Maior fabricante de vacina do mundo atrasa exportação e afeta países vulneráveis

Instituto Serum, na Índia, prioriza distribuição interna de imunizantes

Julia Hollingsworth, da CNN
26 de maio de 2021 às 11:59
Recipientes de vacina de Oxford/AstraZeneca no Serum Institute da Índia
Recipientes de vacina de Oxford/AstraZeneca no Serum Institute da Índia
Foto: Francis Mascarenhas/Reuters (30.nov.2020)

Quando Uddhab Gautam recebeu sua primeira dose de vacina em fevereiro, havia poucos casos de Covid-19 no Nepal.

Agora, três meses depois, as infecções pelo coronavírus no país da cordilheira do Himalaia saíram de controle, levando a uma escassez de leitos hospitalares e oxigênio, e deixando a maior parte do país em lockdown.

Mas, apesar de precisar da vacina mais do que nunca, o bancário aposentado de 67 anos não tem ideia de quando receberá sua segunda dose de Covishield, a vacina AstraZeneca fabricada pelo Instituto Serum da Índia (SII).

“Como idoso, tenho medo de contrair o vírus”, disse o homem, que mora na capital do Nepal, Katmandu. “Eu preferi então ficar dentro de casa”.

A situação de Gautam é semelhante a de milhões em todo o mundo: como a piora na crise de coronavírus da Índia, o SII, maior fabricante de vacinas do mundo, não pode mais exportar seus produtos.

Na semana passada, o SII informou que não retomaria as entregas para a Covax, a iniciativa mundial que visa a distribuição de vacinas para países independentemente de suas riquezas, até o fim deste ano.

Embora a decisão do SII seja um salva-vidas para a Índia, que ainda está registrando cerca de 200 mil novos casos por dia, o atraso representa um grande problema para os países em desenvolvimento que dependem da Covax para controlar seus próprios grandes surtos.

O mundo já está com menos 140 milhões de doses do que era previsto – e, até o final de junho, essa lacuna terá atingido 190 milhões, de acordo com a agência das Nações Unidas para a infância, uma das parceiras da Covax. Atualmente, não há prazo para resolver a escassez, segundo a Unicef.

O corte do SII cria um problema muito real, não apenas para os países com acesso limitado às vacinas, onde os casos estão explodindo, mas para o mundo todo.

“Estamos preocupados que o aumento de fatalidades na Índia seja um precursor do que acontecerá se esses avisos permanecerem ignorados”, disse a diretora executiva do UNICEF, Henrietta Fore, em um comunicado à imprensa na semana passada. “O custo para crianças e famílias será incalculável”.

As falhas da Covax

No ano passado, o SII (que fabrica a Covishield, nome dado à vacina AstraZeneca fabricada na Índia) prometeu entregar 200 milhões de vacinas para a Covax.

Mais de 111 milhões dessas doses estavam programadas para serem distribuídas entre fevereiro e maio deste ano, principalmente em países da África e Ásia-Pacífico, de acordo com dados da Gavi, uma parceria público-privada global de saúde que colidera a Covax.

No entanto, até terça-feira (25), apenas cerca de 30 milhões de doses do SII foram distribuídas via Covax, de acordo com a Gavi.

Segundo a Unicef, os atrasos na entrega do SII são a razão principal do atraso da Covax, junto com o nacionalismo da vacina, a capacidade de produção limitada e a falta de financiamento. A Covax já deveria ter entregado 170 milhões de doses no total, disse a Unicef. Em vez disso, os dados de terça-feira revelavam 71 milhões de doses para 125 países e territórios, com cerca de 42% vindo do SII e 56% da AstraZeneca, de acordo com dados da Gavi.

O SII começou a distribuir vacinas no exterior no início do ano, quando os casos da Índia caíram e outros países estavam “precisando desesperadamente de ajuda”, explicou o CEO da empresa, Adar Poonawalla, em uma declaração na semana passada.

Mas, à medida que os casos da Índia aumentaram, o SII manteve suprimentos dentro do país, onde havia uma necessidade crescente. O governo desmentiu reportagens da mídia que diziam que a exportação de vacinas estava proibida.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou em março que as vacinas do SII seriam adiadas. Naquele ponto, ele havia distribuído apenas 28 milhões de doses.

