Espiões, falsa bomba: o que se sabe sobre avião obrigado a pousar em Belarus

Governo de Belarus forçou pouso em seu território para prender um ativista crítico ao presidente bielorrusso; entenda o caso

Gregory Prudenciano, da CNN, em São Paulo
24 de maio de 2021 às 23:15 | Atualizado 25 de maio de 2021 às 15:19

Neste domingo (23), um avião da companhia aérea irlandesa Ryanair que havia saído de Atenas, na Grécia, com destino à Lituânia, foi forçado a sair de sua rota original e fazer uma parada em Minsk, capital de Belarus, sob a alegação de uma ameaça de bomba no voo. Um caça foi enviado para escoltar a aeronave, que pousou, então, na capital bielorrussa, onde o blogueiro - e opositor do governo local - Roman Pratasevich foi preso. 

Após o pouso da aeronave, ficou constatado que não havia nenhuma bomba a bordo. Com Pratasevich - ativista bielorrusso de 26 anos e crítico do regime político do país - preso, o avião retomou sua rota original e horas depois pousou em segurança na Lituânia. 

O caso logo repercutiu na União Europeia e na comunidade internacional, pondo em evidência um pequeno país do leste europeu que desde 1994 é chefiado por Alexander Lukashenko, conhecido como "último ditador da Europa", e colocando de lados opostos a Rússia, que apoia o regime de Lukashenko, e países ocidentais como os Estados Unidos. 

Confira o que se sabe sobre o caso até o momento:

O governo de Alexander Lukashenko

À frente de Belarus desde 1994, Lukashenko vem sendo sucessivamente eleito presidente do país de 9,5 milhões de habitantes em eleições cada vez mais contestadas. Ex-membro do Partido Comunista da União Soviética, ele lidera o país apoiado internacionalmente pela Rússia e China, sendo um chefe de estado bastante próximo ao russo Vladimir Putin. 

Em 2020, foi oficialmente reeleito presidente de Belarus, mas as ruas de Minsk foram tomadas por gigantescos protestos populares contra uma eleição que os manifestantes afirmavam ter sido fraudada.

Os protestos foram violentamente reprimidos pelas forças de segurança sob Lukashenko, com cerca de 35 mil pessoas tendo sido levadas à prisão. Lukashenko nega fraude eleitoral e acusa o Ocidente de patrocinar os atos.

Presidente de Belarus, Alexander Lukashenko discursa em Minsk
Foto: Stringer/Reuters (16.ago.2020)

Alguns dos veículos de imprensa que cobriram os protestos acabaram fechados pelo governo, de forma que críticos do regime passaram a ter em redes sociais e aplicativos de mensagens aliados para mobilizações. 

Ainda em 2020, quando a pandemia de Covid-19 já havia se tornado um problema também para Belarus, Lukashenko minimizou o risco oferecido pelo novo coronavírus - disse que era um exagero da imprensa -  e recomendou aos cidadãos bielorrussos que bebessem vodka e frequentassem saunas. 

Contra a mídia, que, segundo ele, induzia as pessoas a "entrarem em pânico", e contra manifestantes que ameaçavam a estabilidade de seu governo, Lukashenko ordenou o trabalho de inteligência da KGB, instituição que ainda existe em Belarus do século 21. 

Um dos alvos de Lukashenko é justamente Roman Protasevich, o blogueiro que estava no avião da Ryanair e acabou preso pelas autoridades do antigo país soviético. 

Quem é Roman Protasevich

Ainda adolescente, Protasevich começou a ganhar destaque nas redes sociais por seu trabalho crítico ao governo. No aplicativo de mensagens Telegram, ele criou o canal Nexta, que compartilhava informações e mobilizava ativistas contra o governo de Lukashenko. 

Por seu trabalho e por integrar os protestos de 2020, Protasevich passou a fazer parte de uma lista de procurados do governo bielorrusso.

Roman Protasevich gravou um vídeo no qual afirma estar bem após ser detido
Foto: Reprodução

Nesta segunda-feira (25), em um vídeo postado em redes sociais após sua prisão, Protasevich apareceu dizendo que está bem de saúde e reconhecendo que atuou na organização dos protestos em Minsk no ano passado. 

