'Junta militar de Mianmar está cometendo um genocídio', diz oficial da ONU

Tom Andrews afirma que é hora de "uma ação robusta e coordenada", já que "palavras não são suficientes" para proteger a vida das pessoas

Radina Gigova, da CNN*
28 de março de 2021 às 08:01 | Atualizado 01 de maio de 2021 às 21:00
Protestos em Mianmar
Protestos em Mianmar: Manifestantes contrários ao golpe militar entram em confronto com forças de segurança na cidade de Yangon
Foto: Stringer/Reuters

Autoridades de direitos humanos estão conclamando a comunidade internacional a fazer mais para impedir o derramamento de sangue em Mianmar, depois que mais de 100 civis foram supostamente mortos pela junta militar de Mianmar que derrubou o governo eleito do país.

O Relator Especial da ONU para os direitos humanos em Mianmar, Tom Andrews, disse que é hora de "uma ação robusta e coordenada", já que "palavras não são suficientes" para proteger a vida das pessoas.

"Palavras de condenação ou preocupação estão francamente soando vazias para o povo de Mianmar enquanto a junta militar comete assassinatos em massa contra eles", disse ele. "O povo de Mianmar precisa do apoio mundial."

Pelo menos 114 pessoas foram mortas no sábado (27) durante protestos em 44 vilas e cidades em todo o país, de acordo com uma contagem da agência de notícias independente Myanmar Now --o dia mais sangrento de protestos desde um golpe militar no mês passado.

Entre os mortos está supostamente uma menina de 13 anos, que foi baleada em sua casa depois que as forças armadas da junta militar abriram fogo em áreas residenciais de Meikhtila, na região de Mandalay, de acordo com o portal. Ela estaria entre os 20 menores mortos desde o início dos protestos. A CNN não conseguiu confirmar de forma independente o número de pessoas mortas.

A repressão letal ocorreu no Dia das Forças Armadas do país. O general Min Aung Hlaing, líder da junta, disse durante um desfile na capital Naypyitaw para marcar o evento que os militares protegem o povo e lutam pela democracia, informou a Reuters.

Na sexta-feira (26), a mídia estatal do país 'alertou' que os manifestantes corriam o risco de levar tiros "na cabeça e nas costas". Apesar disso, manifestantes contra o golpe de 1º de fevereiro saíram nas ruas de Yangon, Mandalay e outras cidades.

De acordo com a última contagem da Associação de Assistência para Prisioneiros Políticos,  pelo menos 423 pessoas foram mortas em Mianmar desde o golpe militar de 1º de fevereiro.

Um menino de apenas 5 anos, segundo a mídia local, estava entre os pelo menos 29 pessoas mortas em Mandalay. Estima-se que outras 24 pessoas foram mortas em Yangon, disse Mianmar Now, de acordo com a Reuters.

"Hoje é um dia de vergonha para as forças armadas", disse Sasa, porta-voz do CRPH (Committee Representing Pyidaungsu Hluttaw), um grupo anti-junta criado por legisladores depostos, em um fórum online.

Sasa chamou os líderes militares de seu país de "assassinos" e implorou à comunidade internacional que tomasse "medidas reais" contra a junta militar.

“Eles [militares] não deveriam ter acesso ao mercado internacional de armas, a instituições financeiras e nem assistência ao desenvolvimento. Por favor, façam tudo ao seu alcance para bloquear todos os financiamentos, negócios e acesso aos mercados financeiros em sua jurisdição”, disse ele.

"Quantos mais de nós precisaremos morrer antes que você mude de sua resposta incremental para a ação real?"

Enquanto isso, um dos vinte grupos étnicos armados de Mianmar, a União Nacional Karen, disse que invadiu um posto do exército perto da fronteira com a Tailândia, matando 10 pessoas --incluindo um tenente-coronel-- e perdendo um de seus próprios combatentes, informou a Reuters.

Um porta-voz militar não respondeu aos telefonemas da agência de notícias em busca de comentários sobre as mortes pelas forças de segurança ou o ataque insurgente a seu posto.

"Eles estão nos matando como pássaros ou galinhas, mesmo em nossas casas", disse Thu Ya Zaw na cidade central de Myingyan, onde pelo menos dois manifestantes foram mortos, segundo a Reuters. "Continuaremos protestando apesar de tudo... Devemos lutar até a queda da junta."

*Com informações da Reuters

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