Copa 2022: Catar diz estar pronto e contesta acusações de abusos trabalhistas

Denúncias de abusos, especialmente de trabalhadores imigrantes, rondam modernos estádios da competição global

Zeena Saifi e Becky Anderson*, da CNN
17 de julho de 2021 às 04:30
Uma visão geral do estádio Al-Bayt em Catar
Uma visão geral do estádio Al-Bayt em 19 de dezembro de 2019 na cidade de Al Khor, Catar
Foto: Reprodução/CNN

É impossível não vê-los. Em um passeio pelo Catar, parece que a cada curva um novo estádio de futebol surge do deserto – e cada projeto oferece traz uma nova visão futurista da cultura tradicional do país.

Um dos estádios, em uma área há muito conhecida pelo mergulho e pesca de pérolas, tem o formato de um dhow, uma embarcação tradicional que navega pelas águas do Golfo.

Outro tem o desenho de um chapéu de tecido conhecido como gahfiya, usado principalmente por homens nos países do Golfo como base para seus tradicionais lenços de cabeça brancos. Cada projeto de estádio representa a história e a cultura do Catar e é um testemunho físico de suas ambições futuras no cenário mundial.

No entanto, todos foram construídos com a ajuda de um exército de trabalhadores vindos do exterior, muitos deles do sul da Ásia e partes da África. E o pequeno país do Golfo partiu para uma ofensiva na mídia após vários relatos de maus tratos e abusos de direitos trabalhistas.

Foto tirada em 20 de dezembro de 2019 mostra trabalhadores da construção civil no estádio Lusail, no Catar, cerca de 20 quilômetros ao norte da capital, Doha
Foto: Reprodução/CNN

Desde que o Catar venceu a concorrência para hospedar a Copa do Mundo, em 2010, mais de 6,5 mil trabalhadores migrantes morreram no país, como relatou o jornal “The Guardian” em fevereiro.

Segundo a reportagem, a maioria das vítimas estava envolvida em trabalhos perigosos e com baixa remuneração, muitas vezes executados em condições extremas de calor.

A matéria do jornal britânico não vinculou de forma definitiva todas as 6,5 mil mortes aos projetos de infraestrutura da Copa do Mundo. Mas um especialista afirmou ao “Guardian” que “provavelmente muitos trabalhadores que morreram estavam empregados” nesses projetos.

A CNN não verificou de forma independente tais números.

Autoridades responsáveis pela Copa do Mundo do Catar estimam um número de mortos muito diferente, dizendo que houve apenas três óbitos relacionadas ao trabalho em estádios e 35 não ligados ao trabalho.

Hassan Al Thawadi, o homem encarregado de liderar os preparativos do evento, disse à Becky Anderson da CNN que o número de 6,5 mil mortos do “Guardian” era “intrinsecamente enganoso” e sem contexto.

“Quando sai uma manchete sensacionalista como essa, eu entendo as preocupações das pessoas”, comentou. “Como seres humanos, todos temos a responsabilidade de nos preocupar com esses assuntos, estou totalmente de acordo com isso. Mas também acho que é muito importante descobrir os fatos na prática”.

Ele disse que algumas das pessoas eram médicos e professores que morreram de causas naturais ou de doenças, não por trabalharem em estádios para a Copa do Mundo.

Hassan Al Thawadi, secretário-geral do Comitê Supremo para Entrega e Legado, fala durante uma entrevista no estádio Al Bayt em Doha, em 8 de junho
Foto: Reprodução/CNN

Os autores da reportagem, no entanto, argumentaram que há pouca explicação médica para as causas dessas mortes, que se deve em grande parte à falta de transparência do governo do Catar. Como o Catar não faz autópsias rotineiramente, é difícil verificar o que provocou os óbitos.

Em comunicado à CNN, a FIFA, órgão que organiza todas as Copas do Mundo, concordou com o número de mortos oficiais no Catar.

“A FIFA e o Comitê Supremo (SC) do Catar sempre mantiveram a transparência em torno dessas fatalidades”, disse o documento, acrescentando que o Comitê Supremo investiga todos os incidentes de trabalho.

