Gabarito errado e vazamento de resultados marcam Enem 2019


Anna Satie Da CNN Brasil, em São Paulo
07 de março de 2020 às 12:22
O ministro da Educação Abraham Weintraub na frente de cenário que diz Enem 2019

O Ministro da Educação, Abraham Weintraub, faz balanço sobre a realização do Enem 2019 (10.nov.2019)

Crédito: Antonio Cruz/Agência Brasil

“Foi o melhor Enem de todos os tempos”, afirmou o ministro da Educação, Abraham Weintraub, na Comissão de Educação do Senado no dia 11 de fevereiro. Naquela data, ele participou de audiência para esclarecer os contratempos na edição de 2019 do maior exame do país e chamou de “probleminhas” os erros na correção que afetaram cerca de 6.000 candidatos. 

Uma falha na gráfica fez com que o gabarito errado fosse atribuído a 0,15% das 3,9 milhões de avaliações. Segundo o MEC (Ministério da Educação), 96,7% dos erros se concentram em quatro cidades: Alagoinhas, na Bahia; e Viçosa, Ituiutaba e Iturama, em Minas Gerais. 

Apesar da porcentagem relativamente pequena, o equívoco gerou desconfiança quanto à lisura do exame. O Inep, autarquia vinculada ao MEC responsável pela organização do teste, declarou ter recebido 172.000 pedidos de revisão. A falha atrasou os calendários de ao menos seis universidades federais. 

A nota do Enem não é apenas a soma de todos os acertos. Desde 2009, a correção é feita usando a TRI (Teoria de Resposta ao Item), modelo matemático que considera a dificuldade de cada questão e a consistência das respostas de cada aluno. Seguindo esse critério, alguém que erra questões fáceis não poderia acertar as mais difíceis, eliminando a possibilidade de obter um bom desempenho “no chute”. 

Relembre todos os problemas da edição 2019 do Enem: 

Bloqueio do Sisu e vazamentos 

No dia 20 de janeiro, a Justiça Federal em São Paulo determinou que o Sisu (Sistema de Seleção Unificada), sistema pelo qual os participantes do Enem podem se candidatar a vagas em 119 universidades públicas, fosse suspenso em todo o país até que todas as notas fossem regularizadas. 

Nas redes sociais, alguns candidatos relataram ter acesso à lista de convocados antes da liberação oficial. O MEC negou que os resultados fossem reais. Em 28 de janeiro, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) anulou a decisão anterior e autorizou a publicação dos aprovados --os mesmos da lista vazada anteriormente. 

Além dessa, houve outra divulgação indevida no exame. No dia 3 de novembro de 2019, data em que foi aplicada a redação, uma foto com a proposta do texto já circulava pela internet minutos após o início da aplicação. Weintraub foi ao Twitter confirmar que a imagem era real, mas garantiu que não afetaria o andamento do certame.  

Tweet do ministro da Educação, Abraham Weintraub

Publicação do ministro da Educação, Abraham Weintraub, em que reconhece vazamento, mas garante segurança do Enem 2019 (3.nov.2019)

Crédito: Reprodução/Twitter

Ministro atende apoiador pelo Twitter 

Em 26 de janeiro, Weintraub atendeu pelo Twitter um apoiador que contestou a correção da prova da filha. O ministro respondeu com o print de uma conversa no WhatsApp na qual pede ao presidente do Inep, Alexandre Lopes, para “verificar” o caso.   

Tweet pedindo a Abraham Weintraub revisão de Enem 2019 da filha

Apoiador do governo pede a Abraham Weintraub pelo Twitter a revisão da nota da filha (25.jan.2020)

Crédito: Reprodução/Twitter

A Defensoria Pública da União levou o caso à Justiça, alegando violação ao princípio da impessoalidade. “Se aqueles que fazem pedidos informais nas redes sociais para revisão da nota são atendidos, por que não o são aqueles que o fizeram pelo canal criado pela própria Administração?”, questiona o órgão.  

Segundo a AGU (Advocacia-Geral da União), há pelo menos 50 ações judiciais pedindo o que Weintraub concedeu pelo Twitter. 

Após a sucessão de erros no Enem, Weintraub foi criticado publicamente pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ). "O ministro da Educação atrapalha o Brasil, tem visão ideológica e brinca com o futuro de milhões de crianças", disse o parlamentar no dia 30 de janeiro.  

Mesmo com a repercussão, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, garantiu que Weintraub permanece no cargo. Segundo ele, Bolsonaro está “plenamente satisfeito” com toda a sua equipe.

Lista de espera e atraso no calendário das universidades 

Um erro no sistema de lista de espera atrasou o calendário de ao menos seis faculdades públicas. Prevista para sair no dia 7 de fevereiro, a relação traria os candidatos interessados nas vagas que não foram reivindicadas na primeira chamada. No entanto, para essas instituições, ou a lista não foi enviada, ou chegou com erros.  

Entre as afetadas, estão a UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), UFPel (Federal de Pelotas), UFOB (Oeste da Bahia), UFRPE (Rural de Pernambuco), UFCG (de Campina Grande) e o IFPI (Instituto Federal do Piauí), reportou a Folha de S.Paulo. 

A lista de espera só foi entregue três dias depois, no dia 10. A confusão atrasou o cronograma das universidades, que terão de remarcar datas de matrículas. O MEC não justificou o atraso. 

Falência de gráfica e exonerações no Inep 

Os erros no maior vestibular do país vêm depois de um ano atribulado no Ministério da Educação. Em abril de 2019, foi anunciada a falência da gráfica RR Donnelley, que imprimia a prova desde 2010. 

Foi contratada, então, a segunda colocada da última licitação feita, em 2016 --segundo o Inep, solução preferível a abrir novo concurso, o que poderia levar meses e atrasar a aplicação do exame. 

A Valid, empresa escolhida, nunca havia prestado serviços da dimensão do Enem. Os problemas na correção foram causados por um erro na impressão dos códigos de barra que identificavam o gabarito. Consta no edital de contratação da gráfica que a empresa faça uma verificação em duas etapas, para que falhas dessa ordem não aconteçam. Portanto, aconteceram dois equívocos distintos. 

O presidente do Inep, Alexandre Lopes, segura 2 cadernos de prova do Enem 2019

O presidente do Inep, Alexandre Lopes, em entrevista após divulgação dos resultados do Enem (20.jan.2020)

Crédito: Fábio Rodrigues Pozzobom/Agência Brasil

Além dos problemas técnicos, o Inep teve quatro presidentes diferentes em 2019. A primeira, Maria Inês Fini, foi demitida na primeira semana de Jair Bolsonaro como presidente da República, após afirmar que o governo não mandaria no Enem. Além de Fini, passaram pela chefia do órgão Marcus Vinicius Rodrigues e Elmer Vicenzi. Alexandre Lopes, que comanda o instituto atualmente, está no cargo desde maio. 

Também houve uma troca no mais alto cargo da pasta. Em março, o então ministro da Educação, Ricardo Vélez, foi substituído por Weintraub. 

Histórico de falhas 

Em seus 11 anos de existência, o Enem acumulou um histórico de falhas. A mais grave aconteceu na primeira edição nos moldes atuais, em 2009, quando um vazamento fez com que a prova fosse cancelada.  

O erro de 2019 é o que afeta mais pessoas desde 2010, quando a impressão incorreta dos cadernos fez com que 9.500 pessoas tivessem de refazer o teste.