Calendário do Ministério da Educação deve ser mantido mesmo com coronavírus


Renata Agostini
Por Renata Agostini, CNN  
20 de março de 2020 às 16:16


O impacto da pandemia do novo coronavírus (COVID-19) está em todos os setores, inclusive na educação. 

Em conversa com Renata Agostini, analista de Política da CNN Brasil, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse que as escolas e universidades não serão fechadas todas ao mesmo tempo, mas que está avaliando com as secretarias estaduais duas medidas: se flexibiliza o calendário neste ano, com menos dias, ou se busca alguma compensação um pouco mais à frente.

Na entrevista, o ministro disse ainda que há uma preocupação muito grande do governo com a situação das crianças e dos jovens que ficarão sem as aulas. “Isso porque temos uma realidade muito triste no país, onde muitas crianças acabam se alimentando ou tendo a principal alimentação do dia justamente no colégio. Eles estão conversando sobre continuar fornecendo essa alimentação para as crianças e que os professores das escolas que serão fechadas e, portanto, não estarão dando aula, possam fazer visitas regulares a essas crianças e jovens, verificar como eles estão e, eventualmente, dar algumas orientações”, explica.

Confira a íntegra da entrevista (em vídeo, acima, e em texto, abaixo):


Renata Agostini: Estamos diante de uma situação inédita. O cenário mudou bastante nos últimos dias. Há dois aspectos. O primeiro é como fica o calendário de aulas e o outro é como atender a população mais carente, pensando na rede pública, que não têm com quem deixar a criança ou precisa que a criança vá até a escola para se alimentar, por exemplo.  O que vocês já programaram para atender a população mais vulnerável?


Abraham Weintraub: É um momento crítico, não é uma coisa tranquila, estamos falando de vidas humanas. Eu acho que as pessoas precisam manter a racionalidade, evitar pânico. O mundo não vai acabar. Simplesmente estamos falando de um percentual de brasileiros que, caso nós não tenhamos uma eficiência na condução da crise, podem morrer mais ou menos, principalmente os mais velhos. Felizmente as crianças, aparentemente, não sofrem com essa crise, mas elas são vetores de transmissão. Por isso a preocupação de evitar com que a gripe, a doença, o coronavírus, se espalhe rapidamente. Qual é o desafio? Metade dos brasileiros estão na informalidade. Esse pessoal vai perder renda, vai diminuir a renda. Ao mesmo tempo que nas famílias mais pobres, a merenda é muito importante. Então nós estamos buscando alternativas junto com as secretarias estaduais e municipais para conseguir manter o suprimento.

Renata Agostini: Nós não teríamos todas as escolas e as universidades fechando no curto prazo ao mesmo tempo. Isso possivelmente, pelo o que o senhor indica, será escalonado a depender da necessidade local.


Abraham Weintraub: Nós queremos passar as informações para o gestor na ponta. Veja, quem decide em última instância é o gestor da secretaria estadual ou municipal da escola. O que a gente gostaria é passar tranquilidade, mostrar que não é o fim do mundo e que não é todo mundo que vai morrer. É uma medida racional para poupar vidas e dentro dessa decisão nós temos escolhas, algumas duras. E essas escolhas têm que ser tomadas sob o aspecto técnico e não emocional. Tem muitos estados e munícipios que não têm nenhum caso de coronavírus. Então não adianta a gente entrar em pânico. Isso daqui é uma crise que nós vamos ter que enfrentar durante dois, três, quatro meses. Durante esse tempo o Brasil não pode simplesmente parar. A vida tem que prosseguir.


Renata Agostini: Como é que vai ficar o calendário do próprio ministério da Educação? Vai ser afetado? Como vocês estão se programando para o Enem deste ano? 


Abraham Weintraub: O que a gente pediu é que todo mundo que possa trabalhar remotamente, trabalhe remotamente. E, por enquanto, não teve impacto nenhum aqui no Ministério da Educação (MEC). Então, por enquanto, os cronogramas estão todos mantidos. Especificamente o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), existe um período quando a gente monta o Enem. Debaixo do 'guarda-chuva' do MEC nós temos várias vinculadas. Nós temos as redes de hospitais universitários, que são hospitais universitários, é a maior rede de hospitais do Brasil. Então, o MEC está diretamente envolvido no combate a essa crise. A gente atende oito milhões de pessoas por ano, em um ano normal, nos hospitais universitários. Nós tiramos recursos de uma área e estamos mandando para os hospitais para reforçar o caixa deles para eles comprarem equipamento, oxigênio, se prepararem para ter os leitos de UTI. Tem alguns hospitais que a gente consegue ampliar os leitos agora, de UTI principalmente. No Inep, que é onde fazemos o Enem, a parte mais sensível é quando nós estamos fechando as questões e depois vamos para uma sala blindada. É onde restringimos o acesso das pessoas e trabalhamos no ambiente fechado, blindado, com algumas pessoas lá dentro. Como estamos ainda a alguns meses dessa etapa, nada ainda está comprometido. Quando chegar nessa fase, eu acredito que a doença já vai estar bem encaminhada.


Renata Agostini: Mas não haverá prejuízo para o ano escolar dos estudantes. Eles não podem precisar de mais tempo, ou seja, o senhor disse que o Enem deste ano segue mantido a princípio. Mas não considera eventualmente uma data mais a frente?


Abraham Weintraub: Por enquanto nós não vamos mexer no cronograma porque no caso do Enem é concorrencial. Então não é que você tem que ter um certo patamar de conhecimento para passar. Os melhores passam. Então é concorrencial. Eu não vejo tanto dano. O que você falou é importante. Essa crise significa que todos nós, em maior ou menor proporção, de alguma forma, vamos sofrer. Vai ter perda de qualidade no ensino? Lógico que vai. Como é que eu alfabetizo uma criança pequena sem segurar no lápis e escrever junto? É evidente que estamos falando de prejuízos para a sociedade como um todo. O mundo inteiro está passando por isso. O que nós estamos buscando aqui no Brasil é que o prejuízo, para toda a nação brasileira, seja o mínimo possível. Que morra o mínimo possível de pessoas, que o prejuízo na educação, na economia, no conforto seja o menor possível.