Vestindo um moletom escuro, o ativista afirmou que está em uma prisão e negou ter problemas cardíacos, o que foi espalhado em postagens por seus simpatizantes.

Para críticos do governo, o vídeo é prova de que Protasevich está sendo coagido. "É assim que Roman se apresenta sob pressão física e moral. Exijo a libertação imediata de Roman e de todos os prisioneiros políticos", escreveu no Twitter em inglês um líder da oposição bielorrussa, Sviatlana Thiskanouskaya.

Avião da Ryanair forçado a pousar em Belarus é observado ao chegar na Lituânia
Foto: Andrius Sytas - 23.mai.2021/Reuters

Ação de espiões

Um dos homens mais ricos da Irlanda, o CEO da Ryanair, Michael O'Leary, classificou o episódio do pouso forçado do avião da companhia em Belarus como um "sequestro patrocinado pelo próprio estado". 

Segundo um porta-voz do governo da Lituânia, eram esperados 126 passageiros na chegada do avião, mas somente 121 desembarcaram.

Para O'Leary, agentes de segurança de Belarus estavam infiltrados no voo para fazer a prisão de Protasevich e, por isso, também devem ter desembarcado em Minsk, o que também significaria dizer que a operação foi coordenada com espiões bielorrussos que operaram em solo grego, de onde partiu o avião. 

Por precaução, o governo da Lituânia recomendou que seus cidadãos evitem viajar para Belarus e orientou que aqueles que estão no país neste momento saiam de lá imediatamente. Também há a recomendação para que aviões que partam da Lituânia evitem o espaço aéreo bielorrusso. 

Reação internacional

Líderes da União Europeia chegaram a um acordo nesta segunda-feira para impor sanções a Belarus. Reunidos em Bruxelas, na Bélgica, os 27 líderes nacionais do bloco exigiram a libertação imediata de Roman Protasevich e uma investigação da Organização Internacional para a Avião Civil (IOCA, em inglês) sobre o incidente que levou à prisão

O conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jake Sullivan, disse nesta segunda-feira que os Estados Unidos, em coordenação com a União Europeia e outros países aliados, vão responsabilizar o governo de Belarus pelo ocorrido. 

"Estamos fechando nosso espaço aéreo para aviões vindos de Belarus e conclamamos as companhias aéreas da União Europeia a não sobrevoarem o país", disse a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. "Mais sanções econômicas serão divulgadas em breve". 

Atualmente, a UE proíbe viagens e congelou ativos financeiros de 88 cidadãos bielorrussos, incluindo o presidente Alexander Lukashenko, depois da repressão aos protestos que questionavam outra reeleição do líder de Belarus. 

Outras sanções individuais podem ter como alvo financiadores do regime de Lukashenko. 

Em ligação à líder oposicionista bielorrussa Sviatlana Tsikhanouskaya, atualmente no exílio, Sullivan transmitiu o "forte apoio dos Estados Unidos às demandas do povo bielorrusso por democracia, direitos humanos e liberdades fundamentais". 

O presidente do Comitê de Relações Exteriores do Parlamento britânico, Tom Tugendhat, pediu nesta segunda-feira que todas as companhias aéreas parem de voar sobre Belarus. Para ele, a atitude de Belarus, "se não for um ato de guerra, certamente é como um ato de guerra", especialmente por se tratar de um voo entre dois membros da União Europeia e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). 

O ministro das Relações Exteriores da Irlanda classificou a iniciativa de Lukashenko de "pirataria aérea". 

A Rússia, por outro lado, classificou de hipócrita a reação indignada dos países ocidentais. "É chocante que o Ocidente chame o incidente no espaço aéreo bielorrusso de 'chocante'", escreveu a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores Maria Zakharova no Facebook.

"Se eles não ficaram chocados com o pouso forçado na Áustria do avião do presidente boliviano a pedido dos Estados Unidos, não deveriam ficar chocados com comportamento semelhante de outros", completou.

Zakharova se referia a um episódio de 2013 quando o avião com o então líder da Bolívia Evo Morales foi forçado a pousar em Viena depois que França e Portugal fecharam seu espaço aéreo durante a viagem de volta de Moscou devido a temores de que o ex-funcionário da agência de espionagem dos Estados Unidos Edward Snowden estivesse a bordo, o que não se confirmou.

*Com informações da Reuters