'Eu amaldiçoo esse dia': lava atinge vilarejos e deixa 15 mortos no Congo

Cruz Vermelha informou que até 5.000 fugiram para a Ruanda após vulcão entrar em erupção

Reuters
23 de maio de 2021 às 20:28 | Atualizado 23 de maio de 2021 às 20:31
Pessoas observam lava no leste do Congo após vulcão entrar em erupção
Pessoas observam lava no leste da República Democrática do Congo após vulcão entrar em erupção
Foto: Reuters (23.mai.2021)

Uma erupção vulcânica no leste da República Democrática do Congo deixou uma trilha de destruição de quase um quilômetro de largura neste domingo (23), enterrando centenas de casas e deixando famílias procurando desaparecidos, antes de parar pouco antes da cidade de Goma. 

Goma ficou em pânico na noite deste sábado (22) com o Monte Nyiragongo, um dos mais ativos e perigosos vulcões do mundo, entrou em erupção e deixou a noite vermelha, com uma parede de lava escorrendo na direção da cidade de cerca de 2 milhões de habitantes. 

Quinze foram mortos, incluindo nove num acidente de trânsito enquanto as pessoas tentavam fugir, quatro que tentaram escapar da prisão em Goma e dois que foram queimados, disse o porta-voz do governo, Patrick Muyaya em nota. 

Ao todo, dezessete vilarejos foram atingidos, disse Muyaya, incluindo três centros de saúde, uma escola primária e uma tubulação de água. 

A lava atravessou uma estrada principal que vai para o norte de Goma, cortando uma rota essencial para a chegada de ajuda e suprimentos, e a principal fonte de abastecimento de eletricidade. Uma delegação do governo foi enviada à Goma para ajudar na resposta, disse o porta-voz. 

É provável que o número aumente consideravelmente, um repórter da Reuters viu duas pessoas mortas pela erupção inicial num vilarejo ao norte de Goma e testemunhas relatam parentes mortos e desaparecidos. 

Assombrados pelas memórias da última erupção em 2002, que matou 250 pessoas e deixou quase 120 mil desabrigados, residentes fugiram a pé com seus pertences, alguns para a fronteira com a Ruanda. 

A Federação Internacional da Cruz Vermelha disse que entre 3 mil e 5 mil congoleses entraram na Ruanda no sábado, muitos deles fazendeiros e pessoas do campo levando gado. Alguns desses começaram a voltar neste domingo. 

'Eu amaldiçoo esse dia'

Alguns disseram ter perdido membros da família, como Ernestine Kabuo, de 68 anos, que tentou carregar o marido adoecido da casa em que moravam conforme a lava se aproximava, mas ele estava muito mal para sair. 

"Eu disse a mim mesma, não posso ir sozinha, estamos casados para o melhor e para o pior", disse Kabuo, chorando em meio aos prédios engolidos pela lava. 

"Eu voltei para tentar ao menos tirá-lo dali, mas não consegui. Eu corri e ele foi queimado lá dentro. Não sei o que fazer, eu amaldiçoo este dia". 

Habitantes de Goma, na República Democrática do Congo, observam fumaça e chamas de erupção vulcânica
Foto: Djaffar Al Katanty/Reuters (22.mai.2021)

A lava em direção a Goma parou poucas centenas de metros dos limites da cidade. O aeroporto local não foi tocado. Um outro fluxo de lava que ia em direção a um território sem população na Ruanda também pareceu ter parado. 

"Autoridades locais que monitoraram a erupção ao longo da noite relataram que o fluxo de lava perdeu intensidade", disse Muyaya. 

Ainda assim, eles alertaram que o perigo ainda não passou e que atividade sísmica na área pode causar mais derramamento de lava.

Os vulcanologistas do Observatório de Goma, que monitora Nyiragongo, tiveram dificuldade para fazer checagens regulares desde que o Banco Mundial cortou o financiamento em meio a denúncias de fraude. 

De outubro de 2020 a abril deste ano, o OVG, como é chamado, não pôde completar checagens completas do vulcão porque os analistas não tinham conexão à internet, contou o diretor do órgão, Celestin Kasereka Mahinda, à uma rádio local neste domingo. 

A internet foi restaurada em abril graças a financiamento de um parceiro norte-americano, disse ele, mas àquele ponto, muito tempo havia sido perdido. 

"Logo que a internet voltou, começamos a gravar os sinais de alerta, mas como não tínhamos os dados anteriores, pensamos que era o começo de uma atividade vulcânica. Daí, essa surpresa".