro anos, depois de supostamente ter roubado um cadáver, ficou sem lugar para se esconder.

Acredita-se que Qiu Binhua, da cidade de Shenmu, província de Shaanxi, tenha vendido um corpo para um ritual, lucrando 5.000 yuans (R$ 3.900), de acordo com a polícia.

Leia também:
Especialista vê relação entre grandes assaltos a banco e pandemia
Pandemia descapitalizou grandes facções, diz ex-ministro de Segurança Pública

Qiu fugiu para Hulestai Sumu, na parte oeste da Mongólia Interior, local onde as autoridades começaram a tentar conter o coronavírus escaneando códigos QR de transeuntes e estabelecendo postos de controle.

“Qiu, que estava em pânico há muito tempo, sentiu-se sob pressão e finalmente se entregou à polícia de Hulestai em 11 de fevereiro”, relatou a polícia em um comunicado após sua prisão.

Sem uma carteira de identidade, ele não tinha como escapar, disseram.

Menos movimento, mais vigilância

Fugitivos estão enfrentando novos desafios para se esconderem durante a pandemia global, com seus movimentos restringidos em muitos países. Alguns foram forçados a se entregar, enquanto outros foram apanhados durante alguma viagem.

Mesmo com a polícia aumentando seus esforços para localizar criminosos procurados, os mais astutos tentam capitalizar as mudanças na vida diária para continuar o jogo de gato e rato.

Durante o lockdown no primeiro semestre no Reino Unido, a Agência Nacional do Crime (NCA) do país prendeu quase 300 fugitivos, número “que é substancialmente maior do que normalmente veríamos”, disse Arthur Whitehead, gerente de operações do Bureau Internacional do Crime da NCA, à CNN.

O trabalho fez parte dos “esforços combinados” da Operação Suricate, lançado durante o lockdown para localizar fugitivos e ajudar a fazer prisões.

As prisões incluíram a de Arshid Ali Khan, fugitivo há seis anos, procurado na Holanda por supostamente abusar sexualmente de uma criança. Os investigadores da NCA fizeram varreduras financeiras que rastrearam Khan até a cidade inglesa de Leicester, onde a polícia local o prendeu em abril.

“O lockdown foi uma oportunidade única para nós porque limitou as viagens de membros do crime organizado que estão sempre em fuga e nos deu a chance de explorar as técnicas de inteligência, assim pudemos agir rapidamente”, disse Whitehead.

“Por sua natureza, o lockdown fez com que as pessoas mudassem seu comportamento, passando a depender mais de tecnologia e mais do local onde estavam”.

O britânico contou que uma prisão ocorreu devido ao fato de o alvo não estar usando máscara, o que o fez se destacar naquele local específico.

“A gente não se concentrou em uma tática específica, e sim aproveitou um novo olhar para uma ampla gama de casos, tratando-os de forma individual, para poder entender qual era o comportamento daquela pessoa, para onde ela pode ir”, acrescentou.

No final de maio, David John Walley, um suposto traficante de drogas procurado desde 2013, foi preso pela Polícia da Grande Manchester ao celebrar seu 45º aniversário em uma propriedade da região. Mark Fitzgibbon, um traficante de drogas de Merseyside e um dos mais procurados da Grã-Bretanha, foi preso no aeroporto de Liverpool em julho após voar vindo de Portugal após 16 anos fugindo.

Identificando fraquezas

Autoridades brasileiras que rastreavam o criminoso argentino Gonzalo Sanchez passaram três meses monitorando seu círculo mais íntimo na região de Angra do Reis, no estado do Rio de Janeiro, no início deste ano, de acordo com um comunicado da Interpol.

A pandemia diminuiu o número de pessoas nas ruas, tornando mais difícil para a polícia esconder sua presença, e as restrições às reuniões significavam que Sanchez não compareceria a eventos religiosos, como fazia anteriormente.

