O Grande Debate: São Paulo deveria ampliar a quarentena?

Augusto de Arruda Botelho e Caio Coppolla discutem também o uso de dinheiro fundo eleitoral para o combate ao coronavírus no Brasil

Da CNN, em São Paulo
17 de abril de 2020 às 22:43 | Atualizado 17 de abril de 2020 às 23:03

O Grande Debate da noite desta sexta-feira (17) abordou dois temas. Primeiro, Caio Coppolla e Augusto de Arruda Botelho discutiram o anúncio do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), de estender a quarentena no estado. Depois, debateram sobre o uso de recursos do fundo eleitoral para combater a pandemia de coronavírus no Brasil.

Para Caio, a decisão de estender a pandemia não tem uma resposta fechada nem de cientistas. "Extensão depende de quem está respondendo. Cientistas não saberiam responder, pois a análise muda diariamente. Na verdade, a decisão de João Doria hoje foi política, especialmente pelo timing do anúncio. Hoje, o Brasil opera na lógica de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo, e o real adversário de muitas pessoas parece ser o presidente, que está sendo desgastado em quatro frentes: orçamentária, fiscal, judicial e pela opinião pública. Mesmo trazendo para o Ministério da Saúde alguém com visão mais abrangente do problema, a julgar por seu primeiro pronunciamento”, disse.

Para Augusto, “a pandemia não tem timing”. Ele disse discordar de que o prolongamento é uma ação política. “Estamos tratando de fatos. Projeções mostram que o número de casos da doença no Brasil pode ser sete ou até 12 vezes maior que o divulgado. No estado de São Paulo uma pessoa morre de COVID-19 a cada 30 minutos. Se na política atual apenas 49% das pessoas estão em isolamento, imagine se as restrições fossem afrouxadas? Teríamos o caos no sistema hospitalar”, afirmou.

Caio concordou com Augusto sobre a gravidade da situação, mas disse que, mesmo em isolamento em baixos níveis, as respostas corroboram aqueles que defendem a retomada das atividades. "Uma das provas que a flexibilização é o caminho a se seguir são os números. Se o isolamento não foi respeitado e o sistema está suportando, sinal de que pode dar certo. O Brasil não tem economia robusta para aguentar paralisia da economia, então não se trata aqui de saúde versus medicina”, disse.

Sobre a afirmação de que a medida de prorrogar a quarentena foi política, Augusto disse que quem anunciou a medida foi David Uip, um dos médicos infectologistas mais respeitados do Brasil. E citou novamente: “Uma pessoa morre a cada 30 minutos em São Paulo, é um número incontestável. Nós não queremos que todos peguem ao mesmo tempo para não colapsar nosso sistema de saúde”.

Caio respondeu dizendo que nunca tivemos capacidade suficiente para enfrentar a pandemia. “A abordagem de furacão [de todos ficarem trancados em casa] demora muito. Se as pessoas pararem de trabalhar por muito tempo, a pauperização da população vai matar muito mais”, disse.

Augusto afirmou que o Brasil nunca esteve em um lockdown como na Europa, e que grandes autoridades brasileiras em epidemiologia são unânimes em recomendar o isolamento. “Eu fico com a ciência”, disse Augusto.

Caio respondeu: “Não estou ignorando estes especialistas, mas existe a necessidade de retomar economia sob pena de perdermos mais vidas. Em outros países o lockdown nem sempre significou queda na curva, uma vez que a verdadeira ciência não vai ter as mesmas soluções para situações distintas. Temos grandes regiões paralisadas e com capacidade médica disponível. Essas pessoas poderiam estar realizando atividades econômicas e cada vez mais estamos postergando a situação”, disse.

Augusto concordou que a conta irá chegar, e elogiou a política estabelecida pelo presidente norte-americano, Donald Trump, para a reabertura econômica dos Estados Unidos. “Extremamente detalhada e realista, em fases. Os critérios são: casos precisam estar diminuindo nos Estados Unidos, não só de coronavírus, mas outras doenças respiratórias. Sistema hospitalar precisa garantir que tem leitos, além de trazer a necessidade de deixar o programa de testes mais robusto. Brasil está muito longe de atingir estes critérios”, disse.

Uso do fundo eleitoral para ajudar no combate ao coronavírus

O segundo tema do debate foi o uso de recursos do fundo eleitoral para o combate ao coronavírus.

Caio relembrou sua primeira fala sobre o assunto em outra edição do programa, dizendo que com os R$ 3 bilhões que seriam disponibilizados pelo fundo, é possível construir 22 mil leitos de UTI, 5 milhões de testes, 30 mil respiradores ou 1 bilhão de máscaras. "O fundo partidário são formas complementares de campanhas políticas, não são gastos essenciais. Usar bilhões de reais para fazer propaganda é irresponsável e imoral neste momento, e quem defende são os políticos e seus advogados. Hoje, a falta de equipamentos médicos é a nossa fragilidade diante da pandemia. Então, para mim, a consequência lógica disso é usar todos os recursos para ajudar na pandemia, mas não é o que o presidente da Câmara dos deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) faz, apesar de falar o contrário”, disse.

Para Augusto, a proposta de Caio não se limita a apenas usar recursos do fundo, mas sim extinguir ele. “A ideia de usar o fundo eleitoral é demagógica, já que o Caio não acredita em democracia representativa. Se querem usar este dinheiro, evidente que sou favorável, desde que definam prazos para a devolução. Porém ao defender o fim dos fundos partidários e eleitorais, você defende a plutocracia, um sistema onde só os ricos vão ter dinheiro para fazer uma campanha”, afirmou.

Caio respondeu: “Sou sim contra o financiamento público de campanhas políticas. O cidadão não deve financiar candidatos que não gostam. É possível sim conseguir financiamento sem dinheiro público, veja a eleição de nosso último presidente, que foi amplamente ajudada por vaquinhas online. Quando você tem um político representativo, é possível conseguir amplo apoio popular”, afirmou.