Inteligência dos EUA alerta para possíveis testes nucleares da Coreia do Norte

Possibilidade de teste nos próximos dias levou funcionários de várias agências do governo Biden a discutir como reagiriam publicamente

Barbara Starr, da CNN
17 de março de 2021 às 15:02 | Atualizado 17 de março de 2021 às 15:04
Kim Yo-jong, irmã de Kim Jong-un, alertou EUA sobre ações contra Coreia do Norte
Kim Yo-jong (D), irmã de Kim Jong-un, alertou EUA sobre ações contra a Coreia do Norte
Foto: Korea Summit Press Pool - 27.abr.2018/Reuters

A inteligência dos Estados Unidos avalia que a Coreia do Norte pode estar se preparando para realizar seu primeiro teste de armas nucleares desde que Joe Biden assumiu a presidência, de acordo com várias autoridades americanas que falaram à CNN sob condição de anonimato.

As autoridades norte-americanas estão em alerta enquanto o país e a Coréia do Sul realizam exercícios militares simulados em escala reduzida. O secretário de Estado dos EUA, Tony Blinken, e o secretário de Defesa, Lloyd Austin, estão na Ásia para reuniões com autoridades japonesas e sul-coreanas.

"Não comentamos assuntos de inteligência", disse o porta-voz do Departamento de Defesa (DoD), o tenente-coronel Martin Meiners, em um comunicado. "O desenvolvimento contínuo de mísseis balísticos e armas de destruição em massa da Coreia do Norte representa uma ameaça aos interesses dos EUA e à segurança de nossos aliados e parceiros. No curto prazo, o DoD, em estreita coordenação com aliados e parceiros, procurará impedir o comportamento negativo da Coreia do Norte."

Um teste ou provocação de algum tipo não seria uma surpresa, disseram especialistas.

"A Coreia do Norte tradicionalmente tem feito algum tipo de ação fortemente provocativa no início das novas administrações dos Estados Unidos e da Coreia do Sul", disse Bruce Klingner, pesquisador sênior da Heritage Foundation, que relemrbou os testes realizados em 2017, logo após o ex-presidente Donald Trump assumir o cargo, e em 2009, para marcar a chegada do ex-presidente Barack Obama à Casa Branca.

Segundo Klingner, a ideia dos norte-coreanos é “adestrar” os dois países “como cães”, segundo teria dito um desertor norte-coreano ao pesquisador. "Portanto, a história indicaria que eles fariam algo nos primeiros meses de uma administração Biden também", disse ele. "É previsto que façam alguma provocação."

Na segunda-feira (15), Kim Yo-Jong, irmã do líder da Coréia do Norte, alertou o governo Biden sobre causar um mal-estar em seus primeiros movimentos com relação ao país asiático. Ela falou sobre o assunto horas depois que a Casa Branca disse que não havia recebido uma resposta às propostas diplomáticas que vinha fazendo a Pyongyang.

A secretário de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, se recusou a responder ao comentário na terça-feira (16). "Não temos um comentário direto ou resposta aos comentários feitos pela Coreia do Norte", disse Psaki a repórteres em uma coletiva a bordo do Air Force One, a caminho da Filadélfia com o presidente.

Ela apontou para as reuniões entre Blinken, Austin, e suas contrapartes, onde "certamente, a segurança da região será um tópico de discussão".

No final desta semana, Blinken e o conselheiro de segurança nacional Jake Sullivan também irão ao Alasca para se encontrar com seus colegas chineses, que Psaki também disse que apresentará uma discussão sobre "segurança na região".

Blinken e Austin reafirmaram seu compromisso com a "desnuclearização completa da Coreia do Norte" com o Japão na terça-feira e com a criação de oportunidades para maior cooperação entre os EUA, Japão e Coreia do Sul, de acordo com um comunicado do Departamento de Estado dos EUA.

Eles realizaram reuniões na Coreia do Sul nesta quarta-feira. Um fonte do governo norte-americano disse que a Coreia do Norte pode decidir se deseja fazer um teste depois de ver o que acontece nas reuniões de Blinken e Austin na Ásia.

'Sucesso alarmante' da Coreia do Norte

Na terça-feira (16), um general sênior dos EUA emitiu um alerta público sobre a ameaça representada pela Coreia do Norte.