Mas, graças ao maior monitoramento, a polícia acabou encontrando a oportunidade de que precisava na forma de uma reunião familiar. Em maio, a força-tarefa recebeu a notícia que um grupo de pessoas próximas de Sanchez estava viajando pela costa até o interior de Taquari, uma área exposta com poucas casas ao lado de uma grande reserva natural montanhosa.

A polícia se aproximou com cautela e falou com os moradores, que os encaminharam para uma casa onde Sanchez foi encontrado com familiares e amigos. E preso.

Leia também:
Waack: será que estamos vivendo o cangaço do século 21?
RJ tem madrugada de explosão de caixas eletrônicos e carros incendiados

Stefano Saioni, que dirige o projeto de apoio EL PAcCTO (Programa Europa-América Latina de Assistência contra o Crime Transnacional Organizado) da Interpol, disse à CNN que o caso funcionou graças à “grande cooperação” entre Brasil e Argentina.

Ele disse que o aumento do compartilhamento de informações e do uso de tecnologia, como o sistema de monitoramento de gerenciamento de fronteiras, permitiu que sua equipe prendesse dez fugitivos e localizasse quatro deles desde o início da pandemia. A equipe prendeu 60 fugitivos desde outubro de 2017.

“É possível, com base em certas análises de padrões, tentar antecipar o que alguém pode fazer, usando o que conhecemos das vulnerabilidades [dos fugitivos]”, disse Julie Clegg, investigadora privada e fundadora da Human-i Intelligence Services no Canadá, à CNN.

“Com qualquer fugitivo, você tem que descobrir, inicialmente, quais são suas fraquezas emocionais, as vulnerabilidades. Geralmente são notícias de pais ficando doentes ou de um filho”.

Clegg disse que a pandemia tende a fazer as pessoas “se fecharem um pouco mais” e se apegarem à sua rede, o que pode ajudar na aplicação da lei.

“Fugitivos tendem a se mudar muito e, então, param em um determinado lugar quando se sentem seguros por um tempo, e depois seguem em frente”, contou.

“O risco de serem capturados é muito maior” para fugitivos que chegaram a um novo lugar e são limitados pelos regulamentos da Covid-19.

Clegg disse ter visto “um grande aumento no número de fugitivos que se viraram sozinhos" em partes da Ásia, especialmente aqueles presos em áreas onde a disseminação do coronavírus é particularmente alta ou onde os cuidados médicos são precários.

Também na Europa, os diferentes níveis de bloqueio “forçam as pessoas a se mudarem para uma cidade vizinha, ou para fora de sua zona de conforto, talvez apenas o tempo suficiente para serem detidas”.

Mudança de tática

Enquanto alguns aspectos do lockdown tornam os esconderijos mais complicados, outros dão margem para fugitivos criativos explorarem novas técnicas – como a distração policial, o uso generalizado de máscaras e maior uso de ambientes digitais.

Clegg disse que “fugitivos espertos” evitariam aviões durante o confinamento “a menos que estejam tentando voltar para a família”, e que os navios de carga continuam sendo um método secreto de transporte disponível.

David John Walley, à esquerda, e Arshid Ali Khan foram detidos no Reino Unido durante o lockdown
Foto: UK National Crime Agency/Divulgação

Segundo ela, sua carga de trabalho cresceu e mudou das câmeras de vigilância e softwares de reconhecimento facial para um perfil detalhado de fugitivos, já que muitos recorrem a serviços de comunicação criptografados como Telegram e Signal, além de usar criptomoedas e a dark web.

“Uma pessoa pode usar uma cobertura facial agora e não será detectada por nenhuma câmera de reconhecimento facial; as câmeras terão muita dificuldade em rastreá-la”, contou, observando que "os criminosos são muito ágeis".

“Tivemos que mudar muitas das maneiras como trabalhamos, aprender sobre as novas plataformas”, disse, acrescentando que sua equipe estava focada em explorar profundamente as redes de fugitivos para prever o comportamento usando aprendizado de máquina, ferramentas de inteligência artificial e geolocalização.

