O Grande Debate: é justo manter a data do Enem definida pelo governo?

Augusto de Arruda Botelho e Caio Coppolla discutiram também o novo modelo de rodízio adotado em São Paulo por causa da pandemia de COVID-19

Da CNN, em São Paulo
11 de maio de 2020 às 23:07 | Atualizado 11 de maio de 2020 às 23:27

No Grande Debate da noite desta segunda-feira (11), Caio Coppolla e Augusto de Arruda Botelho discutiram se é justa a manutenção da data do Enem, cujas inscrições começaram hoje mesmo em meio à pandemia do coronavírus, e a eficácia do rodízio ampliado adotado na cidade de São Paulo para o combate à Covid-19. 

“O calendário não pode ser mantido de forma nenhuma. O exame prega pela equidade de condições de disputa dos estudantes e deve levar em conta a realidade de todos os estudantes do Brasil", disse Augusto.

Segundo ele, apenas 44% dos municípios da zona rural do Brasil têm internet. Nas famílias com renda inferior a um salário mínimo, 70% têm acesso a internet apenas no celular, e 40% dos alunos no Brasil não possuem um espaço físico na casa para estudar.

"Em um país com enorme desigualdade manter o calendário é aprofundar o abismo, e retroceder décadas na busca por um ensino superior plural”, disse.

Caio disse preferir ver o "copo meio cheio", e lembrou que o Brasil tem hoje 230 milhões de smartphones em uso e 180 milhões de computadores, laptops e tablets, o que dá uma média de 2 dispositivos digitais por habitante, segundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas, mas fez uma ressalva.

"Claro que o panorama não contempla bolsões de pobreza pelo País, e a suspensão representa desafio extra a estes estudantes. Por outro lado, a manutenção do calendário é crucial para jovens que não se podem dar ao luxo de perder um ano escolar. Dessa forma, fixar uma data traz um aspecto isonômico, uma vez que a paralisação das aulas já afetou todos os estudantes, em maior ou menor grau", defendeu.

Augusto disse não ver "nenhum prejuízo no adiamento no exame do Enem”, e lembrou que órgãos independentes como o TCU (Tribunal de Contas da União) e o Conselho Nacional de Secretários de Educação defendem a medida.

Caio disse concordar com Augusto, e afirmou que sua única divergência é em relação ao tamanho do adiamento, com receio de alunos perderem um ano escolar inteiro. Segundo Caio, beira a “demagogia falar da desigualdade de alunos se o próprio sistema causa estas distorções”. 

Rodízio em São Paulo

O segundo tema do debate foi a implantação do rodízio ampliado em São Paulo, com o objetivo de aumentar o nível de isolamento na cidade. A medida foi alvo de ação judicial da Associação Comercial de São Paulo.

Para Augusto, a medida é válida, mas os resultados iniciais mostraram que talvez o prefeito Bruno Covas (PSDB) tenha que recuar.

"Houve sim redução de congestionamento nos horários de picos, mas isso vale a pena diante do aumento de pessoas no transporte público? Esse vai e volta de medidas para aumentar o isolamento podem passar imagem ruim para a população. O prefeito pode esperar alguns dias para ver a efetividade da medida. Mas podemos ter o luxo de esperar diante da pandemia?", disse.

Caio disse que o rodízio ampliado desconsidera a massa de trabalhadores que tiveram restrições, mas ainda precisam trabalhar diariamente.

"A prefeitura não isentou do rodízio outros trabalhadores de serviços essenciais, e estes ficam a mercê do transporte público. Números preliminares mostram um aumento de 15% no movimento de trens e metrôs, ou seja, cerca de 255 mil pessoas a mais compartilhando espaços reduzidos e não arejados", afirmou.

Ainda segundo Caio, a decisão da prefeitura foi política. "Está cada vez mais difícil acreditar que estes decretos tem caráter científico, são decisões políticas travestidas de ciência e ancoradas no pânico da população. O Ministério Público deveria exigir explicações dos estudos que embasaram a decisão”.