Índia enfrenta aumento expressivo do número de casos e mortes por Covid-19
Foto: Reprodução/CNN Brasil (16.abr.2021)

À medida que o número de casos da Índia começou a aumentar, a demanda por vacinação cresceu e vários estados indianos relataram escassez de imunizantes. Passou-se então a se questionar por que a Índia, líder mundial na fabricação de vacinas, estava ficando sem doses. Até terça-feira (25), apenas 3% da população da Índia estava totalmente vacinada. O SII disse na semana passada que entregou mais de 200 milhões de doses no total dentro do país.

“Continuamos a expandir a fabricação e priorizar a Índia. Também esperamos começar a entregar para Covax e outros países até o final deste ano”, afirmou Poonwalla.

O CEO disse que o SII nunca exportou vacinas “às custas do povo da Índia” e que “permaneceria comprometido em fazer tudo que puder para apoiar a campanha de vacinação no país. Temos trabalhado incansavelmente com o governo para fazer o nosso melhor pela humanidade e continuaremos com o mesmo espírito”, declarou.

Um porta-voz da Gavi disse em um comunicado que estava em contato próximo com o SII e o governo indiano e esperava que as entregas pudessem ser retomadas em uma capacidade reduzida no terceiro trimestre deste ano.

Consequências para países em desenvolvimento

Do outro lado da fronteira indiana, no Nepal, onde casos de coronavírus e mortes estão aumentando, o anúncio do SII deixou as autoridades confusas.

O Nepal tem apenas 1,9% de sua população totalmente vacinada e está quase sem imunizantes.

O país relatou mais de 500 mil casos de Covid-19 e 6.700 mortes. Mas o Nepal tem a terceira maior taxa de positividade de teste do mundo (cerca de 40% dos testes deram positivo), o que sugere que não está captando todos os casos.

O porta-voz do Ministério da Saúde e População, doutor Jageshwor Gautam, disse na semana passada que o país tem apenas cerca de 50 a 60 mil doses de Covishield do SII armazenadas para “fins de emergência”. O próprio ministro da Saúde, Hridayesh Tripathi, disse na semana passada que as autoridades planejavam usá-los em alguns dias para dar aos idosos sua segunda dose.

O país esperava receber mais de um milhão de vacinas até o final de abril, mas elas nunca chegaram. No total, o Nepal só recebeu 348 mil doses de suas 1,9 milhões de doses alocadas da vacina AstraZeneca por meio da Covax. De acordo com Tripathi, a Covax prometeu inicialmente 14,8 milhões de doses, o suficiente para cerca de um quarto da população do país.

Milhões de nepaleses não receberam nenhuma dose e 1,5 milhão de pessoas (a maioria com 65 anos ou mais) receberam uma dose, mas não a segunda, gerando preocupações sobre quanto tempo sua imunidade irá durar.

“Não ouvi nada desde que tomei a primeira dose”, contou Durga Kaumari Paudel, 66, uma dona de casa que mora com o marido e o filho em Katmandu. Um de seus vizinhos morreu este mês de Covid-19, o que só aumenta sua preocupação. A mulher está com tanto medo que não sai de casa há um mês.

Não está claro se atrasar o momento da segunda dose diminuirá a eficácia do imunizante, mas os testes mostram que duas doses de uma vacina são provavelmente melhores do que uma, de acordo com a Gavi.

O Ministro da Saúde Tripathi disse que o Nepal está em negociações com vários países para obter as vacinas necessárias. Ele disse que conversou com autoridades dos Estados Unidos, Reino Unido e outros países sobre a vacina da AstraZeneca, e enviou cartas aos ministros da saúde dos EUA, Reino Unido, China e Rússia atualizando-os sobre as necessidades do Nepal.

“Em breve receberemos as vacinas que precisamos. Estamos bastante confiantes”, afirmou.

O Nepal não está sozinho. Bangladesh deveria receber mais de 10 milhões de doses de Covishield até o final de maio, de acordo com as alocações da Gavi. Mas não está claro se o produto chegou – e Bangladesh agora está sem vacinas, de acordo com a Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FICV).