“Com as medidas de saúde e segurança muito rigorosas no local aplicadas pelo SC, a frequência de acidentes em canteiros de obras da Copa do Mundo da FIFA tem sido baixa em comparação com outros grandes projetos de construção em todo o mundo”.

O documento acrescentou, porém, que “continua a ser um desafio proteger totalmente os trabalhadores de perigos para a saúde que podem não estar diretamente associados ao seu trabalho no local”.

Quando questionado se acredita que as autoridades do Catar precisam fazer mais para investigar as mortes de trabalhadores, Al Thawadi afirmou que o governo está “em discussões para revisar suas taxas gerais de mortalidade”.

“Acho que o Estado do Catar tem demonstrado continuamente seu compromisso com a transparência. O simples fato de que as organizações de direitos humanos possam vir até aqui, fazer suas pesquisas e emitir seus relatórios do Estado do Catar é um testemunho do nosso compromisso”.

A Anistia Internacional confirmou isso numa declaração à CNN, dizendo: “Ao contrário da maioria dos países do Golfo, o Catar permite o acesso à Anistia Internacional para visitar o país e encontrar-se com autoridades para expor as nossas preocupações”. No entanto, a organização não emite um relatório de dentro do país desde 2013.

A nota acrescentou: “Nem sempre é fácil obter acesso a trabalhadores migrantes e locais de trabalho. Muitos deles temem sofrer represálias por falar com organizações internacionais”.

Situação grave

Nos últimos dez anos, não foram apenas as mortes supostamente associadas à Copa do Mundo de 2022 que colocaram o Catar sob um holofote implacável.

Diversas organizações de direitos humanos alegam que milhares de trabalhadores envolvidos na construção de estádios e projetos de infraestrutura foram submetidos à exploração do trabalho e violações dos direitos humanos.

Construção no estádio Lusail, em Doha, em 20 de dezembro de 2019
Foto: Reprodução/CNN

Desde 2010, os trabalhadores migrantes enfrentam salários atrasados ou não pagos, trabalho forçado, longas horas em clima quente, intimidação de empregadores e incapacidade de deixar seus empregos por causa do sistema de patrocínio existente no país, segundo as organizações de direitos humanos.

Barun Ghimire é um advogado de direitos humanos baseado em Kathmandu, Nepal, cujo trabalho se concentra principalmente na exploração de migrantes nepaleses que trabalham no exterior.

A migração de mão de obra do Nepal está bastante concentrada nos países do Golfo, com o Catar com a maior porcentagem em 2018 e 2019. Além disso, no Qatar, os nepaleses são o segundo maior grupo étnico de trabalhadores migrantes, depois dos indianos.

Ghimire disse à CNN que a situação dos trabalhadores nepaleses é “particularmente grave no Golfo”. Ele tem documentado abusos de trabalhadores migrantes no Catar muito antes de o país ganhar os direitos de sediar a Copa do Mundo. Mas, nos dez anos que se seguiram, o advogado diz ter recebido uma “porção muito alta” de reclamações de trabalhadores nepaleses que moram lá.

“A cada dois dias chega uma história”, contou. A maioria dos trabalhadores migrantes, acrescentou ele, vem da pobreza e não tem boa educação, o que os torna vulneráveis e alvos fáceis de exploração.

Ghimire relata a criação de campanhas de crowdfunding para ajudar os trabalhadores a voar de volta ao Nepal, já que muitos nunca receberam seus salários.

“Trabalhadores migrantes dos países mais pobres vão para o Catar em busca de emprego. Mas, quando chegam lá, acontece um evento trágico, que é igual ao caso dos diamantes de sangue. A Copa do Mundo do Catar é realmente a taça sangrenta: o sangue dos trabalhadores migrantes”.

A culpa não deve ser colocada apenas no Catar, frisou, acrescentando que o governo nepalês e outros países devem ser responsabilizados por não fornecerem proteção adequada aos trabalhadores em seus países de destino.

Maheshwor Nepal é um ex-trabalhador migrante nepalês que trabalhou para o departamento de atendimento ao cliente da Qatar Airways por oito anos.

