Motoboy de São Paulo relata medo e falta de auxílio para trabalhar em quarentena

"Meu maior medo é levar esse vírus pra minha casa e infectar a minha família", diz Bruno Mio, que faz entrega para aplicativos de delivery nos finais de semana

Bruno Laforé e Talis Mauricio Da CNN, em São Paulo
29 de março de 2020 às 21:32 | Atualizado 30 de março de 2020 às 11:32

Os finais de semana do motoboy Bruno Mio, de 28 anos, são sempre iguais. Onze da manhã ele aciona os aplicativos para os quais faz entregas de refeições, remédios e compras. Enquanto parte da população está em isolamento domiciliar para se proteger do novo coronavírus, ele está nas ruas, mas o medo é inevitável.

"A gente fica com medo, né? Eu, particularmente, estou com receio de sair para entregar, pegar o alimento nos restaurantes e entregar para os clientes. Porque, talvez, nem todos os clientes e lojistas têm o mesmo cuidado que eu tenho, de passar o álcool em gel nas mãos, se prevenir para não pegar o vírus".

Mesmo que bares e restaurantes não possam abrir as portas no período de quarentena, que começou no dia 24 de março e vai até 7 de abril, as entregas por aplicativo desses locais estão autorizadas --entraram no rol de atividades essenciais liberadas pelo governo de São Paulo em meio à pandemia do novo coronavírus. 

Com o objetivo de conhecer a realidade dos entregadores por aplicativo, a reportagem da CNN acompanhou a rotina de Bruno neste domingo (29).

O encontro se deu no Largo Rudge Ramos, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, local onde o motoboy costuma iniciar os trabalhos. Tão logo acionou os apps, surgiu o primeiro chamado, comemorado por Bruno. “O sindicato disse que iam aumentar os pedidos, mas na prática caíram muito”, reclamou.

Com a crise, o sindicato que representa a categoria, o SindimotoSP, prevê um aumento na demanda por pedidos delivery. Mas Bruno, que trabalha apenas nos finais de semana, disse que antes da crise tirava R$ 500, e agora está tirando R$ 200, uma queda de 60% nas entregas.

Entre o recebimento do chamado, a retirada do pedido no restaurante e a entrega na casa do cliente são cerca de trinta minutos, às vezes um pouco mais.

No restaurante, o contato é mínimo entre as partes. O alimento é deixado num balcão, retirado pelo motoboy, seguindo direto para o baú de entregas. Não havia álcool em gel disponível no local de retirada da refeição. 

A viagem até a casa do cliente. Com o pagamento feito pela internet e a uma distância segura, cliente e motoboy nem precisam se aproximar um do outro.

"Não é medo, não. É só pra gente se proteger e eles também, né? Então, é respeitar o espaço um do outro e os dois colaborarem e se ajudarem. É que cada um está num lugar, vivendo situações diferentes, então é melhor a gente se precaver", diz o gerente de desenvolvimento Thiago Oliveira, autor do pedido entregue pelo motoboy.

Sem proteção

O entregador Bruno Mio
Foto: Divulgação

Assim que deixa a entrega, Bruno corre para higienizar as mãos com o frasco de álcool em gel que trouxe de casa. É a única proteção que dispõe para evitar uma infecção pelo novo coronavírus. O frasco fica guardado em um compartimento de sua motocicleta.

"Não estamos recebendo nada [das empresas de aplicativo]. O álcool em gel que eu tenho comprei por minha conta para evitar infecção. Máscara, luva... nada, nada", desabafa Bruno entre uma entrega e outra. Ele também reclama que faltam incentivos para que, em meio a tantos riscos, os entregadores se sintam motivados a sair de casa. “O que eu ganhava antes era na faixa de R$ 5 a 6 por entrega. E continua a mesma coisa. Sem incentivo algum, sem adicional, nada”.

Durante a semana, Bruno vive de bicos e desempenha outras funções. Mas não é o suficiente para o sustento da família. Por isso faz entregas por aplicativo nos finais de semana, como complemento de renda. Com duas faculdades no currículo, Gestão em Recursos Humanos e Logística, foi a alternativa que encontrou diante do desemprego. Sem convênio médico e auxílios básicos para enfrentar o novo coronavírus, seu grande medo é levar a doença para a família.

"Meu principal medo é pegar o vírus, infectar o meu pai que está na zona de risco, minha mãe que tem imunidade baixa, minha sobrinha que é recém-nascida e minha cunhada que acabou de ter o neném e está com a imunidade baixa. Meu maior medo é levar esse vírus pra minha casa e infectar a minha família".