Coreia do Norte quebra o silêncio e alerta EUA para que evite acirrar tensões

Kim Yo Jong, irmã do líder da Coreia do Norte, alertou o governo Biden para evitar "o cheiro de polóvora" em seu primeiro passo

Jennifer Hansler, Nicole Gaouette, Kylie Atwood e Yoonjung Seo, CNN
16 de março de 2021 às 09:10 | Atualizado 16 de março de 2021 às 22:26

Na segunda-feira (15), Kim Yo Jong, irmã do líder da Coreia do Norte, alertou o governo Biden para evitar "causar o cheiro de pólvora em seu primeiro passo" na tentativa de manter a paz com o país asiático. A mensagem foi passada horas depois de a Casa Branca dizer não ter recebido uma resposta à tentativa de contato com Pyongyang.

"Aproveitamos esta oportunidade para alertar o novo governo dos Estados Unidos que se esforce para evitar cheiro de pólvora em nossas terras", disse ela em um comunicado, segundo a agência de notícias estatal do país.

"Se ele quer dormir em paz pelos próximos quatro anos, é melhor não causar mau cheiro em seu primeiro passo", disse ela. O alerta vem no momento em que os EUA e a Coreia do Sul realizam exercícios militares simulados em escala reduzida e o secretário de Estado dos EUA, Tony Blinken, e o secretário de Defesa, Lloyd Austin, pousam na região para reuniões com autoridades japonesas e sul-coreanas.

Na segunda-feira, o secretário de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, disse a repórteres que o governo havia entrado em contato com a Coreia do Norte, dizendo que há "uma série de canais, como sempre tivemos, pelos quais podemos manter contato".

"Diplomacia é sempre nossa meta. Nossa meta é reduzir o risco de acirramento. Mas, até o momento, não recebemos nenhuma resposta", disse Psaki, dizendo que "segue mais de um ano sem diálogo ativo com a Coreia do Norte, apesar das múltiplas tentativas dos EUA”.

Prédio em Pyongyang, capital da Coreia do Norte
Foto: gfs_mizuta/ Pixabay/ Reprodução

No entanto, especialistas disseram à CNN antes da mensagem de Kim Yo Jong que Pyongyang provavelmente rejeitaria os esforços diplomáticos por uma série de razões, incluindo a pandemia de coronavírus, a revisão da política em curso da equipe de Biden para a Coreia do Norte, as reuniões na região e a retórica que a administração tem usado.

O governo Biden ainda está conduzindo uma revisão da política do governo Trump para a Coreia do Norte, que pode ser anunciada "nas próximas semanas", de acordo com um alto funcionário do Departamento de Estado.

Embora não seja provável que o presidente Joe Biden escreva "cartas de amor" para Kim Jong Un, como fez Trump, a administração de Biden ainda não sinalizou uma ruptura clara com a postura da administração anterior. Em várias ocasiões, em depoimentos, declarações ou instruções, as autoridades americanas disseram que seu objetivo é "a desnuclearização completa da Coreia do Norte".

"Isso não é uma solução para os norte-coreanos", disse Jeffrey Lewis, do Middlebury Institute of International Studies.

'A desnuclearização não é uma solução’

"A desnuclearização não é uma solução", reafirmou Vipin Narang, um professor associado de ciência política do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que acrescentou que "toda vez que usamos essa expressão nós recuamos cinco jardas, porque os norte-coreanos nunca concordaram com isso."

Os norte-coreanos veem várias razões pelas quais não deveriam adotar a desnuclearização com base na história recente, incluindo situações no Iraque, Líbia e, mais recentemente, no Irã. Líderes no Iraque e na Líbia foram derrubados depois de abandonar seus programas nucleares sob pressão dos EUA, enquanto o Irã fechou um acordo com os EUA, que, logo depois, impôs sanções econômicas paralisantes e assassinou o principal general e cientista nuclear do país.

Frank Aum, o especialista sênior em Coreia do Norte no Instituto da Paz dos Estados Unidos, observou que "é bom manter a meta de longo prazo de desnuclearização completa para a Coreia do Norte, mas acho que a forma como você manda a mensagem será importante."