O país vacinou totalmente apenas 2,4% de sua população de 164 milhões, e os casos parecem estar aumentando novamente. Após um pedido de Bangladesh, a China presenteou o país com outras 600 mil doses de vacina, disse a embaixada chinesa em Dhaka em um comunicado na sexta-feira (21).

Papua Nova Guiné, Sri Lanka e Camboja também esperavam entregas em Covishield e agora estão enfrentando picos de casos. De acordo com a FICV, a “maioria” dos países da Ásia estava sofrendo com a escassez de vacinas.

“A Ásia é agora o epicentro desta pandemia global”, disse Alexander Matheou, diretor da FICV para a Ásia-Pacífico. “Dezenas de milhares de vidas estão sendo perdidas a cada semana e as vacinas devem estar disponíveis para que possamos prevenir novas perdas terríveis nas próximas semanas e meses”.

Consequências para o mundo

Vacinas do consórcio Covax são descarregadas em aeroporto no Sudão
Foto: Mahmoud Hjaj - 3.mar.2021/Anadolu Agency via Getty Images

A dificuldade da Covax não é apenas um problema para os países da Ásia: ela tem ramificações potenciais em todo o mundo.

“Temos emitido avisos repetidos sobre os riscos de baixar a guarda e deixar os países de baixa e média renda sem acesso equitativo a vacinas, diagnósticos e terapêuticas”, afirmou Fore, diretora da Unicef, em comunicado. “Quanto mais tempo o vírus continua a se espalhar sem controle, maior o risco de surgirem variantes mais letais ou contagiosas”.

Este mês, a Coalition for Epidemic Preparedness Innovations (CEPI) criou uma força-tarefa de fabricação para a Covax enfrentar os desafios do fornecimento de vacinas, entre eles a escassez de matérias-primas.

O porta-voz da Gavi disse que uma de suas prioridades atuais é trabalhar com os governos com os maiores suprimentos para entregar vacinas por meio da Covax a países onde elas poderiam ter “um impacto imediato ao abordar essa interrupção do fornecimento de curto prazo”. Eles não especificaram quais seriam esses países.

Mas, como destaca a diretora da UNICEF, o SII não é o único grupo que pode ajudar a resolver a escassez de vacinas.

Apenas vacinas aprovadas pela OMS podem ser distribuídas via Covax. No início deste mês, a OMS listou a Sinopharm da China para uso de emergência, tornando-a a sexta vacina receber luz verde para ser usado como parte da Covax.

A Gavi disse no início deste mês que estava em negociações com fabricantes, incluindo a Sinopharm, para obter mais doses de Covax, segundo a Reuters.

Enquanto alguns países estão desesperados por vacinas, outros estão inoculando os menos vulneráveis, como os jovens, situação que Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, descreveu na semana passada como “apartheid da vacina”. Em seu discurso de abertura na Assembleia Mundial da Saúde na segunda-feira (24), ele observou que mais de 75% de todas as vacinas foram aplicadas em apenas dez países.

“A crise da vacina em curso é uma desigualdade escandalosa que está perpetuando a pandemia”, declarou. “O número de doses aplicadas globalmente até agora teria sido suficiente para cobrir todos os profissionais de saúde e idosos, se tivessem sido distribuídas de forma equitativa. Poderíamos estar em uma situação muito melhor”.

A Unicef disse em um email que estava pedindo aos países com doses em excesso que as compartilhassem como uma medida paliativa imediata. A FICV também está pedindo aos estados e empresas farmacêuticas que atuem mais rapidamente na distribuição de vacinas.

“Não podemos nos dar ao luxo de ficar atolados nas negociações nos próximos seis meses”, disse o presidente da FICV Francesco Rocca, acrescentando que o governo precisava compartilhar estoques, especialmente com países que passam por surtos de Covid-19.

Tedros pediu aos fabricantes que dessem à Covax o primeiro direito de recusa em novas vacinas, ou que comprometessem 50% das vacinas com a Covax este ano.

“Não há maneira diplomática de dizer isso. Um pequeno grupo de países que fabrica e compra a maioria das vacinas do mundo controla o destino do resto do mundo”.

Com informações de Sugam Pokharel, da CNN em Atlanta, Asha Thapa, Nishant Khanal e Kosh Raj Koirala da CNN em Kathmandu, Nepal

(Texto traduzido, leia o original em inglês)