Ele contou que, embora nunca tenha sofrido maus-tratos e não tenha estado diretamente envolvido com a infraestrutura da Copa do Mundo, testemunhou isso acontecer com outros trabalhadores, especialmente em estádios.

Quando o Catar ganhou os direitos de sediar o evento, o ex-migrante lembra que a ocasião foi celebrada como uma grande oportunidade para jovens de países em desenvolvimento explorarem oportunidades de trabalho no exterior. Mas a maioria deles encarou “sonhos não realizados” por seus países de origem e de destino, disse ele. “O sangue e o suor dos nepaleses se misturam em todos os projetos de desenvolvimento no Catar”, lamentou.

Ele fez várias viagens pagas do próprio bolso, como pesquisador, às zonas industriais do Catar, onde vivem a maioria dos trabalhadores migrantes, e viu o que descreveu como condições “deploráveis”.

Operário nepalês olha pela janela de seu quarto em acampamento privado que abriga trabalhadores estrangeiros em Doha, em 3 de maio de 2015.
Foto: Reprodução/CNN

Os acampamentos de trabalho construídos especificamente para migrantes sobram na paisagem ao redor da capital do Catar, Doha. Organizações de direitos humanos têm repetidamente atacado as instalações por estarem superlotadas, sem higiene e sem água e eletricidade adequadas.

O pesquisador se lembra de ter entrado em uma cozinha anti-higiênica escondida em um canto de um campo de trabalho lotado, compartilhado por dezenas de trabalhadores. Era responsabilidade deles limpar seus

próprios quartos todos os dias, disse ele, mesmo depois de trabalhar um número exorbitante de horas no calor. Ninguém fazia isso, disse Maheshwor Nepal, então eles foram forçados a viver na sujeira.

Discriminação racial

Mais de dois milhões de pessoas compõem a força de trabalho migrante do Catar, que compreende 95% de todos os trabalhadores do país. A proporção de trabalhadores migrantes no Oriente Médio, especialmente nos países do Golfo, está entre as mais altas do mundo, constatou a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

A maioria trabalha em setores de mão de obra pouco qualificada, como construção e hospitalidade, o que os torna vitais para o crescimento e desenvolvimento econômico dos países anfitriões.

A divisão do trabalho, no entanto, é incrivelmente injusta. Um relatório das ONU de 2020 encontrou “sérias preocupações de discriminação racial estrutural contra estrangeiros” no Catar, especificamente aqueles vindos de países do Sul da Ásia e da África Subsaariana.

“Para muitos no Catar, a nacionalidade e a origem nacional determinam a extensão do gozo de seus direitos humanos”, afirmou o relatório. Ele ocorreu após a visita de uma relatora especial da ONU ao Catar em 2019, onde ela documentou um “sistema de castas na prática” baseado na origem nacional.

A relatora, Kombou Barry, descobriu que aqueles com passaportes ocidentais ou árabes recebem melhores benefícios contratuais do que aqueles de certas nacionalidades do Sul da Ásia e da África Subsaariana, mesmo que trabalhem nos mesmos empregos.

Ela apontou preocupações de que as leis trabalhistas do Catar resultem em “imensos desequilíbrios de poder entre empregadores e trabalhadores migrantes”. A relatora notou um “clima de medo” entre os migrantes, preocupados com a retaliação, que os impedia de levantar queixas contra seus empregadores por violações trabalhistas.

Desde a publicação do relatório da ONU, o Catar implantou algumas políticas para reformar a estrutura trabalhista, todas decorrentes de um acordo para ajudar a proteger os direitos dos trabalhadores assinado em 2017 entre o governo do Catar e a OIT, uma agência das Nações Unidas.

“Ninguém nega que mais trabalho precisa ser feito”, disse Al Thawadi. Mas ele afirma que “o compromisso que o estado demonstrou e fez desde o início de cumprir essas promessas” é claro.

Pelo acordo com a OIT, o sistema de patrocínio do estado do Golfo, conhecido como kafala, foi desmontado no ano passado. Em parte, o sistema agora permite que os trabalhadores migrantes mudem de emprego antes do final do contrato, sem exigir o consentimento de seus empregadores.