"Tem que ser aos poucos, porque você não pode simplesmente dizer que queremos ter conversas sobre a desnuclearização completa com a Coreia do Norte, porque isso soa muito unilateral", disse ele à CNN. “Teria que ser de longo prazo e não o modelo usado na Líbia de desnuclearização completa antes de darmos a eles o que eles querem”.

Em 2018, após uma cúpula em Cingapura entre o então presidente Donald Trump e Kim, a Coreia do Norte e os EUA concordaram em trabalhar pela "desnuclearização completa da península coreana", o que fez com que os norte-coreanos entendessem como uma proposta de os EUA também removerem qualquer armamento nuclear que tenham em solo coreano.

Mas após a cúpula, funcionários do governo Trump, incluindo o ex-secretário de Estado, Mike Pompeo, disseram que o acordo prometia à Coreia do Norte o desmantelamento completo e irreversível de seu programa nuclear, apesar de o compromisso não dizer nada a respeito disso.

A Coreia do Norte chamou Pompeo de um "conservador tóxico" cujas "demandas de desnuclearização soturnas e unilaterais" infringiam o que havia sido proposto entre a dupla Trump-Kim. Um oficial norte-coreano não identificado disse à Agência Central de Notícias da Coreia, em março de 2020, que "ouvir a fala ridícula de Pompeo nos fez perder qualquer esperança de diálogo".

Narang disse que a insistência dos funcionários de Biden em adotar a mesma ênfase na desnuclearização norte-coreana "não ajuda, já que insiste em algo que eles rejeitaram prontamente".

Ex-funcionários e especialistas também observaram que os compromissos dos funcionários do governo Biden de não aumentar as tarifas da Coreia do Norte não passaram despercebidos, o que pode ser um fator que levou à decisão de Pyongyang de não se envolver diretamente com os EUA.

Reuniões no radar

Kim também ficará de olho nas reuniões em Seul e Tóquio de Blinken e Austin com seus equivalentes japoneses e sul-coreanos nesta semana, e em uma reunião no Alasca entre Blinken, o conselheiro de segurança nacional, Jake Sullivan, e seus colegas chineses. Espera-se que a Coreia do Norte participe dessas conversas, principalmente com os sul-coreanos.

"E se os EUA e a China saírem de suas reuniões esta semana deixando claro que estão caminhando para uma escalada de tensões EUA-China? Se você fosse Kim Jong Un, você interpretaria isso como uma redução da pressão da China sobre a Coreia do Norte", alertou Anthony Ruggiero, um ex-funcionário do Conselho de Segurança Nacional. “Se isso acontecer, talvez Kim saiba que pode ir à China para comprar mais equipamentos para seus programas nucleares ou para vender mais carvão. Isso seria um mau sinal para o futuro de qualquer diplomacia EUA - Coreia do Norte. "

Aum também disse que os norte-coreanos podem estar sinalizando "que querem se envolver com os EUA em um nível mais alto, porque houve o precedente que foi estabelecido com as cúpulas de líderes de Trump e Kim."

Os esforços nas negociações entre os funcionários norte-coreanos e da administração Trump foram amplamente rejeitados por Pyongyang, e as poucas reuniões que ocorreram não produziram resultados tangíveis.

Apesar da advertência de Kim Yo Jong ao novo governo, a Coreia do Norte não saudou a chegada do novo presidente dos Estados Unidos com um teste de seus mísseis ou outras armas, como costuma ser o caso.

Aum disse que eles não iriam "fazer nada para provocar os EUA antes de algum sinal maior de que os EUA vão adotar uma abordagem muito hostil".

No entanto, nos últimos dias, houve atividade na instalação nuclear da Coreia do Norte, Yongbyon, de acordo com a análise de novas imagens de satélite publicadas pela 38 North, um importante grupo de monitoramento da Coreia do Norte.

E as viagens oficiais na região, os exercícios militares e o encontro de Biden com o primeiro-ministro japonês Yoshihide Suga, em abril, ainda podem levar Pyongyang a algum tipo de provocação.

(Texto traduzido; Leia aqui o original em inglês)