Família de Jacob Blake afirma que luta por justiça vai ao Congresso americano

Policial que disparou contra Blake e o deixou paraplégico não enfrentará qualquer acusação na justiça americana

Madeline Holcombe, Adrienne Broaddus, Amir Vera e Brad Parks, da CNN
06 de janeiro de 2021 às 13:32
Jacob Blake entregou uma mensagem a seus apoiadores de sua cama no hospital
Jacob Blake entregou uma mensagem a seus apoiadores de sua cama no hospital
Foto: Cortesia de Ben Crump

A família e apoiadores de Jacob Blake, homem negro baleado sete vezes pela polícia dos Estados Unidos, souberam na terça-feira (5) que o policial que efetuou os disparos não enfrentará acusações. O grupo prometeu levar o protesto a Washington, D.C.

"Agora, nossa batalha deve ir para o Congresso, deve ir para o Senado", disse seu pai, Jacob Blake Sr. "Vamos protestar direto nos gabinetes. Vamos ver Nancy [Pelosi] primeiro, e então vamos ao Senado até sermos vistos, até sermos ouvidos."

"Seremos proativos e não reativos", disse o bispo Tavis Grant, diretor nacional da Rainbow Push, organização que luta por direitos civis e justiça social. “Aqueles que querem pegar em armas não perceberam que direitos civis não são sobre tirar vidas, mas sobre salvar vidas”.

O policial branco Rusten Sheskey atirou em Blake, um homem negro de 29 anos, enquanto atendia ao chamado de um incidente doméstico em 23 de agosto de 2020 na cidade de Kenosha, no Wisconsin. Blake sobreviveu ao tiroteio, mas ficou paraplégico.

O promotor distrital do condado de Kenosha, Michael Graveley, anunciou na terça-feira que Sheskey não enfrentará acusações.

"Nós esperávamos que isso fosse acontecer", disse o pai de Blake. "Nós tínhamos entendido o que estava por vir quando eles chamaram a Guarda Nacional."

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Antes do anúncio de que o policial não seria acusado, o governador de Wisconsin, Tony Evers, mobilizou 500 homens da Guarda Nacional a pedido de autoridades locais e o Conselho da Cidade de Kenosha aprovou uma resolução unânime concedendo ao prefeito poderes de emergência.

Tema complexo

"Insisto para que esta seja uma conversa complexa, que seja uma conversa real, que não seja simplista e que nós falemos de maneira precisa e completa sobre a lei e os fatos", declarou Graveley.

O promotor reconheceu que os ferimentos de Blake foram uma tragédia e chegou a afirmar que assim como não tem experiência para entender os riscos de ser um policial, também não tem a experiência de temer por sua vida por causa de sua raça.

Ele afirmou que pode apenas abordar a decisão a partir da perspectiva de um profissional da área jurídica e acrescentou que não seria ético prestar queixas de um caso no qual não tem certeza de garantir uma condenação.

"(O público julgou) este caso na telas de computador e TV", disse ele. "Como profissional, sou chamado para falar sobre como julgar este caso em uma sala de júri de verdade, em uma sala de tribunal de verdade."

O maior obstáculo, segundo Graveley, é que quando se argumenta que os policiais agiram em legítima defesa, o ônus da prova recai sobre os promotores para demonstrar que isso não aconteceu.

De acordo com o promotor, os policiais foram chamados à casa de Laquisha Booker, que informou que Blake não queria devolver as chaves de um carro que ela havia alugado. Quando os policiais chegaram, tentaram prender Blake com o mandado de um incidente anterior. Em seguida, Sheskey realizou os disparos após agarrar Blake pela camisa enquanto ele tentava entrar no carro.

Jacob Blake, homem negro da cidade de Kenosha, foi baleado por policiais
Jacob Blake, homem negro da cidade de Kenosha, no estado de Wisconsin, foi baleado nas costas por policiais brancos
Foto: WDJT

"Jacob Blake, enquanto resistia à abordagem, se armou com uma faca", disse Graveley, acrescentando que ouviu apoiadores de Blake dizerem que ele estava desarmado. "É absolutamente incontestável que Jacob Blake estava armado com uma faca durante esta abordagem. Toda a discussão de que ele está desarmado contradiz até o que ele próprio disse várias vezes."

Os advogados do policial podem argumentar que não poderiam manter a distância de Blake e precisaram usar força, já que teriam visto que ele segurava uma faca e se aproximava do carro onde seus filhos estavam, depois de mãe das crianças ter dito que iria embora.

Além disso, embora os médicos que inicialmente examinaram Blake tenham dito que ele levou sete tiros nas costas, outro médico avaliou os ferimentos e concluiu que havia quatro ferimentos de entrada nas costas e três no lado esquerdo, o que poderia levantar dúvidas de que Blake estava ou não de costas para o policial.

Graveley disse que pediu ao Ministério Público dos EUA que realize uma investigação paralela sobre direitos civis e que essa seria uma investigação separada, com conclusão própria.

Advogados de Blake expressam decepção

Um advogado da família Blake contestou que ele representasse uma ameaça.

"Não há nenhum momento no vídeo em que seja compreensível um policial dizer que estivesse sob perigo", disse o advogado B'Ivory LaMarr, em entrevista realizada logo após o anúncio de Graveley. "Acho que isso é completamente falso e acredito que seja a tentativa de racionalizar um ato que é realmente, em essência, um ato intencional."

O advogado da família de Blake, Ben Crump, junto dos advogados LaMarr e Patrick A. Salvi II, divulgaram um comunicado pouco após o anúncio de que o promotor não apresentaria queixas, demonstrando decepção com a decisão.

"Sentimos que esta decisão é falha não só com Jacob e sua família, mas com toda a comunidade que protestou e exigiu justiça", disseram.

"As ações do policial Sheskey geraram indignação e ativismo em todo o país, mas a decisão do promotor de não prestar queixas contra o policial que atirou em Jacob pelas costas várias vezes, o deixando paraplégico, destrói ainda mais a confiança em nosso sistema de justiça. Isso manda uma mensagem errada a policiais de todo o país."

O governador Evers divulgou uma nota na terça-feira, afirmando que a vida de Blake mudou para sempre e que seus filhos sofreram traumas que "nenhuma criança deveria suportar".

"A decisão de hoje é mais uma prova de que nosso trabalho não acabou - devemos trabalhar de maneira séria a cada dia, em direção a um estado e país mais justo e mais igualitário e combater o racismo vivido pelos negros do Wisconsin", declarou. "Desejo paz e justiça para Jacob, sua família e toda a comunidade de Kenosha."

O procurador-geral do estado, Josh Kaul, disse que existe uma "necessidade urgente" de reforma da justiça criminal.

"O Winsconsin deveria adotar um padrão de uso da força em todo o estado, estabelecendo que o dever primário dos policiais é preservar a vida e que devem utilizar técnicas para evitar o uso da força sempre que possível", disse Kaul em comunicado. "E policiais que conduzem atividades de patrulha devem ter câmeras no corpo."