A pandemia apresentou desafios únicos para a aplicação da lei global, que está lutando com altas taxas de homicídio, picos em violência doméstica e abuso e novo golpes financeiros. O FBI alertou sobre o necessidade de maior vigilância em torno de hackers, golpistas e crianças que passam mais tempo em casa online.

Peter Bleksley, membro fundador da unidade secreta da Scotland Yard e autor de “Manhunt: Hunting Britain's Most Wanted Murderer” (sem edição no Brasil), disse à CNN que roubos e furtos foram substituídos por crimes cibernéticos, fraudes e golpes, “porque as pessoas estavam em casa, passando muito mais tempo em seus laptops”.

Leia também:
Polícia diz que assalto de Criciúma foi o maior já ocorrido em Santa Catarina

Segundo ele, fugitivos mais astutos são muito mais difíceis de localizar online porque “sabem que cada tecla pressionada deixa um rastro, todo contato deixa uma pista”.

A polícia em todo o mundo agora está lidando com trabalho extra relacionado à Covid-19, com a falta de pessoal e os novos protocolos de segurança, que podem criar lacunas que beneficiam os fugitivos.

Jeremy Douglas, representante regional do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) no Sudeste Asiático e no Pacífico, disse que os criminosos estavam se mudando para os países da região menos policiados durante a pandemia.

“Parece que os grupos do crime organizado, em parte como resultado da Covid-19, aceleraram seu movimento em direção a jurisdições vulneráveis que não têm sido capazes de manter a lei e a ordem tão eficazmente quanto outras nações”, afirmou.

Douglas mencionou a grande variabilidade entre países como Singapura, onde o governo controla rigidamente todo o território, e nações como Laos, Mianmar ou Camboja.

No início de 2020, o UNODC notou que a aplicação da lei na região estava sendo transferida para medidas de segurança pública e bloqueio, e poderia ficar distraída.

“Começamos a observar que isso iria virar um grande problema: a distração é uma oportunidade para os criminosos”, disse Douglas à CNN.

Cruzar certas fronteiras ficou mais fácil para os criminosos durante a pandemia. O UNODC rapidamente percebeu que a polícia de fronteira estava “sobrecarregada” pelo volume de travessias, já que a desaceleração econômica e a perda de empregos fizeram com que os migrantes retornassem aos seus países de origem.

“Os governos de ambos os lados das fronteiras repentinamente ficaram preocupados por não poderem fazer exames de saúde, o que gerou preocupações sobre os controles habituais de contrabando e tráfico”, detalhou. Muitas fronteiras na região do Mekong (que abrange Mianmar, partes do sul da China, Vietnã, Laos, Tailândia e Camboja) permanecem “porosas”, acrescentou Douglas.

O representante do UNODC disse que, embora alguns fugitivos na área possam ter sido presos por causa de fechamentos de fronteira ou falta de voos, “grandes grupos do crime organizado não foram afetados da mesma forma, pois têm influência”.

“Os criminosos e fugitivos de escalão inferior não conseguiram capitalizar com a Covid-19, mas os chefões, sim. Eles conseguiram tirar vantagem disso”.

John “Buck” Smith, um ex-policial federal dos EUA que virou consultor e treinador para a aplicação da lei, disse à CNN que, embora a pandemia tenha forçado os investigadores a estabelecer prioridades, eles estavam se adaptando.

“Os principais recursos estão sendo destinados a criminosos mais violentos”, contou. “Os crimes de colarinho branco estão no fundo da pilha”.

“Temos a tarefa de ir atrás desses fugitivos. Embora a Covid-19 tenha limitado alguns de nossos recursos para procurá-los e a gente precise priorizar mais, posso dizer que os serviços policiais continuam buscando fugitivos e fazendo prisões”.

Hannah Zhang, da CNN, contribuiu para esta reportagem.

(Texto traduzido, leia o original em inglês).