O Catar também introduziu um salário mínimo não discriminatório de US$ 275 (cerca de R$ 1.400) por mês que se aplica tanto a trabalhadores migrantes quanto a trabalhadores do país, que afirma ser o primeiro desse tipo na região.

A renda média das famílias do Catar, no entanto, é supostamente mais de 11 vezes maior.

Quando os trabalhadores migrantes procuram emprego no exterior, muitas vezes são obrigados a pagar altas taxas de recrutamento para agências em seus países de origem. As taxas podem ser altas, deixando-os em situações vulneráveis, muitas vezes com dívidas pesadas para saldar.

Para ajudar os trabalhadores migrantes que enfrentam tais dívidas, Al Thawadi detalhou uma iniciativa que trabalha com empreiteiros para garantir que as taxas de recrutamento sejam reembolsadas aos trabalhadores. Segundo ele, a prova de pagamento não é necessária.

“As taxas de recrutamento aqui, como em qualquer outro lugar do mundo, são ilegais, mas o ônus da prova é do trabalhador. Nós conseguimos inverter o ônus da prova”.

Nos últimos cinco anos, empreiteiros que trabalham para o Comitê Supremo comprometeram voluntariamente cerca de US$ 33 milhões (cerca de R$ 168 milhões) em reembolsos a cerca de 48 mil trabalhadores. Desse total, cerca de 18 mil não trabalham em locais da Copa do Mundo, mas ainda se beneficiaram, disse Al Thawadi. “Há um compromisso firme para garantir que os direitos das pessoas sejam protegidos”, completou.

No início deste mês, o Departamento de Estado dos EUA elogiou uma autoridade do Catar por “sua liderança em estimular reformas ao sistema de patrocínio e abordar os abusos trabalhistas no Catar”.

Durante 2021, houve preocupações com a Copa do Mundo de 2022 entre os jogadores em campo. O atacante norueguês Erling Braut Haaland usa uma camiseta com o slogan “Direitos humanos, dentro e fora do campo” enquanto se aquece antes da partida
Foto: Reprodução/CNN

No entanto, Fabien Goa, gerente de pesquisa da organização sem fins lucrativos de direitos humanos FairSquare Projects, não acredita que isso seja tão claro. Com mais de uma década de experiência em direitos humanos, Goa já assessorou questões de esportes e direitos trabalhistas na Anistia Internacional, com foco na Copa do Mundo de 2022 do Catar.

Em declarações à CNN, Goa aplaudiu os passos recentes do Catar e disse que o desmantelamento do sistema de kafala foi “a reforma mais significativa” que o país fez, mas que chegou tarde demais.

“O Catar foi premiado com a Copa do Mundo em 2010. A lei não foi implementada até 2020, quando a maior parte da infraestrutura da Copa do Mundo já estava concluída, disse Goa. É uma vergonha”.

Ele também disse que, embora o desmantelamento do sistema de kafala tenha sido um passo positivo, muitas lacunas permanecem, como “acusações de fuga”, com as quais os empregadores nos estados do Golfo podem abrir processos contra os funcionários que não comparecem ao trabalho.

Essas acusações podem fazer com que trabalhadores migrantes sejam presos e deportados, e organizações de direitos humanos alegam que os empregadores abusam desse poder para controlar os trabalhadores.

“Os trabalhadores migrantes ainda não estão fortalecidos. O nível de controle ainda existe. Se tiverem a infelicidade de ter patrocinadores abusivos, eles podem usar esse poder contra eles”.

Organizações internacionais e grupos de direitos dos trabalhadores também aplaudiram as reformas, mas, ecoando Goa, insistem que mais trabalho precisa ser feito.

Em março, a Anistia Internacional pediu à FIFA que assegure que os direitos dos trabalhadores migrantes no Catar sejam totalmente protegidos antes do início da Copa do Mundo.

Em nota à CNN, a Anistia reconheceu as mudanças que o Catar introduziu, mas disse: “A fraca implementação e fiscalização dessas reformas deixou milhares de trabalhadores à mercê de empregadores inescrupulosos que foram autorizados a cometer abusos impunemente”.