"O regime de Kim Jong-un obteve sucesso alarmante em sua busca para demonstrar a capacidade de ameaçar a pátria dos EUA com mísseis balísticos nucleares (ICBM, na sigla em inglês), acreditando que tais armas são necessárias para deter a ação militar dos EUA e garantir a sobrevivência do seu regime", disse Glen Van Herck, chefe do Comando Norte dos EUA e responsável pela defesa do território continental dos Estados Unidos, ao Comitê de Serviços Armados do Senado.

A possibilidade de um teste nos próximos dias levou funcionários do governo Biden de várias agências a discutir como reagiriam publicamente se isso acontecesse, disseram as fontes.

Eles não foram claros, porém, sobre o que as últimas informações apontam, mas um cenário provável é que poderia haver um teste de míssil ou de foguete. O último teste de armas norte-coreano foi realizado em março de 2020.

Nos últimos dias, a inteligência dos EUA tem se concentrado na atividade de veículos em um local próximo a Sanum-dong, nos arredores de Pyongyang, onde mísseis balísticos e veículos de lançamento espaciais teriam sido construídos no passado.

Também houve atividade na instalação nuclear da Coreia do Norte em Yongbyon, de acordo com a análise de novas imagens de satélite publicadas pelo 38 North, um importante grupo de monitoramento da Coreia do Norte.

Autoridades disseram à CNN que se a Coreia do Norte realizar um teste enquanto os dois secretários estiverem na Ásia passaria uma mensagem direta a Biden de que Kim quer garantir que ele seja visto como uma peça-chave na região. Um teste nos próximos dias não seria, portanto, uma surpresa, apesar de Kim ter deixado de realizá-los por tanto tempo.

A resposta dos Estados Unidos deve variar dependendo do que, exatamente, Pyongyang testar. Se a Coreia do Norte fizer um teste nuclear ou um teste de míssil balístico, semelhante ao que fizeram em outubro de 2020 e que foi apelidado de "Monster ICBM", isso seria "preocupante, seria muito provocativo", disse Klingner.

"Seria uma violação das resoluções da ONU em grande escala; exigiria uma resposta forte do presidente Biden e impactaria as relações diplomáticas. Quando eles fazem algo provocativo, isso coloca uma pausa de três a seis meses na diplomacia porque ninguém quer ser visto recompensando esse tipo de comportamento", continuou.

Se Pyongyang testar um míssil, as questões que determinarão a resposta dos EUA serão: qual o alcance do míssil, quão longe ele viajou e voou sobre o território japonês, disse Klingner. Os testes de motor de foguete "não são exatamente uma violação, mas não ajudam [na relação diplomática]", disse ele.

Trump ignorou lançamentos

Trump ignorou o número recorde de lançamentos de mísseis da Coreia do Norte em 2019, argumentando que eles não violaram a promessa de Kim Jong-un de não fazer testes nucleares ou ICBM – embora o líder norte-coreano tenha anunciado que não precisava mais realizar esses testes porque os programas foram concluídos e as resoluções da ONU exigem que Pyongyang não faça nenhum lançamento.

O governo Biden ainda está conduzindo uma revisão da política do governo Trump para a Coreia do Norte, que pode ser concluída "nas próximas semanas", de acordo com um funcionário do alto escalão do Departamento de Estado.

Embora Biden provavelmente não escreva "cartas de amor" para Kim, como seu antecessor fez, a administração atual ainda não ofereceu uma ruptura clara com a anterior em seus objetivos declarados com relação à Coreia do Norte. Em várias ocasiões, em depoimentos, declarações ou instruções, as autoridades americanas disseram que seu objetivo é "a desnuclearização completa” do país asiático. 

Militares e de funcionários da inteligência dos EUA há muito afirmam que a Coreia do Norte continuou com a pesquisa e o desenvolvimento de mísseis e ogivas nucleares em todo o governo Trump, apesar das declarações públicas de Trump e de Biden sobre a desnuclearização.

"O contínuo desenvolvimento de armas de destruição em massa e programas de mísseis balísticos pela Coreia do Norte constitui uma ameaça extraordinária para os Estados Unidos e nossos aliados e parceiros na região", disse David Helvey, secretário adjunto de defesa para Assuntos Indo-Pacífico, ao Comitê de Serviços Armados da Câmara. 

Jennifer Hansler, Nicole Gaouette, Kylie Atwood e Caroline Kelly da CNN contribuíram para essa reportagem.

(Texto traduzido; leia o original em inglês)