Ceagesp tem morte de 6 trabalhadores confirmadas e suspeitas por COVID-19

Diretor financeiro da Associação dos Permissionários do entreposto, Luiz Antônio Pain, diz que é comum ouvir relatos de sintomas entre os trabalhadores

José Brito e Talis Maurício da CNN em São Paulo
30 de abril de 2020 às 20:47
Movimentação nos portões de entrada e saída do Ceagesp em São Paulo (10.abr.2020)
Foto: Ronaldo Silva/Futura P/Estadão Conteúdo

Seis trabalhadores da Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo) morreram, nas últimas duas semanas por COVID-19 ou suspeita da doença. A empresa pública mantém 13 unidades distribuídas pelo Estado de São Paulo, incluindo a maior central de abastecimento de frutas, legumes, verduras, flores e pescados da América Latina, o Entreposto Terminal São Paulo (ETSP), na zona oeste de São Paulo. A CNN entrevistou alguns familiares de vítimas.

Francisco das Chagas de Almondes, 42 anos, era comprador de mercadorias e, no dia 10 de abril, após terminar o trabalho, foi para casa e reclamou de falta de ar para a esposa. Ele foi ao Pronto Socorro José Agostinho dos Santos, em Barueri. Na mesma noite, ligou para a esposa e disse que estava sendo encaminhado ao Hospital Geral de Itapevi para ser internado. “Na segunda-feira (13 de abril), eu fui lá e ele já estava na UTI e o médico me disse que era COVID-19. No dia 21, ele faleceu”, conta a viúva de Francisco, Jucines Rodrigues. No documento dado pelo hospital, as causas da morte foram “choque séptico, pneumonia, doença respiratória aguda, COVID 19 e insuficiência renal aguda”.

Segundo Jucines, o marido dela usava máscaras e álcool em gel e não tinha doenças anteriores. “É muito triste saber que tem tantas pessoas estão passando por isso. A gente, que está passando, sabe o quanto é difícil. Ele tinha que ir trabalhar, mas correndo o risco.”, disse. Ela revela ainda que havia mais dois colegas de Francisco internados, no hospital, um carregador de frutas e um motorista de caminhão. A ambos faleceram por suspeita de COVID-19.

A viúva de um deles, que pediu para ter a identidade da família preservada, conta que o marido trabalhava na Ceagesp descarregando mercadorias de caminhões, das 6h às 18h, cinco dias por semana. “No dia 26 de março, ele começou a ter sintomas de dor no corpo e febre. Ele foi em cinco lugares para ser atendido e só no quinto foi internado. Dois dias depois, ele foi transferido para o Hospital Geral de Itapevi”, lembra. No dia 18 de abril, ele faleceu, após ficar cinco dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Na declaração de óbito do Serviço Funerário de Osasco consta como causa da morte do trabalhador: "insuficiência respiratória a esclarecer".

No mesmo dia, o irmão dele, que também trabalha como carregador de frutas, e ficou internado em um hospital por três dias, recebeu o resultado do teste positivo para COVID-19. O cunhado, também funcionário da central de abastecimentos, e o filho da vítima fizeram tomografias do tórax e foram  constatadas até 40% e menos de 25% da capacidade de seus pulmões respectivamente. Eles não foram internados. A viúva do carregador diz que ele se cuidava, pois já tinha problemas de falta de ar frequentes e estava preocupado. “Ele usava máscara, chegava em casa, ia para o banho e fazia toda a higienização.”, conta.

Hoje, são 18 mil empregados das empresas de frutas, legumes, verduras e pescado. Segundo o diretor financeiro da Associação dos Permissionários do Entreposto de São Paulo (Apesp), Luiz Antônio Pain, é comum ouvir relatos de sintomas entre os trabalhadores. “Eles não fizeram o teste, mas quase todo mundo que você conversa aqui, teve algum sintoma bem parecido do outro. E os colegas que fizeram o teste, uns doze que eu conheço, todos deram positivo (para a doença)”, revela Pain, que tem 60 anos. Ele e filho, que trabalham juntos, fizeram o teste e também foram confirmados com o novo coronavírus.

Há 40 anos, Pain tem um box de frutas na Ceagesp e explica que a situação dos trabalhadores é complicada por serem um serviço essencial a população. “Vamos parar como? Por quanto tempo? Os nossos produtos são perecíveis e as pessoas precisam comer”, indaga.

Por quatro anos, quatro vezes por semana, o motorista de caminhão Sidnei José Silva, trabalhava fazendo entregas na ETSP. No dia 14 de abril, ele apresentou sintomas de uma gripe forte e também foi internado, no Hospital Geral de Itapevi, onde faleceu um dia depois do colega que era carregador. Sidnei tinha 46 anos e sofria de diabetes. “Fizeram o teste, no dia 16, mas até hoje não saiu o resultado. Eu fui atrás para saber se a minha filha e eu poderíamos fazer também, mas negaram e explicaram que era só para profissionais da saúde”, disse a viúva Patrícia Gomes. Segundo uma de suas filhas, no atestado de óbito de Sidnei consta insuficiência respiratória.

Na última quarta-feira (30), a presidência da Ceagesp emitiu um comunicado atualizando o funcionamento do entreposto e o seu abastecimento, além de reforçar as medidas para conscientizar o público frequentador do local sobre a responsabilidade individual e coletiva no combate à COVID-19. “As áreas responsáveis pela limpeza e fiscalização têm atuado incansavelmente para varrição durante o dia e lavagens com caminhão pipa ao entardecer, bem como o constante abastecimento de sabão e papel para higienização das mãos. Junto a isso está a obrigatoriedade do uso de máscaras dentro de todas as unidades da CEAGESP, na capital e no interior”, disse.

A Companhia listou ainda as medidas que estão sendo enfatizadas para a segurança de trabalhadores, comerciantes e clientes, como o uso obrigatório de máscara. Outras orientações são lavar as mãos com água e sabão constantemente e usar e oferecer álcool em gel a clientes e funcionários.