“Apesar das melhorias no quadro jurídico, o progresso no local continua lento”, acrescentou.

O CEO da Copa do Mundo do Catar, Nasser Al Khater, disse que as reformas dos trabalhadores migrantes levam tempo e não podem acontecer todas de uma vez.

“É uma mudança de cultura, uma mudança de comportamento”, afirmou. “Estaríamos mentindo para nós mesmos e nos enganando se de um ano para o outro você pudesse fazer essas mudanças e pensar que tudo vai se resolver”.

Nasser Al Khater, CEO da organização da Copa do Mundo FIFA Catar 2022, dá uma entrevista coletiva no estádio Al-Janoub, na capital Doha, em 25 de setembro de 2019.
Foto: Reprodução/CNN

No entanto, Goa argumenta que o Catar teve muito tempo para fazer essas mudanças, mas em vez disso emitiu muitas “falsas promessas” ao longo dos anos.

“Se olharmos para a reforma pelas lentes dos migrantes, ela tem sido lenta. Falta urgência. Seria um desserviço para os migrantes, que suportaram sofrimento significativo durante este período de reforma, se a reforma for pintada como um esforço de progresso linear consistente”.

O nepalês Ghimire, cujo trabalho como advogado de direitos humanos é fazer justiça para quem sofre, concorda com essa avaliação.

“Embora tenha havido reformas aqui e ali, quando se trata de implementação, não é como foi anunciado”, acusou. “A maioria dos trabalhadores nem sabe que as reformas existem, enquanto outros dizem que elas estão lá apenas para mostrar”.

Jogadores da Alemanha vestem camisetas com os dizeres “Direitos Humanos” antes da partida de qualificação da Copa do Mundo FIFA 2022 entre Alemanha e Islândia em 25 de março de 2021 em Duisburg, Alemanha
Foto: Reprodução/CNN

Crise diplomática

O Catar apostou seu prestígio na Copa do Mundo de 2022, prometendo enfrentar a crise migratória e ajudar os trabalhadores explorados. Mas todos os olhos estão voltados para o país enquanto ele se recupera simultaneamente de um duplo desafio além da Copa: uma crise diplomática regional e a pandemia de Covid-19.

No mesmo ano em que o país assinou seu acordo com a OIT em 2017, ele enfrentou uma crise diplomática sem precedentes, só resolvida recentemente.

Naquele ano, um grupo de países (alguns deles seus aliados mais próximos) cortou relações diplomáticas e lançou um bloqueio ao Catar, incluindo os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, com quem o Catar compartilha sua única fronteira terrestre.

O grupo alegou que o Catar apoiou o terrorismo e desestabilizou a região, afirmações que o governo do Catar diz serem “infundadas”.

O choque inicial foi agudo e imediato. O Catar importa quase 90% de seus alimentos, por isso foi colocado em uma posição precária apenas para alimentar seu povo. Tudo isso enquanto tentava se planejar para um dos maiores eventos esportivos do mundo.

O bloqueio também teve um efeito desproporcional sobre os trabalhadores migrantes, que constituem a maior parte da força de trabalho do Catar. Na época, sob o sistema kafala, os trabalhadores migrantes precisavam da permissão do empregador para obter vistos ou deixar o país.

O Catar teve que desenvolver rapidamente sistemas, políticas e redes da cadeia de suprimentos para garantir que o país pudesse continuar funcionando, disse Al Thawadi.

As lições que aprendeu durante esse período foram úteis quando a pandemia Covid-19 chegou no ano passado.

“Sempre olhamos os obstáculos e desafios como oportunidades para crescer e evoluir. Nós nos tornamos uma nação muito autossuficiente, o que no final se tornou uma bênção quando o mundo inteiro fechou como resultado da Covid”, disse Al Thawadi.

Quando a Covid-19 começou a se espalhar, o Catar não foi poupado do impacto. Os campos de trabalho de migrantes correm um risco especialmente alto de exposição ao coronavírus, devido às condições insalubres e superlotação, segundo os grupos de direitos humanos.

Em meio a um aumento nos casos, o país implementou restrições estritas, o que acabou se revelando frutífero. O país está reabrindo lentamente agora, com mais da metade da população totalmente vacinada.

À medida que mais variantes continuam a se espalhar pelo mundo, os efeitos do Covid-19 provavelmente ainda serão sentidos em 2022. Para um espetáculo como a Copa do Mundo, onde se espera a presença de milhões de torcedores, os organizadores reconhecem os desafios.

Al Khater garantiu a Becky Anderson, da CNN, que o Catar já sediou “mais de 100 torneios e partidas desde setembro”, como a Liga dos Campeões da Ásia, que ajudou a prepará-los para futuros obstáculos.

Nesses jogos, eles viram o retorno gradual dos torcedores aos estádios com capacidade reduzida de 30%, além de construir bolhas biosseguras para os jogadores e testar todos os torcedores que compareceram.

“Tenho esperança de que, em 2022, seremos o primeiro evento que não apenas trará pessoas de diferentes origens, de diferentes sociedades e diferentes estilos de vida para celebrar aquele que é o maior evento do mundo, como também acho que, mais importante, estaremos celebrando o mundo inteiro se unindo para superar essa pandemia”, afirmou Al Khater.

Crítica feroz

A parte mais difícil de qualquer maratona pode muitas vezes ser a reta final até a linha de chegada. O CEO disse à CNN que o Catar teve um caminho difícil desde o início da corrida, e que o caminho está ficando cada vez mais difícil.

“Sempre há críticas em qualquer Copa do Mundo. Não vou dizer que isso é exclusivo do Catar, mas acho que a ferocidade das críticas é única. De qualquer forma, estaremos prontos e com certeza será uma grande Copa do Mundo”, declarou Al Khater.

Conforme a data se aproxima, Al Thawadi diz que o evento que ele tem planejado nos últimos dez anos está “entre 90 e 95% concluído”.

Isso é um progresso surpreendente em comparação com as Copas do Mundo anteriores, onde muitas vezes os países anfitriões lutaram para terminar tudo a tempo.

Quatro estádios do Catar já foram concluídos e inaugurados, um está prestes a ser entregue e outros três estão em vários estágios de conclusão.

Al Thawadi garante que “até o final deste ano, ou o mais tardar no início do próximo, todos os estádios estarão concluídos”.

A CNN conversou com Al Thawadi no estádio Al-Bayt (que significa “casa” em árabe), provavelmente a sede da partida de abertura do torneio. Com o objetivo de refletir a herança do país, o estádio tem o formato de uma tenda: uma homenagem às tradições beduínas do Catar, nômades e acolhedoras.

“A ideia é que o mundo venha e esteja em estádios que não só são o que há de mais moderno em tecnologia e sustentabilidade, mas também são um reflexo fiel de nossa cultura e patrimônio”, afirmou Al Khater.

A história desta Copa do Mundo é, em muitos aspectos, a história de Al Thawadi e Al Khater, que foram os responsáveis por viabilizar o torneio.

Por mais que reconheçam as críticas à sua estrutura de trabalho, sua principal intenção é que o evento seja um catalisador de mudanças para a região e um veículo de progresso.

Questionado sobre o que o entusiasma mais, Al Khater disse que são as pessoas. “Receber a torcida, ver a alegria em seus rostos, saber que o país se orgulha”, enumerou.

Al Thawadi diz que ainda sente um pouco de apreensão e estresse, mas no final das contas, está orgulhoso da jornada até agora e de seu significado para a região

“Todo o mundo árabe está animado com este torneio. É o torneio deles. É o nosso torneio. É uma oportunidade para o mundo nos ver como somos: uma nação hospitaleira, amigável e louca por esportes”.

É o que é o Catar, o caráter da nação, algo tão crítico para eles. Aparentemente, serão necessários avanços significativos para moldar o destino da Copa do Mundo e, depois, do próprio país.

*Mohammed Al-Saiegh, Hannah Ritchie, Saffeya Ahmed e Isis Amusa contribuíram para esta reportagem. (Texto traduzido. Leia o original em inglês aqui.)